‘Capone’: a melhor tradução do pathos da 40ena

‘Capone’: a melhor tradução do pathos da 40ena

Rodrigo Fonseca

15 de maio de 2020 | 12h05

Site da Vertical Entertainment (https://www.vert-ent.com/) disponibiliza legalmente a chance de conferir a espetacular atuação de Tom Hardy como Al Capone

Rodrigo Fonseca
Sem medo de ser grotesco, corajoso o suficiente para explorar as entranhas (literalmente) de um mito do submundo, “Capone”, de Josh Trank, periga ser o filme que mais e melhor traduz a instabilidade emocional e psicológica do mundo, neste dias de 40ena, utilizando a decadência física e moral do mais emblemático dos gângsteres para mostrar que nem o Poder é imune à doença. Como vê-lo? Aqui: https://www.vert-ent.com/. Fundada em 2012 por Richard B. Goldberg e Mitch Budin, a Vertical Entertainment é a distribuidora responsável por levar ao planisfério do VoD e do streaming este doído thriller que rachou opiniões na web por sua abordagem frontal da violência e da escatologia, numa forma plástica que flerta com o cinema B. Tom Hardy, ator inglês que tomou os anos 2010 de assalto como Mad Max e brilhou nas HQs como Venom, tem uma atuação antológica ao representar Alphonse Gabriel Capone (1899-1947) em seus últimos resquícios de lucidez. Orçado em cerca de US$ 20 milhões, o longa foi filmado em Nova Orleans de março a maio de 2018, pelo polêmico realizador de “Poder Sem Limites” (2012) e “Quarteto Fantástico” (2015). Sua trama acompanha a vida do chefão nascido em Nova York, mas famoso por sua carreira em Chicago, depois que ele sai da prisão, após ter sido detido por sonegação de impostos. Ele foi preso em 1931 e foi parar em Alcatraz, onde amargou diabos. Em 1940, quando foi liberado, Al era uma figura patética e doente, vítima da neurosífilis.

Isolado, e já sem poder, ele passou a viver com sua mulher e a família em uma mansão de Miami, onde morreria aos 48 anos de idade. Trank retrata o fim de linha do bandido como um espetáculo trágico de alucinações, incontinência fecal e surtos de agressividade. Doente, Capone precisa parar de baforar seus charutos, tendo que mascar uma cenoura para sentir na boca algo que substituísse seu “fumador”. Esse painel trágico ganha, na tela, uma representação por vezes patética, quase caricata, mas não por deslize do diretor e, sim, por uma opção de criar um filme plasticamente saturado. Hardy, aos berros, estrutura Al como uma besta fera no abismo. Seu contraponto é a elegante figura de Matt Dillon como Johnny, espécie de anjo da guarda, espécie da medida da grandiosidade que o senhor do crime perdeu. Uma das atrizes mais vigorosas de sua geração hoje em Hollywood, Linda Cardellini (de “Green Book”) esbanja ternura (e, em alguns momentos, fúria) no papel de Mae, a mulher do contraventor, que é acossado pela obsessão de ter escondido US$ 10 milhões em alguma reserva da qual não se lembra. Imagens de mortos, lembranças de delitos e a suspeita de que o FBI está em seu encalço levam Capone ao desespero e ao manuseio de uma estilizada metralhadora. Esta aparece em uma sequência memorável, só menos brilhante do que seu faniquito durante uma sessão de “O Mágico de Oz” (1939) nos cinemas. São instantes de pura genialidade de um filme que pode ser encomendado ao site da Vertical. Um filme que faz jus ao “Capone” de Steve Carver, produzido por Roger Corman em 1975, com Ben Gazzara como protagonista e com Sylvester Stallone como o matador Frank Nitti.

p.s.: Esta madrugada tem “Reza a Lenda”, filmaço brasileiro de ação, dirigido por Homero Olivetto, no “Corujão”, à 1h50. Cauã Reymond é Ara, um motoqueiro que luta para devolver a justiça à região assolada por contradições sociais onde vive.

p.s.2: Roteirista aclamado em Cannes com “O Grande Circo Místico” (2018) e “Linha de Passe” (2008), George Moura, autor de sucessos da TV como “O Rebu” (2014), fala sobre teledramaturgia esta noite no YouTube, na série de lives Gabinete Digital de Leitura, em conversa com Gustavo Gontijo, o Dick Tracy da escrita para a TV. Vale conferir. Tem outros papos incríveis lá, com Adriana Falcão, Marçal Aquino, Julia Spadaccini, Carla Faour e Jorge Furtado.

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