Cannes rende elogios a Ryûsuke Hamaguchi

Cannes rende elogios a Ryûsuke Hamaguchi

Rodrigo Fonseca

12 de julho de 2021 | 12h23

Ryûsuke Hamaguchi, aos 42 anos, concorre à Palma de Ouro tendo, em seu currículo, o Grande Prêmio do Júri da Berlinale 2021

RODRIGO FONSECA
Egresso de um país que consagrou Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizogushi, Tazuko Sakane, Mikio Naruse, Nagisa Oshima, Kinuyo Tanaka, Shôhei Imamura, Hayao Miyazaki, Naomi Kawase, Hirokazu Koreeda e Makoto Shinkai, o cineasta Ryûsuke Hamaguchi, nascido há 42 anos em Kanagawa, cidade do sudoeste do Japão, situada a 30 km de Tóquio, vem construindo uma obra audiovisual capaz de fazer jus aos titãs da direção em sua pátria. Laureado com uma menção honrosa em Locarno, na Suíça, por seu belo “Happy Hour”, em 2015, ele esteve na briga pelo Urso de Ouro de Berlim, em março, com “Wheel of Fortune and Fantasy” (“Guzen to sozo” no original nipônico) e saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri. Quatro meses depois, ele tem um filme novo prontinho, “Drive My Car”, que decidiu levar à briga pela Palma de Ouro de Cannes. A decisão pareceu acertada, visto os quilos de elogios que recebeu por seu diálogo com a prosa de Haruki Murakami. É uma narrativa longa, de 179 minutos, organizada em camadas, com tudo na dramaturgia desse potente realizador. “Filmar é fugir do supérfluo e buscar o essencial”, disse Hamaguchi ao P de Pop durante a Berlinale, na capital alemã.

Em sua trama, Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima, numa atuação que pode lhe dar um prêmio), é um ator e diretor de teatro casado com a roteirista de TV Oto (Reika Kirishima), que morre repentinamente depois de deixar um segredo. Dois anos depois, Kafuku, ainda incapaz de lidar plenamente com a perda de sua mulher, recebe uma oferta para dirigir uma peça em um festival de teatro e dirige para Hiroshima com seu carro. Lá, ele conhece Misaki Watari (Tōko Miura), uma motorista reticente designada para se tornar sua chofer. Misaki é uma jovem que esconde seus próprios demônios abaixo de um exterior frio, agindo sempre de modo profissional. Enquanto passam tempo juntos, Kafuku enfrenta o mistério de sua esposa que silenciosamente o assombra.
E há um detalhe a mais, crucial para a trama: Kafuku se prepara para seus papéis dirigindo pela cidade em sua vintage SAAB de duas portas (o “carro” do título, “Drive My Car”), praticando suas falas em trânsito. É uma prática que ressalta o quanto as figuras criadas por Hamaguchi desde sua estreia como diretor, em 2003, com o curta “Like Nothing Happened”. Desde então, ele filma tendo o americano John Cassavetes (1929-1989), ganhador do Urso de Ouro na Berlinale 1984, por “Amantes” (“Love Streams”), como sua principal referência. “Eu tinha 20 anos quando vi “Os Maridos’, um dos melhores filmes dele, e tive a sensação de estar saindo de uma representação da vida real mais vívida do que a própria realidade à minha volta”, disse Hamaguchi ao Estadão. “Cassavetes me ensinou que a matéria do cinema são pessoas, na maneira como estas conduzem suas inquietações”.

Três histórias aparentemente autônomas sobre desejo, ambientada no Japão atual, fazem do drama “Wheel of Fortune and Fantasy” uma pérola no atual cenário do cinema japonês. Seus segmentos são baseados em angústias femininas Há uma trinca de situações distintas no longa: a) uma jovem modelo fotográfica tenta estabelecer um triângulo amoroso com um quase casal; b) uma jovem cria uma armadilha afetiva para um arrogante professor ao ler um conto sexual para ele; c) uma moça lésbica esbarra com uma mulher na rua, que acredita ser uma velha amiga, e esta, mesmo sem ser a tal pessoa imaginada, aceita representar esse papel. São situações calcadas na arte da palavra, mas que revela muito sobre a opressão da mulher na sociedade japonesas, de ontem e de hoje.
“Dirijo atrizes e atores na margem oposta ao artificialismo. Quero vida e, não, módulos”, disse o diretor, indicado à Palma de Ouro de Cannes em 2018 com “Asako I & II”, sempre falando sobre solidão. “Por ser uma ilha, por se pensar como uma ilha, o Japão não facilita muito o deslocamento das pessoas de região em região. Por vezes, algumas pessoas vivem eras a fio no mesmo lugar, o que gera uma sensação de desconexão”.

Um elenco em estado de graça arrebatou a Croisette na sessão de “Drive My Car”

Cannes chega ao fim no dia 17 de julho, com a entrega da Palma de Ouro, pelo júri de Spike Lee, que inclui o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. Badala-se muito “The Worst Person In The Wolrd”, de Joachim Trier, e “Tre Piani”, de Nanni Moretti. Vale lembrar que “O Marinheiro das Montanhas”, de Karim Aïnouz, desponta como um dos favoritos ao troféu L’Oeil d’Or, uma Palma de documentários.

Na peleja dos curtas-metragens, fiquemos atentos a “Absence” (“Xue Yun”), de Lang Wu, que mostra uma viagem de dois antigos amantes que falam sobre os rumos de suas vidas. Li Meng vive uma atormentada jovem que faz do cigarro seu companheiro e, do outro, temos o monumental Lee Kang-Sheng, o muso dos filmes de Tsai Ming-Liang. Também da China vem o comovente “H6”, da cineasta estreante Ye Ye, que estudou Design e da Arquitetura. O filme é um estudo sobre o cotidiano do Sixth People’s Hospital, em Xangai, a partir da rotina de médicos e de pacientes. Lembra “Sob Pressão”, a série brasileira, ao retratar como uma máquina de saúde tamanho GG opera, buscando a democratização da qualidade de vida de um país populoso até o talo.

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