Cannes está chegando… e tem Barry Jenkins no júri

Cannes está chegando… e tem Barry Jenkins no júri

Rodrigo Fonseca

14 Maio 2017 | 11h54

“Les Fantômes de Ismäel”, de Arnaud Desplechin, vai abrir o 70º Festival de Cannes nesta quarta

RODRIGO FONSECA
Cannes costuma ser muito pontual ao divulgar suas atrações e seus aliados no juízo estético de seus filmes, mas, para sua edição de número 70, que começa nesta quarta, dia 17, o festival deixou muita coisa pra cima da hora, inclusive o anúncio dos júris de suas mostras paralelas, que terá Barry Jenkins como um reforço. Realizador do melhor filme do Oscar 2017, o aclamado Moonlight, ele vai para a competição de curtas, dar uma ajuda ao presidente da seção, o romeno Cristian Mungiu. E chega lá no momento em que se vê em meio a uma polêmica midiática com o (superestimado) diretor francês Christophe Honoré, um darling das narrativas LGBTs que resolveu criticar o trabalho do cineasta americano – um expoente entre os realizadores negros. Além de Jenkins, o festival convocou para serem jurados o cineasta singapurense Eric Khoo e da atriz francesa Clotilde Hesme. Um dos atores mais disputados da Europa na atualidade, Reda Kateb, foi chamado para integrar a mostra Um Certain Regard. E tem muita coisa pra eles – e pra nós – chegando por lá.

Trabalhos inéditos de Sofia CoppolaMichael Haneke David Lynch prometem agitar  Cannes, que, até 28 de maio, vai se abrir a estéticas de gêneros, à linguagem dos quadrinhos, à Era de Ouro da televisão, ao poderio da NetFlix e até ao carisma de Adam Sandler. Na escolha de sua atração de abertura, a direção artística da mostra cannoise esnobou superproduções (esperava-se a presença do novo Piratas do Caribe ou de Valerian, de Luc Besson, nesse posto), a fim de apostar na prata da casa: será tarefa para o francês Arnaud Desplechin inaugurar o evento com Les Fantômes de Ismael, uma história de amor protagonizada por Charlotte GainsbourgMathieu AlmaricMarion Cotillard e Louis Garrel. Não houve espaço para Portugal concorrer, tampouco para o o Brasil e nem para demais latinos da América Hispânica na briga pela Palma de Ouro. E a resposta do curador Thierry Frémaux para a nossa ausência por lá foi a das mais secas: “É questão da conjuntura”.

Mas não faltaram crias da casa, como Yorgos Lanthimos, aclamado e premiado por lá em 2015 com O Lagosta, que regressa agora com The Killing of a Sacred Dear. Também foi Cannes que consagrou Sofia Coppola mundialmente com As Virgens Suicidas, lá em 1999. E ela volta agora com The Beguilded, traduzido aqui como O Estranho Que Nós Amamos. Num clima de sensualidade, com ecos de western, esta produção põe Colin Farrell em meio a uma casa de mulheres que desejam algo mais do que seu amor. Entre elas estãoKirsten DunstElle Fanning Nicole Kidman.

 

Ganhador de duas Palmas douradas, uma em 2009 com A Fita Branca, e outra em 2012, com AmorHaneke volta a Cannes com fôlego para se tornar o único diretor do mundo a receber o prêmio maior do festival por três vezes comHappy-End. Concorrem com ele cineastas de respeito como a escocesa Lynne Ramsai, com o thriller You Were Never Really Here; a japonesa Naomi Kawase com Radiance; o alemão Fatih Akin, assinando o esperado In The Fade; o francês François Ozon, com o suspense L’Amant Double; o ucraniano Sergey Loznitsa, com A Gentle Creature, baseado na prosa de Fiódor Dostoiévski; e um camarada deste, o russo Andrey Zvyagintsev, com Loveless. Realizador de Força Maior (2014), o sueco Ruben Östlund vai à Palma com The Square, drama com Dominic West.

 

Ainda sobrou espaço em concurso para o universo infanto-juvenil em Cannes, com Wonderstruck, de Todd Haynes (Carol), um projeto da Amazon TV. Sua maior rival, a NetFlix, entra em campo com Okja, do coreano Bong Joon-ho (O Hospedeiro), aventura fantástica com Paul Dano Tilda Swinton, e com um projeto estrelado pelo sempre controverso Adam Sandler, outrora o comediante de maior sucesso de bilheteria de Hollywood (entre 1998 e 2011). Ele divide com Ben Stiller Dustin Hoffman o protagonismo do novo filme de Noah Baumbach (Frances Ha): The Meyrowitz Stories.

 

Uma das mostras paralelas mais disputadas de Cannes, a seção Um Certain Regard vem recheada de exercícios narrativos dirigidos por atores, como o já citado francês Mathieu Almaric (com Barbara, la Chanteuse) e o italiano Sergio Castelitto (com Fortunata). Entraram ainda nesse menu trabalhos inéditos deKyioshi Kurosawa (La Disparition) e Michel Franco (Las Hijas de Abril), além de uma incursão de Taylor Sheridan (roteirista de A Qualquer Custo Sicário) como realizador: Wind River, com Jon Bernthal, o Justiceiro da série Demolidor.

