Cannes se deslumbra com ‘Beginning’

Cannes se deslumbra com ‘Beginning’

Rodrigo Fonseca

28 de outubro de 2020 | 20h54

Dea Kulumbegashvili assina a direção de “Beginning”

Rodrigo Fonseca
De uma timidez capaz de impor respeito aos mil espectadores que se espalharam (sem traços de aglomeração) no Palais des Festivals da Croisette, a fim de aplaudir uma diretora estreante cujo primeiro longa-metragem papou a Concha de Ouro de San Sebastián, a georgiana Dea Kulumbegashvili arrancou (também) o aplauso de Cannes ao exibir seu monumental “Au Commencement”, mundialmente conhecido como “Beginning”, na versão pocket do evento. Ensaio sobre a Maldade em suas manifestações mais comezinhas (a corrupção, o machismo e a escassez de empatia), a produção integra o bonde da edição especial da maratona cannoise de 2020, transferida de maio agora para o fim de outubro, num menu inaugurado na terça, com a dramédia “Un Triomphe”, com Kad Merad. O que se ouviu de risos na inauguração da festa foi substituído por um silêncio sepulcral ao longo das duas horas de metafísica e realismo trágico de uma história debruçada sobre uma comunidade de Testemunhas de Jeová da Geórgia. Mundialmente reconhecido por cineastas autorais como Mikhail Kalatozov (ganhador da Palma de Ouro de Cannes, em 1958, por “Quando Voam as Cegonhas”) e Serguei Paradjanov (realizador do premiado “A Lenda da Fortaleza Suram”), o cinema desse país da Eurásia – situado na região do Cáucaso, com 69.700 km² de terra e 4,5 milhões de habitantes – já possuía boas razões pra se orgulhar de si, neste pandêmico 2020, por ter sido escalado para uma retrospectiva no DocLisboa. Mas sua consagração internacional agora foi ampliada com a conquista da Concha mais três láureas em San Sebastián. No fim de setembro, a realizadora de 34 anos, conhecida mundo afora pelos curtas-metragens “Invisible Spaces” (2014) e “Léthé” (2016), venceu com “Dasatskisi” (título original da fita levada a Cannes) nas categorias de melhor direção e roteiro também. Ainda teve prêmio de melhor atriz para a sua protagonista, Ia Sukhitashvili. Dea já havia conquistado, no dia 20 de setembro, a Láurea da Crítica, votada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), no TIFF-Festival de Toronto. E nesta terça, para coroar ainda mais seu rol de vitórias, que só fazem a boa reputação cinéfila de sua pátria (uma das 15 nações que, de 1921 a 1991, integraram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a realizadora desconjuntou a Côte d’Azur ao devassar o Mal não apenas no âmbito da Fé, mas na perspectiva das angústias femininas.
“Agradeço muito as pessoas por estarem aqui. É um prazer sem tamanho ver o filme nesta tela tão simbólica”, disse Dea ao delegado geral de Cannes, Thierry Frémaux, que encerra a mostra mignozinha deste outubro com a japonesa Naomi Kawase e seu “Mães de Verdade” e com o francês Bruno Podalydès e “Les Deux Alfred”. “Venho de um país com muita beleza. Era hora de retratá-la”.
Aberto com um preâmbulo assustador, no qual um templo das Testemunhas é alvo de um atentado a coquetéis explosivos, “Dasatskisi” caminha a passos aparentemente longos, em planos que se apresentam lentos, mas que, pouco a pouco, revelam uma agitação interna feroz, numa dilatação do Tempo, ao se esgueirar no espaço, atrás da figura de Yana, papel de Ia, a protagonista e força motriz do longa. Yana é a mulher um pastor e vai sendo alvo de uma manipulação por parte de um falso policial que deseja se aproveitar dela. Nesse dilema de ser abusada, ela se vê também confinada nas vontades soberanas de seu marido, tendo um filho ainda criança para cuidar. Sem medo de estilizar, a câmera de Dea, sob a fotografia de Arseni Khachaturan, fraseia muitas vezes na chave do “sujeito oculto”, usando ângulos subjetivos, a tirar foco de quem age: vemos quem é paciente, quem sofre a ação, quem escuta. É uma estratégia de isolar personagens, de explorar o extracampo, de comprimir o quadro sob os vetores da tensão. O resultado é um caudaloso drama sobre um inventário de cicatrizes que marcam as provações da intolerância.

Antes de se deslumbrar com “Beginning”, Cannes conferiu a competição Cinéfondation, que se dedica a filmes universitários. Dea fez parte do júri, formado ainda pela realizadora Claire Burger, o realizador Rachid Bouchareb, a atriz Céline Sallette, o ator Damien Bonnard e o produtor Charles Gillibert. O time coroou o pleito em prol do empoderamento feminino ao laurear quatro jovens realizadores com seu rol de prêmios. O primeiro lugar no pódio foi para a indiana Ashmita Guha Neogi e seu “Catdog”, idealizado no Film and Television Institute of India. O segundo lugar ficou com a Polônia de Yelyzaveta Pysmak e seu “Ja I moja gruba dupa” (“My fat Arse and I”), egresso da lendária Escola de Lodz. O terceiro lugar foi marcado por um empate entre Lucia Chicos, da Romênia, e seu “Contraindicatii”, desenvolvido nos bancos escolares da UNATC, e Elsa Rosengren, cuja base de operações é a Alemanha, onde iniciou a criação de “I Want to Retun Return Return” sob tutela das professoras e professores do Deutsche Film Und Fernsehakademie Berlin (DFFB).

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