Cannes em compasso de espera por Claire Denis

Cannes em compasso de espera por Claire Denis

Rodrigo Fonseca

22 de maio de 2022 | 20h21

RODRIGO FONSECA
Encantada pela Transilvânia filmada por Cristian Mungiu em “R.M.N.” e pelo burro errante de Jerzy Skolimowski em “EO”, a competição de Cannes anseia pela chegada de Claire Denis, que pisa no balneário na quarta, para a projeção de “Stars at Noon”. Em fevereiro, a realizadora de 76 anos deixou Berlim com o Prêmio de Melhor Direção em Berlim pelo ultrarromântico “Avec Amour et Acharnement”. Agora, o Céu é a Palma de Ouro para a diretora de “Nenette e Boni” (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996), “Bom Trabalho” (1999) e “High Life”, que rendeu a ela o Prêmio da Crítica em San Sebastián, há quatro anos. Seu novo trabalho traz Margareth Qualley (estrela da série ‘Maid’) no papel de uma jornalista americana envolvida num rescaldo do sandinismo na Nicarágua.
É um filme que se baseia em um romance de Denis Johnson. Li essa trama há uns doze anos. Mas a descoberta de uma atriz com o talento de Margareth Qualley me inspirou a filmá-lo”, disse a cineasta, por telefone, ao Estadão. “Esse projeto já estava planejado antes do ‘Avec…’ ser rodado. Há uns quatro anos, eu comecei a fazer locações na Nicarágua, onde a trama se passa, mas, por uma série de questões políticas, de eleições deles, não pude rodar lá. Robert Pattinson ia ser o meu protagonista, mas ele ficou preso no projeto ‘Batman’. E a Margareth bateu o pé de continuar comigo. É uma grande atriz. Mas dei a sorte de encontrar um ótimo ator, o Joe Alwyn, nessa, para entrar no papel que seria de Pattinson”.

Longa que a cineasta leva à Croisette tem como protagonistas Margaret Qualley e Joe Alwyn

Em “Avec Amour et Acharnement”, ainda inédito no Brasil, Claire promove um inventário das sequelas afetivas da covid-19. “A pandemia nos afetou muito, mas nem os produtores nem os distribuidores desistiram: a quantidade de filmes que fizemos nesse período da covid-19 mostra que a gente reagiu. Eu não espero frescor só do cinema”, disse a diretora. “Outro dia tinha um cineminha aqui com uma fila gigante para conferir uma projeção 70mm do novo longa do Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza. Ou seja, o cinema está sobrevivendo, como pode. Está tentando. A questão é, eu gosto de ver cinema no cinema”.
Neste domingo, a Quinzena dos Realizadores de Cannes sediou a projeção de um dos filmes mais decepcionantes do ano: “Men”, de Alex Garland. O que se propunha a ser um filme de terror amedrontador se resume a um exercício de estilo tolo e sacal, com uma Jessie Buckley a fazer caras e bocas numa alegoria de metáforas enfarofadas. Na trama, uma executiva perde o marido nua queda e, ao se mudar para o campo, testemunha esquisitices que deveriam causar tensão, mas só geram enfado.
Cannes termina no dia 28.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.