Campos férteis pra Fernando Coni na Mostra

Campos férteis pra Fernando Coni na Mostra

Rodrigo Fonseca

24 de outubro de 2020 | 06h07

Fernando Coni Campos em foto nos sets de “O Mágico e o Delegado”: registro do acervo de seu filho, Luis Abramo

Rodrigo Fonseca
Entre as muitas heranças que esta 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai deixar, diante do empenho de Renata de Almeida em realizar uma maratona audiovisual online, salta aos olhos e ao coração, como uma espécie de acerto de contas das Telas com a História, a bela retrospectiva dedicada ao cineasta baiano Fernando Coni Campos (1933-1988). Seu “O Mágico e o Delegado”, troféu Candango de Melhor Filme no Festival de Brasília de 1983, periga ser – ao lado de “O Profeta da Fome” (1970), de Maurice Capovilla – a mais potente alegoria sobre a escassez de alimentos no Brasil dos coronéis, capitães e outros braços armados da Lei. Como o próprio site da maratona cinéfila paulista diz, ele é “muito menos visto do que merecia” e sua obra nos “revela um autor tropicalista, experimental e com forte influência da literatura nacional, mas sem deixar de lado certo um apelo popular na construção de seus filmes”. Soa ainda mais simbólico o fato de esta homenagem ocorrer no ano em que seu filho, o fotógrafo e cineasta Luis Abramo, foi chancelado com o selo de Cannes, em sua incursão como realizador, ao lado de Paloma Rocha, no avassalador “Antena da Raça”, sobre o programa de TV de Glauber Rocha (1939-1941), o “Abertura” – é um trabalho que hoje integra a seleção do Doclisboa, na capital portuguesa. Nesta segunda-feira, dia 26 de outubro, às 18h Abramo vai falar de seu pai em um debate online da Mostra: “A Cinepoesia de Fernando Coni Campos”. O bate-papo ocorrerá no canal da Mostra no YouTube e terá a participação do ator Antonio Pitanga, um dos astros de “Ladrões de Cinema” (1977), que é, para muitos, a obra-prima de Coni; da atriz Tânia Alves, a estrela de “O Mágico…” e da crítica Maria do Rosário Caetano. A mediação ficará por conta do cineasta e pesquisador Joel Pizzini. Ainda dentro dessa homenagem na programação do evento, está um dos trabalhos mais aclamados de FCC: “Viagem ao Fim do Mundo”, uma espécie de reinvenção de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, laureada com o Leopardo de Prata no Festival de Locarno de 1968. No Mostra Play é possível conferir cada pérola dessas.

O que Fernando Coni Campos trouxe de mais particular para o cinema brasileiro nos anos 1960, 70 e 80?
Luis Abramo:
Fernando fez uma trajetória singular, da infância em Castro Alves, no interior da Bahia – como irmão mais velho das suas seis irmãs, ouvindo histórias e fábulas e imaginando realidades mágicas – à adolescência rebelde – não se ajustando às disciplinas rígidas dos colégios de Salvador. Depois, foi cair direto dentro de uma acirrada luta ideológica no Curso de Gravura do MAM, em São Paulo, onde a juventude comunista queria impedir o professor trotskista de assumir a sua cadeira para dar aula. Perdeu Stalin e, de quebra, Fernando casou com a filha do artista trotskista e cometeu a maior das heresias, aproximando-se do clã dos Abramos. No Rio, nos anos 60, entre o mundo da poesia e das artes plásticas, Fernando entra em contato com a turma de designers radicais que, estudando semiótica e semântica, questionavam a validade da Arte e o conteúdo social dela, discutindo até que ponto essa arte engajada não era uma redundância. Ali, Fernando encontra o cinema como uma possibilidade de expressão, de superar e tridimensionalizar a sua pintura e poesia, onde pudesse, a partir de outros tipos de experimentos, misturar linguagens e investigar temas com liberdade e independência. Foi uma atitude que lhe custou caro e causou um certo isolamento no meio do cinema mais fechado e sectário. Fernando foi o semeador de uma visão mais ampla, mais anárquica, buscando soluções estéticas desconcertantes e principalmente com a coragem de correr riscos, abrindo junto com Ozualdo Candeias o caminho para as próximas gerações de cineastas do final dos anos sessenta e dos anos 70.
O que ele aportou de mais original no contexto cultural da Bahia nos anos 1970?
Luis Abramo:
Como Fernando saiu muito jovem da Bahia, acredito que não tenha participado da efervescência cultural de Salvador, do teatro, da música e do cinema. Acho que a sua contribuição maior foi com a radicalidade e a liberdade estética e temática do “Viagem ao Fim do Mundo”, inspirando uma nova geração de jovens cineastas baianos como foi com André Luiz Oliveira e outros.
Que conexões e paralelos Coni trava com o Cinema Novo e o Cinema Marginal e o que ele deixou como legado para as gerações seguintes?
Luis Abramo:
Fernando sempre foi muito independente e prezou sua liberdade de como contar as suas histórias, colocando o estilo formal a serviço do contexto e do conteúdo dos seus filmes. Os filmes de Fernando tentam aproximar o que acontece dentro da tela com o seu espectador, participando da experiência de eles se projetarem dentro dos filmes, mudando de compromissos e perspectivas a cada filme. A sua realização é contar a história. Talvez por isso, Fernando esteve próximo e distante dos movimentos do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Fernando, com o seu cinema-poesia, abria espaço e já realizava o que mais a frente se denominou de Cinema Ensaio.

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