Cannes e Doclisboa de flerte com a Geórgia

Cannes e Doclisboa de flerte com a Geórgia

Rodrigo Fonseca

27 de outubro de 2020 | 05h50

Dea Kulumbegashvili, com a Concha de Ouro por “Beginning”: cineasta é jurada em Cannes

Rodrigo Fonseca
Com a cabeça enfronhada em miradas para o Brasil como “Nheengatu”, de José Barahona, e “É Rocha e Rio, Negro Leo”, de Paula Gaitán, o Doclisboa 2020, no peito de Portugal, fez do cinema da Geórgia seu foco de olhar, numa retrospectiva desse país da Eurásia, na região do Cáucaso, com 69.700 km² e 4,5 milhões de habitantes, que, agora, faz bonito no Festival de Cannes. Adiado de sua data tradicional, maio, por culpa da Covid-19, a mais respeitada maratona cinéfila do mundo renasce a partir de hoje em fênix, numa versão pocket, que tem entre suas atrações principais o drama georgiano “Beginning” (“Dasatskisi”). No dia 26 de setembro, uma de suas mais promissoras potências criativas, esse ensaio sobre intolerâncias e resistências coroou sua diretora, a estreante em longas Dea Kulumbegashvili, de 34 anos – conhecida mundo afora pelos curtas-metragens “Invisible Spaces” (2014) e “Léthé” (2016) – com o prêmio mais cobiçado do Festival de San Sebastián, no norte da Espanha: a Concha de Ouro. Venceu nas categorias de melhor direção e roteiro também, pela força plástica desse drama sobre uma comunidade de Testemunhas de Jeová acossados por fundamentalistas – e ainda teve prêmio de melhor atriz para a sua protagonista, Ia Sukhitashvili. Dea já havia conquistado, no dia 20/9, a Láurea da Crítica, votada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), no TIFF-Festival de Toronto. E, para coroar ainda mais seu rol de vitórias, que só fazem a boa reputação cinéfila de sua pátria (uma das 15 nações que, de 1921 a 1991, integraram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a realizadora foi convocada para ser uma das juradas de Cannes, na única disputa a acontecer: uma competição de curtas, com uma vertente de prêmios para filmes de estudantes.

Ao lado do filmaço dela estão trabalhos inéditos da japonesa Naomi Kawase (“True Mothers”, em cartaz aqui na 44ª Mostra de São Paulo, com o título “Mães de Verdade”) e os franceses Emmanuel Courcol (“Un Triomphe”) e Bruno Podalydès (“Les Deux Alfred”). Os júri com o qual Dea vai trabalhar reúne ainda: a realizadora Claire Burger, a atriz Céline Sallette, o cineasta Rachid Bouchareb, o ator Damien Bonnard, o produtor Charles Gillibert. Dea não integra a mostra georgiana no DocLisboa (que segue até 1º de novembro) porque esta se debruça sobre diretoras (como Nutsa Gogoberidze) e diretores (tipo Otar Iosseliani) do passado. Mas a ida da jovem realizadora a Cannes vai amplificar ainda mais sua relevância.
“Existe uma beleza inegável na região de onde eu venho e sentia que era necessário retratar essa beleza, com foco também numa manifestação da geografia humana que nos ronda: o silêncio. Fiz um filme de hiatos nas palavras e, através deles, é mais fácil perceber a beleza natural e existencial à nossa volta. Tenho uma personagem principal que encontrou no silêncio um modo de resistir”, disse Dea ao P de Pop, em San Sebastián.
No longa, Dea gasta quase cinco minutos num plano estático de uma mulher (Ia) deitada na relva. Seu plano inicial, com um atentado a coquetéis Molotov em um culto evangélico, já eriça qualquer plateia. O que vem depois, em um desfile de planos estilizados, um mais belo que o outro, é um estudo sobre o dia a dia de um núcleo fervoroso de fiéis cristãos numa província georgiana assolado por grupos extremistas. O atentado do início faz arder não apenas um templo como o casório de uma jovem com o pastor local. E esse ardor rende closes que se congelam, revelando paisagens afetivas que o silêncio sulca. É um procedimento aberto a muitas especiarias, de luz, de cor, de captação de som. É um feito imponente para uma potência estreante. De acordo com os jurados da Fipresci no Canadá, “Beginning” pode ser definido como “uma corajosa e fresca tempestade silenciosa em forma de filme, apontando de modo convincente as trilhas de uma cineasta com uma voz própria estabelecida a quem se deve assistir”.

p.s.: Só faz crescer, na Mostra de SP, a expectativa por “DIAS” (“Rizi”), de Tsai Ming-Liang. Aos 62 anos, o realizador taiwanês consagrado por “O Buraco” (1998) e “Vive l’Amour” (Leão de Ouro de 1994) surpreendeu a Berlinale, na briga pelo Urso dourado, com este estudo sobre a solidão centrado no encontro entre um cinquentão e um jovem michê.

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