Ali entrou o esperado A Cordilheira, de Santiago Mitre, com o galã argentino Ricardo Darín, o Marcello Mastroianni das Américas. Estão em cena, ao lado dele, atores do Chile (Paulina GarcíaAlfredo Castro), do México (Daniel Giménez Cacho) e do Brasil (Leonardo Franco). Cogita-se ainda uma participação do astro americano Christian Slater numa trama sobre um conclave entre presidentes.

 

As HQs terão um lugar garantido em Cannes, levadas pelas mãos de dois mestres da direção autoral. O japonês Takashi Miike assina a adaptação do mangá Blade of the Imortal, de Hiroaki Samura. Já John Cameron Mitchell transformou em longa o exercício dos gêmeos Gabriel Bá Fábio Moon com Neil GaimanHow to Talk to Girls at Parties, com Nicole Kidman.

Como esperado, Cannes exibirá episódios da aguardada nova temporada de Twin Peaks, celebrando o regresso de David Lynch ao audiovisual.  E tem mais… Cerca de 11 anos depois da conquista do prêmio de melhor diretor em Cannes por Babel (2006), o mexicano Alejandro González Iñárritu estará de volta àCroisette com uma espécie de “filme-instalação” de realidade virtual: Carne y Arena. O evento exibe ainda24 frames, de Abbas Kiarostami, numa homenagem póstuma ao mestre iraniano, morto em 2016. Além disso, o festival projeta, na íntegra, a série Top of the Lake, da neozelandesa Jane Campion, a única mulher a ganhar a Palma de Ouro, em 1993, com O Piano. O menu ainda resgata o ás francês do real Raymond Depardon com um novo doc: Deux Jours. A atriz britânica Vanessa Redgrave também fez um documentário como diretora, cujo tema é a condição dos refugiados.

Ainda na seara hors-concours, um dos títulos de maior expectativa é Baseado numa História Real (D’après une histoire vraie), de Roman Polanski. Diretor de cults como O Bebê de Rosemary, o octagenário mestre franco-polonês investe no suspense uma vez mais, apoiado em um roteiro escrito pelo diretor Olivier Assayas (de Depois de Maio), com base no romance homônimo de Delphine de Vigan. Na trama, Eva Green é uma fã fiel da escritora interpretada por Emmanuelle Seigner (mulher do diretor) que inferniza a vida da autora, a fim de interferir nos rumos de seu próximo romance.

 

Diretor de cults como Tudo Sobre Minha Mãe (1999), o espanhol Pedro Almodóvar será o presidente do júri de longas, enquanto o cineasta romeno Cristian Mungiu cuida dos curtas, entre eles o brasileiro Vazio do Lado de Fora, de Eduardo Brandão Pinto. O pernambucano Kleber Mendonça Filho, que dirigiu Aquarius, vai presidir o júri da Semana da Crítica Na Semana, tem um brasileiro, Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa. 

“Gabriel e a Montanha”: voz do Brasil

Sobrou espaço na Croisette ainda para medalhões autorais como Amos Gitai, Abel Ferrara, Bruno Dumont e Claire Denis, que vão a Cannes este ano com a promessa de incendiar a Quinzena dos Realizadores, de 18 a 26 de maio, com uma leva de experimentos narrativos entre a transgressão e a poesia. O evento concederá um prêmio especial, a Carroça de Ouro, ao diretor alemão Werner Herzog.  E tem Brasil: tanto em curta-metragem, com Nada, de Gabriel Martins, quanto nos longas, com dois projetos da RT Features, do produtor Rodrigo Teixeira, A Ciambra, de Jonas Carpignano, e Patti Cake$, de Geremy Jasper, escolhido como filme de encerramento. Para abrir o evento, que corre paralelo à disputa pela Palma de Ouro foi selecionado o novíssimo trabalho de Claire, expoente do cinema francês desde o fim dos anos 1990: a comédia Un Beau Soleil Intérieur.

Minutos antes da projeção do longa-metragem de Claire, a Quinzena concede sua anual honraria, o troféu Carroça de Ouro, ao cineasta alemão Werner Herzog (de O Homem-Urso) pelo conjunto de sua obra, na ficção e no documentário.

Entre os filmes selecionados, veremos como realizadores com status de mestre andam alimentando seu quinhão de ousadia. Por exemplo, Dumont vem com o esperadíssimo musical sobre a jovem Joana d’Arc, Jeannette, L’Enfance de Jeanne D’Arc. Ferrara vai pela seara da música também, com Alive in France. Já Gitai vem com West of the Jordan River (Field Diary Revisited). Tem figuras cativas da Quinzena de novo em campo, ambos com prestígio estético em alta: o francês Philippe Garrel, na área com L’Amant D’Un Jour, e o lituano Sharuna Bartas, com Frost.

Para a América Latina, salta uma atração quente da Colômbia, La Defensa Del Dragón, de Natalia Santa. Neste ano em que os estúdios de Hollywood andam tendo presença miúda nas seleções oficiais de Cannes, os EUA entram forte na Quinzena retratando guerra em Bushwick,de Cary Murnion e Jonathan Milott, thriller sobre separatismo geopolítico estrelado por Dave Bautista, o Drax de Guardiões da Galáxia.