Cannes acolhe Stallone para prévia de ‘Rambo’

Cannes acolhe Stallone para prévia de ‘Rambo’

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2019 | 14h50

Rodrigo Fonseca
Maior mito vivo do cinema de ação de todos os tempos, Sylvester Stallone vai receber o abraço caloroso do Olimpo autoral das telas, o Festival de Cannes, no dia 24 de maio, às 22h: a edição n. 72 do evento francês vai exibir trechos de “Rambo: Last blood”. Após a projeção do longa-metragem de Adrian Grunberg, a Croisette projeta uma cópia inédita em versão digital do cult “Rambo – Programado para matar” (1982). A exibição funciona como um tributo ao ator, que esteve por lá em 1993, com “Risco total”.
Rodrigo Fonseca
Empenhado em finalizar um roteiro iniciado há quase quatro décadas, sobre o escritor Edgar Allan Poe (1809-1849), que sonha dirigir, Sylvester Stallone chegou aos 72 anos gozando de uma produtividade e de um prestígio popular que nenhum outro astro do cinema de ação tem, a começar pela calorosa recepção de público (e de crítica) a seu regresso como Rocky Balboa. O Garanhão Italiano volta, pela oitava vez desde sua primeira aparição, em 1976, como mentor do jovem Adonis (Michael B. Jordan) em “Creed II”, produção de US$ 50 milhões que chegou há quatro meses ao Brasil, após ter sido coroada nas bilheterias do exterior com US$ 175 milhões. O anterior deu a ele um Globo de Ouro de melhor coadjuvante e uma indicação ao Oscar. Este salpicou o astro ítalo-americano de elogios e impediu que ele concorresse à Frambosa de Ouro, o Razzie Award, estatueta que celebra o pior de Hollywood. Sly, como ele é apelidado dos EUA, ganhou vários Razzies, sem querer. Mas esse tempo de escárnio com sua imagem ficou para trás. Uma das provas é o fato de uma das bíblias da cinefilia na França, a revista “Première”, ter incluído “Rambo 5: Last blood”, na lista das cem estreias de mais importância de 2019. Sinal dos tempos: o brucutu de ontem é cult hoje.

Um dos mais ferinos críticos dos EUA hoje, A. O. Scott, do “The New York Times” afirma que “a retomada da franquia ‘Rocky’, focada nos dilemas e triunfos de Adonis Creed, representa a única série cinematográfica de heróis digna de atenção hoje”, elogiando o trabalho de Steven Caple Jr. na direção – ele herdou o projeto de seu colega de universidade Ryan Coogler.

“Os momentos de dor, de humor e de intimidade tornam ‘Creed 2’, uma experiência sólida e satisfatória”, escreve Scott, destacando a colaboração de Stallone no roteiro, que revisita a geopolítica de ‘Rocky IV’, fenômeno popular de 1985, com bilheteria de US$ 300 milhões, que lançou o pugilista russo Ivan Drago (Dolph Lundgren), de volta aqui.

Coogle deu uma palestra sobre sua obra em Cannes, no ano passado, mas não foi muito carinhoso ao citar Sly. “Stallone é um cara esquisito, que se envolve muito no projeto”, disse o diretor.

Na revista “Variety”, o crítico Owen Gleiberman elogia em sua resenha a discrição que marca a interpretação de Balboa, 43 anos depois do lançamento de “Rocky, um lutador”, produção de US$ 960 mil que arracadou US$ 225 milhões e ganhou os Oscars de melhor filme, direção (para John G. Avildsen) e montagem. Segundo Gleiberman, Stallona usa “um resmungo sincronizado e um brilho no olhar mais poderoso do que suas palavras”. A “Variety” foi um dos primeiros veículos a divulgar o cartaz de “Rambo 5”, visto pela primeira vez nas paredes de Cannes, em maio. Já rodado, o longa traz o ex-combatente do Vietnã John Rambo no rancho de sua família, às voltas com um cartel de drogas do México. “Foi um trabalho duro, mas me deu muito prazer chegar ao fim dessa aventura”, disse Stallone em sua conta no Instagram, ao concluir as filmagens, em locações na Espanha e na Bulgária, em meio ao êxito comercial de “Creed 2” nos EUA.

