Cao Guimarães manda a real sobre a simplicidade

Cao Guimarães manda a real sobre a simplicidade

Rodrigo Fonseca

25 de julho de 2020 | 11h00

Rodrigo Fonseca
Ao falar da atração da noite passada do Na Real_Virtual, que fez sextar o obrigatório seminário online sobre estéticas documentais, o curador Bebeto Abrantes (organizador do simpósio em parceria com o crítico Carlos Alberto Mattos, apostou no lirismo para definir o colóquio “A poética do simples”. Disse ele, num whatsapp corrido, mas de precisão suíça: “Amanhã tem Cao Guimarães, com sua poética das coisas simples”. Realizador do dulcíssimo “Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto” (2003), Abrantes só deixou acrescentar um “das coisas belas” à sua definição acerca do bate-papo com o realizador mineiro que botou o Festival de Veneza de 2007 no bolso com “Andarilho”. Que beleza escorreu da boca de Cao durante duas horas (um tico mais, um tico menos) de conversa com Mattos e Abrantes, ao revisitar uma obra que junta videoarte, documentário, fabulação, estática, artes plásticas e imersões no silêncio e no ruído.
“Tem cineastas, como o (Eduardo) Coutinho que têm um laço forte com a palavra. Mas você pode também ir pro não dito… pra potência dos buracos do vazio. Buracos que formam uma língua também”, “ludicizou” o realizador, nascido Cláudio Gontijo Guimarães, em 1965, em Belo Horizonte, e (re)conhecido por filmes como “O Fim do Sem-Fim” (2001) e o memorável “Acidente” (2005), codirigido por Pablo Lobato. “Tem coisas que que a gente perde o hábito de prestar atenção. Uma folha que cai, por exemplo. O cinema hoje parece o tempo todo estar dizendo que tem que ser briga de casal, perseguição. Mas olhar para uma filha que cai pode ser uma experiência maravilhosa dependendo da forma como você filma essa folha. Um saco plástico que voa no ar também pode gerar uma experiência maravilhosa. Hoje você vê, mas não enxerga. Tento enxergar. Tento ter tempo para enxergar”.

Agendado até 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas, o Na Real_Vitual vai mobilizar os documentaristas Belisario Franca, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos (a primeira a falar, na última segunda-feira), Petra Costa, Rodrigo Siqueira, João Moreira Salles (o segundo da lista) e Walter Carvalho. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.
Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre laços afetivos e ausência no âmbito familiar (o cult “Elena”, de Petra Costa). De Cao, o título eleito foi “A Alma No Osso”, vencedor de prêmios no É Tudo Verdade de 2004. Nele, o diretor revela, pouco a pouco, a existência aparentemente isolada de Dominguinhos, 72 anos, um ermitão que vive numa caverna encravada numa montanha de pedra. O filme constrói-se com longos silêncios onde o ermitão executa as tarefas do dia a dia, como cozinhar e limpar, e com imagens que vão para além do seu território. Ao final descobrimos que na vida do ermitão o silêncio é o lugar comum, o estado normal em que o tempo passa. A fala é o estado de exceção. “No meu trabalho, aparentemente, nada acontece”, diz o realizador, que transitou pela ficção com “Ex-Isto” (2010) e “O Homem das Multidões”, ganhador do prêmio de melhor direção no Festival do Rio de 2013 – láurea dada a Cao e a Marcelo Gomes, seu codiretor.
Egresso das Gerais, Cao é identificado essencialmente com a mineirice. “Minas tem tudo a ver com o meu trabalho. Sou um ser das montanhas. A gente é impregnado pelo lugar de onde viemos: seja você um pastor de ovelhas ou um operador da bolsa, o lugar bate, impregna. Em Minas, teve uma coisa forte de vídeo, de videoarte há alguns anos. Mas nessa época (anos 1980, 1990), eu era mais fotógrafo. Eu tinha um laboratório fotográfico em PB com um amigo, o Daniel Mansur, e em cima da casa onde ficávamos, havia o laboratório do Eder Santos (um dos pilares da cultura da videoarte nas Américas). Fotografava parto, casamento, arame farapado. Fazia vídeos de vez em quando. Mas o Cinema era o que mais me emocionava. Abriu-me as portas pra conhecer o mundo. O cinema da década de 1960, os cinemas novos, o Pasolini, o Herzog, Antonioni, Tarkovsky”, disse o cineasta, que teve sua obra dissecado pela professora da UFRJ Consuelo Lins no livro “Cao Guimarães: Arte Documentário Ficção”, da 7 Letras.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

Em 2019, Mattos encabeçou a Ocupação Eduardo Coutinho, em SP, e lançou um livro seminal sobre estratégias de documentar, dedicado à obra e à vida do realizador de “Edifício Master” (2002). Sua pesquisa sobre Coutinho é primorosa e seu texto, uma aula de concisão e de argumentação, sem esturricar palavras nem se besuntar em advérbios. Já Bebeto – atualmente envolvido no projeto documental “Me Cuidem-se”, com Cavi Borges – tem no currículo poemas em forma de filme como “Caminho do Mar” (2018).

p.s.: Às 13h50, a Globo dá um presente aos cinéfilos e aos fãs do romantismo ao exibir “Uma Linda Mulher” (“Pretty Woman”, 1990), com Julia Roberts e Richard Gere no auge do lirismo. Orçada em US$ 14 milhões, a produção arrecadou US$ 463 milhões. Na versão brasileira da década de 1990, Vera Miranda dublou Julia e Ricardo Schnetzer deu voz a Gere. Numa trama à la “Pigmaleão”, uma garota de programa e um milionário vivem uma paixão digna de contos de fadas, para provar que cavaleiros de armadura existem, sim, assim como amores perfeitos. O Globoplay exibe a fita simultaneamente à TV.

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