Canadá na garupa do horror nacional com ‘Motorrad’

Canadá na garupa do horror nacional com ‘Motorrad’

Rodrigo Fonseca

11 de setembro de 2017 | 15h18

Guilherme Prates é Hugo, alvo de uma gangue de misteriosos motoqueiros em “Motorrad”: do Brasil para o TIFF

Rodrigo Fonseca
Qualificado como um UFO em sua lotadíssima sessão de imprensa, no fim de semana, no Canadá, Motorrad, produção que representa o Brasil no Festival de Toronto (TIFF) – a mais importante vitrine mundial do cinema em relação a parâmetros de apreciação industrial, sendo tratado como um trampolim para o Oscar – terá, na noite desta segunda-feira, sua primeira projeção de gala no evento. A direção é assinada por Vicente Amorim. Realizador do suspense político Corações Sujos (2011), o cineasta carioca filmou, há uma década, com Viggo Mortensen, uma perturbadora alegoria sobre alienação nos tempos do nazismo: Um Homem Bom (Good). A inclusão desse seu novo projeto no TIFF veio na sequência de uma vitória simbólica para a produção brasileira de tramas sintonizadas com um perfil mais pop: a conquista do Grande Prêmio do Júri do Festival de Locarno, na Suíça, pelo terror As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, que sugere uma abordagem da licantropia (a conversão de pessoas em seres de feição animal, tipo lobisomens). Ambos os projetos exploram o sombrio, os limites do terror, terreno onde fizemos História com José Mojica Marins.

 

Centrado em estranhos motoqueiros encourados em jaquetas pretas, com rostos velados sob capacetes à caça de uma turba de jovens, o longa-metragem de Amorim pode ser definido como um thriller com centelha de horror. Produzido por L. G. Tubaldini J.R. e André Skaf, o filme é o primeiro longa da América Latina com esse perfil de tons sombrios (fora da escola sociológica política ou do melodrama social) a alcançar tamanho relevo no TIFF. Não é uma conquista só nossa, mas de todo o continente, e que ajuda a dar reconhecimento à assinatura autoral de Amorim, espécie de analista da inocência funcional em nosso cinema.

Festival de Toronto reconhece a potência autoral de Vicente Amorim

No enredo de Motorrad, um grupo de motoqueiros é perseguido por psicopatas com motocas paramentadas para cantar pneu (e matar) que evocam até os Transformers… (ou seus algozes Decepticons). O ator Guilherme Prates é Hugo, um dos jovens que encaram uma trilha com amigos, novos conhecidos e algumas beldades, até ser caçado por uma gangue misteriosa. No elenco estão Carla Salle, Emilio Dantas, Juliana Lohmann, Pablo Sanábio, Rodrigo Vidigal e Alex Nader.

Motorrad nos liberta de nossa culpa sociológica e investe algo mais psicanalítico, ao mostrar pessoas às voltas com seus próprios monstros”, diz Amorim, que dirigiu na TV a série Espinosa. Na entrevista a seguir, ele detalha mais a sua lógica de mundo.

P de Pop: Qual é representação do medo que caracteriza Motorrad: é sobrenatural, é psicológico? E o quanto essa representação revela sobre os novos tempos?
Vicente Amorim: O medo no Motorrad está ligado à solidão e é, portanto, psicológico, mas o mecanismo que faz com que ele atue é visual, como num slasher. O medo alimentando o terror a partir de suas representações gráficas. É como o medo que alimenta os nossos sentimentos mais primitivos hoje em dia: não temos medo da violência, mas da sua possibilidade, por isso queremos “matar os monstros” antes mesmo que eles atuem. Mas há uma leitura imediata: os monstros são maus, causam medo, fugimos, somos derrotados, os encaramos, vencemos, mas ficamos sozinhos, no vazio. O que dá mais medo: a solidão ou o combate?

P de Pop: O que significa, como desafio profissional, filmar terror no Brasil? Vicente Amorim: Significa uma vitória gigante.  Uma vitória sobre o preconceito velado que há anos diz que cineasta “sério” não faz filme de gênero. Uma vitória sobre o mito da falta de talento qualificado. Uma vitória do fazer cinema com desprendimento, mas com garra.

P de Pop: Existe uma conexão consciente entre Motorrad e seus demais filmes? Vicente Amorim: ?Motorrad é um espelho de O Caminho das Nuvens. Os dois são filmes sobre amadurecimento e sobre os monstros ?nesse caminho.  As outras semelhanças entre os dois filmes são ainda mais evidentes: a família, as bicicletas/motos, a estrada, a paisagem…  Já Um Homem Bom, Irmã Dulce e Corações Sujos são sobre solidão, como é, também Motorrad.  Claro que as semelhanças são, principalmente, temáticas, mas para um bom observador, talvez haja mais…

 

 

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