“O novo filme de Rocky tem tudo pra ser o melhor. E olha que eu já dublo o boxeador desde 1994. Stallone é um dos atores de carreira mais longeva do cinema e levanta seus projetos por um esforço próprio”, diz o dublador gaúcho Luiz Feier Motta, que herdou do mítico André Filho (morto em 1997), a tarefa de ser a voz oficial de Sly por aqui. “Já estou tão acostumado a ele, que sua voz já sai no automático”.

Raros foram os elogios colhidos por Stallone em sua carreira, com a exceção de “Copland” (1997), no qual ele vive um xerife às voltas com a corrupção de uma cidadezinha povoada de policiais corruptos. Os adjetivos que hoje enaltecem seu trabalho em “Creed II” fazem dele o astro de thrillers de violência com melhor reputação em Hollywood.

Colegas outrora famosos como Arnold Schwazenegger e Bruce Willis hoje são tratados como peças de museu, incapazes de se posicionarem como protagonistas em produções nas quais o cinemão aposte. Steven Seagal só faz filmes para a TV ou canais de streaming. Já Jean-Claude Van Damme voltou a ganhar prestígio com a série “Jean Claude Van Johnson” e o filme europeu “Lukas”, um dos destaques do Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, realizado no fim de janeiro em Paris: um evento dedicado a promover longas-metragens francófonos. Mas em solo hollywoodiano, falta espaço para o Grande Dragão Branco. Mas sobre Stallone, os holofotes seguem acesos, até em ambiente acadêmico.

Em meio à celebração dos 40 anos de “Rocky, um lutador”, em 2016, as livrarias americanas receberam “The Ultimate Stallone Reader – Sylvester Stallone as Star, Icon, Auteur”, antologia de ensaios críticos organizada pelo professor Chris Holmlund, da Universidade do Tennessee, com o apoio de um corpo docente de teóricos das maiores faculdades dos EUA. O livro, ainda em destaque no mercado editorial aborda a simbologia do astro como herói. O mesmo foco se dá nos documentários “John G. Avildsen: King of underdogs” e “40th Years of Rocky – The Birth of a Classic”, ambos do cineasta Derek Wayne Johnson.
“Estamos falando de um dos maiores mitos da superação das telas”, diz o documentarista.

Johnson lembra que  Avildsen foi incumbido pelos produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff, em 1975, da tarefa de fazer do roteiro de um desconhecido chamado Stallone um drama popular. Quando vendeu seu roteiro (escrito em três dias e meio, em decorrência da emoção vivida após uma luta de Muhammad Ali vista na TV) para a United Artists, sonhando protagonizá-lo, Stallone ouviu muito “Não!” e “Você não é o ator adequado” da indústria. Engravatados de Hollywood enxergavam nomes mais famosos do que ele como potenciais escolhas para viver o Garanhão Italiano: os mais cotados eram Robert Redford, Ryan O’Neal, Burt Reynolds e James Caan. Mas ele bateu o pé: só venderia o script se o papel fosse seu. Winkler e Chartoff bancaram a escolha. Valeu a aposta, segundo Derek Wayne Johnson, que ainda tem um projeto de .doc sobre o irmão de Sly, o cantor Frank Stallone.

“O primeiro ‘Rocky’ traz uma das cenas mais emblemáticas de redenção da História: no round 14, quando Rocky cai, todo mundo diz para ele continuar no chão, para não levantar, de tanto que se machucou, mas ele fica de pé, e clama por mais uma chance”, diz Derek ao Estado. “Minha vida não teria sido a mesma sem essa cena. É um exemplo de superação que torna Balboa um personagem inesquecível”.

O documentarista termina seu projeto sobre Balboa ainda este ano.

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