O rei da pornochanchada se reinventa como documentarista

O rei da pornochanchada se reinventa como documentarista

Rodrigo Fonseca

24 Julho 2016 | 10h13

Carlo Mossy, galã na era da comédia erótica, em cena de um depoimento para o YouTube

Carlo Mossy, galã na era da comédia erótica, em cena de um depoimento para o YouTube

RODRIGO FONSECA

Ímã de espectadores nos anos 1970 e 80, quando filmes de títulos apimentados como Essa Gostosa Brincadeira a Dois (1974) e Como É Boa Nossa Empregada (1973) faziam salas de exibição de todo o país inflarem de espectadores, Carlo Mossy, galã classe A da comédia erótica nacional, agora amadurece esteticamente por outras veredas: a do documentário principalmente. Nesta segunda-feira, 25 de julho, o Cine Joia, templo de devoção ao cinema autoral localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, promove, às 20h30m, uma exibição de Garota de Ipanema – O Bar da Bossa, filme de Mossy em exaltação à cultura boêmia carioca. A sessão é uma comemoração dos 70 anos de vida e 50 anos de carreira do ator, produtor e agora documentarista. Num corpo a corpo com o Real, Mossy faz do lirismo sua bússola narrativa.

“A minha fase documentarista acontece num momento crítico, em que o cinema nacional parece estar refém de si mesmo, sobrevivendo entre obscuros e perniciosos labirintos que se margeiam à podre politicalha”, desabafa Mossy, cujo maior sucesso de bilheteria é a pornochanchada Giselle (1970). “Nesse cenário que vivemos em nossa ‘indústria’, o documentário é o lado mais ágil de nosso cinema e é também o menos dispendioso para se realizar. Mas, para fazê-lo, não basta uma ideia na cabeça, seja ela simplória ou hermética, nem e uma câmara na mão, mesmo que ela seja uma câmera digital modernosa”.

Garota de Ipanema do Mossy

Súmula de saudades costurada por bom humor e reflexões filosóficas, Garota de Ipanema reúne entrevistas e imagens esparsas de frequentadores ilustres do bar homônimo. Pautado pela leveza, o roteiro do longa-metragem rende espaço para uma discussão vigorosa acerca do Brasil das décadas de 1960 e 70.

“Meu amigo há 50 anos, Jorge Faria, ex-sócio do antigo bar Veloso, atual Garota de Ipanema, é o fundamental ser-alicerce cinematograficamente ornamental deste meu filme, onde a harmonia musical da Bossa Nova se mescla com o triunfal e cultural exotismo da boemia do Rio. Ser dono de um bar do calibre de Garota de Ipanema, nos complicados, mas não menos inspiradores, anos 1960/1970, significava ser confidente de Tom Jobim e dos demais ilustres boêmios que consagraram aquele dadivoso point ipanemense. Jorge foi testemunha de grandes histórias. Quantos sórdidos segredos não lhe foram revelados pelos assíduos freqüentadores do bar em momentos de nostalgia etílica? Segredos ‘cariocamente’ litúrgicos que descortino no meu filme”.

Vale lembrar que Mossy protagonizou um dos maiores filmes nacionais dos anos 1960: Copacabana Me Engana, dirigido por Antonio Carlos da Fontoura em 1968. Merece ainda uma revisão seu (bom) desempenho em Lucíola, o Anjo Pecador (1975), filmaço de Alfredo Sterheim – um cineasta que merecia uma redescoberta urgente.