Cannes se rende à TV, ao Netflix e às HQs

Cannes se rende à TV, ao Netflix e às HQs

Rodrigo Fonseca

13 Abril 2017 | 08h37

“Les Fantômes de Ismäel”, de Arnaud Desplechin, vai abrir o 70º Festival de Cannes, numa reverência à prata da casa

RODRIGO FONSECA

Diretor artístico responsável pela curadoria do Festival de Cannes desde o início dos anos 2000, Thierry Frémaux deve ter feito novos inimigos nesta quinta, ao anunciar os filmes que concorrerão à Palma de Ouro de 2017, ignorando a América Latina, dando uma banana para as superproduções de Hollywood e abraçando a televisão, a partir de seu produto hoje mais badalado: seriados. Vai ter Twin Peaks, de David Lynch, e Top of the Lake, de Jane Campion, no evento, que estenderá seu tapete vermelho para a Amazon TV e seu Wonderstruck, filme infanto-juvenil de Todd Haynes, e para o menu da NetFlix, que chega todo-poderosa com a fantasia Okja, do sul-coreano Bong Joon-Ho, e com a comédia The Meyrowitz Stories, de Noah Baumbach, com o muso da “emissora”, Adam Sandler. Os três projetos estão competindo na Croisette, que abre seus trabalhos com Les Fantômes d’Ismäel, uma história de amor dirigida pelo irregular Arnaud Desplechin, que ocupou um posto mais adequado a pipocas hollywoodianas ou francesas, vide Valerian, de Luc Besson. Mas Frémaux não quis saber de grifes milionárias, talvez ciente de que o filme anterior de Desplechin, o lúdico Três Lembranças da Minha Juventude (2015), foi sucesso de público e de crítica em toda a Europa.

 

No pacote de 2017, que terá o diretor espanhol Pedro Almodóvar como presidente do júri, são 18 concorrentes ao todo, incluindo novidades de Sofia Coppola (O Enganado), de Lynne Ramsay (You Were Never Really Here, com a força da natureza chamada Joaquin Phoenix) e Naomi Kawase (Radiance). Entraram em concurso cineastas superestimados como Hong Sangsoo, o geômetra da Coreia, que disputa prêmios com The Day After e ainda tenta chamar atenção para sua trigonometria barata com Clair’s Câmera, vampirizando o prestígio de Isabelle Huppert). Mas ganharam espaço talentos promissores como os irmãos Ben e Josh Safdie, com Good Time. E estão de volta ao páreo pela Palma realizadores que andavam em baixa como o alemão Fatih Akin (com In The Fade).

 

A lista integral de concorrentes (que vai crescer até 1º de maio) está assim:

In The Fade, de Fatih Akin

The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach

Okja, de Bong Joon-Ho

120 Battements Par Minute, de Robin Campillo

O Enganado, de Sofia Coppola

Rodin, de Jacques Doillon

Happy End, de Michael Haneke

Radoutable, de Michel Hazanavicius

The Killing of The Sacred Dear, de Yorgos Lanthimos

Radiance, de Naomi Kawase

Wonderstruck, de Todd Haynes

Good Time, de Ben e Josh Safdie

You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay

The Day After, de Hong Sangsoo

L’Amant Double, de François Ozon

A Gentle Creature, de Sergey Loznitsa

Loveless, de Andrey Zvyagintsev
Jupiter’s Moon, de Kórnel Mandruczó

 

 

Acostumado a dar espaço a filmes autorais decalcados de gibis muito sazonalmente, tipo OldBoy, em 2004, e Marcas da Violência, em 2005, Cannes terá dois mergulhos profundos na estética quadrinística. O japonês Takashi Miike assina a adaptação do mangá Blade of the Imortal, de Hiroaki Samura. Já John Cameron Mitchell transformou em longa o exercício dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon com Neil Gaiman: How to Talk to Girls at Parties, com Nicole Kidman.

Como ainda falta coisa para vir, ainda não há com avaliar o que Cannes promete em termos de cartografia de tendências. Mas a seleção até agora instiga reflexões. A curiosidade é saber o que Hollywood está pensando…