‘Canção da Volta’ ecoa na MUBI

‘Canção da Volta’ ecoa na MUBI

Rodrigo Fonseca

09 de outubro de 2020 | 12h06

“Canção da Volta” integra o menu da MUBI com o título de “Ballad of Return”

Rodrigo Fonseca
Plataforma de curadoria humanizada, dedicada à experimentações narrativas e tramas avessas à obviedade, a MUBI (www.mubi.com) garante a festa cinéfila deste fim semana com uma pepita de ouro que passou pelos cinemas sem o devido reconhecimento: “Canção da Volta”, de 2016. O desempenho de Marina Person como atriz é impecável. Trata-se da radiografia das incompatibilidades e desacertos sazonais da vida em casal. Se é verdade o que dizia o poeta catarinense Lindolf Bell – “Há sempre duas solidões que se aguardam” -, nem sempre a carência é um elemento apaziguador das fúrias nossas de todo dia.
Fraturado em sua intimidade doméstica após a tentativa de suicídio de sua mulher, o apresentador de TV Edu, protagonista de Canção da Volta, telefona para a emissora onde trabalha. Faz essa ligação numa tarde na qual seu pote de lágrimas ficou até a borda de mágoa. Em linha, avisa: “Me cobre aí, pois não posso ir”. Do outro lado da linha, uma voz retruca: “Mas onde você está?”. Tomando emprestada toda a angústia que o olhar de seu intérprete – o tornado baiano João Miguel – é capaz de transmitir, Edu vira o fone para um biombo de vidro, de onde espia um round de uma luta de boxe de academia, e fala: “Em casa… Eu tô em casa”. A metáfora serve de desabafo. O apartamento onde o personagem vive com a esposa, Julia (Marina), e com seus dois filhos virou um ringue sem árbitro para a prática amadora da sobrevivência a dois. Não há como se mesurar a que ponto vai chegar o conflito entre eles no primeiro longa-metragem de ficção do documentarista Gustavo Rosa de Moura. A própria estrutura de montagem por vezes parece embaralhar as cartas desse tarô imune às clarividências cotidianas, fazendo parecer que eventos que já vimos estão fora de ordem, como, por exemplo, uma malfadada ida em família à praia. Mas está tudo certinho, no seu lugar, mas só o lugar narrativo, claro, pois, fisicamente, dentro daquele lugar tudo virou do avesso. A questão é que estamos diante de um filme de descobertas, mas não de certezas. Edu é um soldado com um rastreador de minas à espera de quando Julia vai explodir, arrancando de Marina uma atuação de doer no nosso rim.
Com um ritmo narrativo implosivo, “Canção da Volta” é tão experimental para Marina (que, após uma incursão competente na direção, com “Califórnia”, mergulha de cabeça na atuação), quanto para Rosa de Moura. Enquanto ela deixa a persona (sem trocadilhos) de VJ para trás, em busca de uma instância nova, ele se afasta daquela geometria documental, que fez sua fama em “Cildo” (2009), para se abrir a trilhas menos formalistas e ortodoxas. Como documentarista, ele partia de pessoas (como os ases do riso de “Piadeiros”, de 2015) para construir dispositivos de observação de modos de ser e modos de estar – todos muito sofisticados. Aqui, neste drama sobre praticidades, edificado como um inventário de cicatrizes sentimentais, as estruturas geométricas de seu corpo a corpo com o real não se sustentam. Em seu lugar, abre-se uma progressão aritmética de possibilidades de tolerância ao desamparo, com uma mulher em busca de voltar a si mesmo e com um marido confrontado com a impotência de não ser mais capaz de vedar as fraturas no dique de seu amor. Tem um quêzinho de documentário nas cenas de entrevistas de Edu com bambas da nossa Literatura. Em seu programa – padrão TV Cultura ou Arte 1 – um papo com Bernardo Carvalho (autor de “Mongólia” e “O Filho da Mãe”) é mais do que um punhado de diálogos sobre prosa: é um olhar delicado sobre o ofício de escrever. O mesmo se passa com (a tensa) conversa com Paulo Lins sobre “Cidade de Deus”. Ali há realidade pura como um facho do mundo de carne e osso numa ficção de grandes atores.

Prestes a voltar ao circuito em “Pacarrete” (2019), João Miguel volta aqui sem a carga social à qual costuma ser associado muitas vezes neste nosso cinema que prefere Sociologia à Psicanálise. Seu Eduardo é um sujeito cheio de retidões que a vida tenta esmurrar, a fim de vencê-lo por nocaute. Mas o que torna este personagem único é que ele é um sujeito afirmativo, sem dúvidas ao conjugar verbos como querer, entrevistar, fazer e amar (Júlia sobretudo, mesmo quando todos parecem insistir que ele a abandone). Numa genealogia cinematográfica, seu personagem encontra eco no monumental Dr. Hirsch, vivido por Peter Finch em “Domingo Maldito” (1971), de John Schleisenger. Ambos são intelectuais cientes de suas escolhas e de seus quereres a quem a vida tenta impor uma outra moral, que devasse suas intimidades e seus desejos. Edu é louco por Julia, mas, num momento de solidão mais atávico, não se contém diante da estagiária Mari (Poliana Pieratti). Ele tem fraquezas e sucumbe àquelas que o tragam de maneira mais avassaladora. Julia, por sua vez, lança-se na dança e num labirinto de possibilidades de prazeres e alegrias aos quais é apresentada após tentar (e falhar no) suicídio. Sai por aí, dizendo que vai encontrar amigas, mas vai buscar outras formas de autodescoberta. Tudo é novo, menos as obrigações com seus dois rebentos, a pequena Maria (Stella Hodge) e o adolescente Lucas, vivido com gana por Francisco Miguez, de “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), numa evolução interpretativa gritante. Aliás, Lucas e Edu terão um dos muitos combates do filme – quiçá o melhor! – para nos lembrar que paternidade é um dos muitos substantivos que estão em constante xeque naquele lar. Não existe muito lugar para alívio em “Canção da Volta”, só espaço pra guerra declarada entre um amor que teve seu prazo de validade vencido à revelia da vontade dos amantes. Por isso, na fotografia (nada óbvia) de Flora Dias, um tom bruxuleado, ocre, sorumbático se faz ver e viver: venceu a conta da luz emotiva daquelas pessoas. São tempos de sombra. Mas mesmo na penumbra mais densa ainda é possível segurar a mão de quem precisa, inclusive a nossa, que encontramos nas histórias de amor espelhos para nossas práticas, nossas teorias e nossas potências.
“Canção da Volta” não desafina em seu esforço de contextualizar ruínas, chegando a acordes que quebram com a inércia do gênero, sem enveredar pelo melodrama, sem perder sua universalidade. Dói, mas nos alimenta.
No próximo dia 16, a MUBI prossegue com a triagem acerca do cinema brasileiro ao exibir, em parceria com Cabíria Festival, o aclamado curta “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo.

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