‘Cano Serrado’ na mira de Havana

‘Cano Serrado’ na mira de Havana

Rodrigo Fonseca

23 de novembro de 2019 | 12h47


RODRIGO FONSECA

Carregado de atrações de DNA brasileiro, incluindo “Marighella”, de Wagner Moura, o 41. Festival de Havana (5 a 15 de dezembro) vai abrir uma vitrine para filmes de gênero, com forte potencial de diálogo popular como o melodrama “Veneza”, de Miguel Fallabela, e a biopic “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias. Nesse espaço com foco no “cinemão”, chamado “La Sala Llena” (A Sala Cheia) entrou um feérico bangue-bangue no DF: “Cano Serrado”, de Erik Castro. Sua estreia mundial ocorreu em 2018, no Festival do Rio, mas seu lançamento em circuito comercial ainda não aconteceu. A vitrine de Cuba só aumenta o prestígio do longa-metragem, abrilhantando por uma devastadora atuação de Rubens Caribé, pontuada num texto do “Almanaque Virtual”, há um ano. A direção é de Erik de Castro.

Na feitura do longa, mesmo com toda a experiência adquirida em “Federal” (2010), Erik visualizou o quão difícil é levantar um thriller de ação no cinema brasileiro, conforme contou a o P de Pop, meses atrás. “Não gosto de filmes que dão trato gratuito à violência. Costumo citar como referências iniciais para ‘Cano Serrado’ os trabalhos do roteirista David Webb Peoples, em ‘Blade Runner’ e ‘Os Imperdoáveis’: ambos são violentos, mas humanos. Tecnicamente falando, busquei os melhores. E o cara com quem mais me identifiquei no Brasil ao longo dos anos para uma colaboração nesse sentido foi o diretor Edu Felistoque. Percebi nos trabalhos do Edu, particularmente dentro do gênero policial, uma capacidade em manter qualidade dentro de orçamentos enxutos, mais compatíveis com a nossa realidade”, disse Erik. “Convidei-o, ele adorou o roteiro e embarcamos juntos na empreitada. Edu trouxe uma equipe de primeira e o resultado foi uma colaboração artística e técnica, em todos os níveis, maravilhosa”.

Certa vez, em uma visita ao “Programa do Jô”, Rubens Caribé foi saudado com um pedido do apresentador para que o público o aplaudisse com o empenho e o respeito que ele merecia por sua trajetória nos palcos de São Paulo – na noite do dia 7 de novembro de 2018, quem conferiu a sessão de “Cano Serrado” no Festival do Rio 2018 entendeu o entusiasmo de Jô Soares. Tem algo de inusitado na composição da asquerosa, porém magnética figura do Sargento Sebastião que parece não pertencer ao léxico habitual do cinema brasileiro. Há um tempo de distensão de espera nas falas, uma sensação quase brechtiana de distanciamento em seu olhar, um ar de fragilidade à moda Iago (de Othelo), disfarçado de velhacaria. É algo que havia na composição do Corisco de Othon Bastos, um filho de Brecht, e na guerrilheira encarnada por Dina Sfat em “Macunaíma” – paramos por aí. Caribé não afirma, ele sugere, insinua. Isso dá a um oficial fardado de impunidade múltiplas camadas morais, que vão sendo desfolhadas pelo diretor camada a camada. Isso dá ao segundo longa de ficção de Erik (do .doc “Senta a Pua”) uma dimensão inesperada (e positiva) de estudo de personagem, de análise de psiquê, e isso num mundo saído dos filmes de Charles Bronson, no caso, um Centro-Oeste mítico.

A trama parte de um vetor de revanchismo: Sebastião quer o escalpo de quem matou seu irmão, capturando pessoas respaldadas pela polícia da Capital. Mas as balas dele não dão bola para hierarquias.

“Não é uma história de heroísmo, mas de anti-heróis, que representa a alegoria de uma certa hierarquia da lei, entre o que vem da capital e o que está fora dela”, disse Erik no RJ.

É raro ver o cinema brasileiro investir na ação com desenvoltura. Erik Castro tem investido nessa trilha com muita eficácia. Ele volta agora com uma mistura de “CopLand” com “Warriors – Os Guerreiros da Noite”, com algo de “Os Imperdoáveis”. Quem curtiu “Federal”, sabe que Erik de Castro é um hábil artesão na representação da brutalidade. Isso já seria suficiente para que se esperasse eficiência técnica de seu novo trabalho: “Cano Serrado”. Porém, ele nos dá algo mais agora… bem mais. É uma pesquisa arquetípica riquíssima, numa análise do Mal institucionalizado e do Bem encenado na forma da crença cristã em Deus acima de todos. Nisso, na vereda da fé, Jonathan Haagensen dá uma contribuição inestimável ao filme: em sua melhor atuação, ele empresta veracidade à figura de Luca, tira que abraçou Jesus e renegou a corrupção. Mas o pecado mora ao lado: a serpente ronda o Éden do Senhor, aqui na figura de Rubens Caribé destilando perfídia na pele do mais sórdido anti-herói do cinema nacional de ação. Um anti-herói às margens do que seu distintivo impõe.

Seu Sargento Sebastião é o Little Bill de um Centro-Oeste com ares de “Os imperdoáveis”. Um Gene Hackman candango que besunta seu pão francês de manteiga na opulência de quem tem pequeno poder. Com “Cano Serrado”, apoiado nas dicas do bamba do thriller Edu Felistoque (de “Toro”), Erik volta ao filão policial a fim de dissecar a ciranda de traições nos bastidores do universo policial, apostando numa trama de vingança. E com direito a Fernando Eiras no elenco, sublime como sempre, na pele do delegado Marcos Sá, um Lee Van Cleef almofadinha.

Desde a primeira cena, empoeirada, turva, suarenta, o clima de filme b, tipo western spaghetti se faz notar na fotografia pardacenta de Edu Felistoque e Willian Pacini, adequada ao conceito estético que alinhava o longa. Estamos diante de uma releitura pós-moderna das cartilhas do cinema de ação clássica, na qual o personagem central beira a repulsa, de modo adorável e na qual as mulheres são empoderadas, agindo em prol do amor, do dever ou do benefício próprio do bolso, o que valoriza as atrizes Naruna Costa, Sílvia Lourenço e Cibele Amaral como Sergio Leone valorizava Claudia Cardinale. É um mundo só para os fortes – e força não escolhe gênero.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: