‘Callado’ tira a mordaça do Brasil

‘Callado’ tira a mordaça do Brasil

Rodrigo Fonseca

21 de janeiro de 2021 | 11h27

“Callado” é um documento afetivo sobre o autor de “Quarup”, um pensador das contradições políticas do Brasil

RODRIGO FONSECA
Montado a partir de uma lógica capaz de dar dimensão plástica às palavras e aos arquivos, rompendo com várias convenções da edição de filmes no Brasil, “Callado”, de Emília Silveira, enfim entrou em circuito, resgatando – com brilhantismo investigativo – o legado de um dos mais caudalosos escritores do país. Ao elencar a força estética da prosa de Antonio Callado (1917-1997), o site da Academia Brasileira de Letras (ABL) – aliás, uma joia que pouco se explora – foi além das latitudes políticas da obra do autor de “Reflexos do Baile” (1976) e “Bar Don Juan” (1971) e enveredou pelas dimensões existenciais de sua escrita. O trecho a seguir, de “O Homem Cordial e Outras Histórias” (1993), traduz sua pluralidade:
“Antes de sumir, o desaparecido frequentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de perda de contato com a realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a frequência e a intensidade com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer. Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém, para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas, poças d’água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
– Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária”.

Toda essa riqueza literária transborda no longa de Emília, respeitada como uma das diretoras que hoje mais e melhor usam imagens de arquivo de maneira inventiva no cinema brasileiro, vide longas cerzidos a delicadeza como “Setenta”, de 2014, e “Galeria F.”, de 2016. Seu estudo sobre Callado é um mosaico capaz de mesclar crítica literária e teatral, investigação sociológica, militância política e vida privada, revendo histórias familiares de seu biografado.

A documentarista Emília Silveira

Que Brasil a obra de Antonio Callado traduz, em sua pluralidade, e que Brasil recebe, neste momento, este seu retrato sobre ele?
Emília Silveira:
A obra de Callado traduz um Brasil em transformação. Ele começou a publicar na segunda metade do século XX. Portanto, publicou num Brasil que seguia de conspiração em conspiração, de golpe em golpe. Espremidas entre duas ditaduras, a do Estado Novo e a civil-militar de 1964 a 1985, suas primeiras obras tiveram um certo lirismo mas sempre apontavam para a paixão pelo Brasil e o sonho de uma país mais voltado para as suas origens. “Callado” chega essa semana ao público depois de dois anos preso na Ancine, vítima, como todos os outros filmes, da asfixia do cinema brasileiro. E chega num momento de luto. Luto pelos mais de 200 mil mortos pelo coronavírus. E de luto pelo fim progressivo dos mecanismos de apoio e de desenvolvimento da nossa Ciência, do Meio Ambiente e da Cultura. Por incrível que pareça, depois de três anos da sua conclusão e da passagem pelos festivais, “Callado” adquiriu uma atualidade e pode ajudar a pensar quem somos, o que fomos, o que perdemos e o que poderemos voltar a ser.

Como foi pensada a montagem de “Callado”?
Emília Silveira:
Não via um filme linear, uma história reta, que vai do nascimento à morte. Já me atraía o germe anárquico do Callado dos livros. Era por aí que eu queria ir. Isso combinou com o sentimento do montador, o Vinicius Nascimento, e decidimos arriscar e contar a história aos pulos, seguindo temas fluidos. Soma-se a isso o desafio de fazer um filme sobre literatura. Aí piramos. Começamos a pintar a tela com palavras, a desaparecer com os entrevistados ao vivo, a experimentar superposições. Foi importante a contribuição da Patrícia Tebet, diretora de arte e efeitos visuais. Os contrastes da montagem são os mesmos do nosso personagem retratado. O Callado jornalista, escritor, pai de família, ativista, aventureiro, pensador sobre o Brasil etc etc.

Seu cinema tem uma delicada habilidade de vivificar imagens de arquivo e reinventá-las. Como você avalia essa dimensão “aquivística”, ou melhor, memorialista, da sua gramática documental? Qual é a lógica de arquivo que desenha Callado?
Emília Silveira:
Basicamente tínhamos um arquivo restrito, um drama do documentarista brasileiro. Aqui não se guarda nada, com exceções, claro. Uma das exceções era a Casa de Rui Barbosa, onde está todo o arquivo do Callado. Passamos meses lá. Tudo estava muito bem guardado e eles foram grandes parceiros. Hoje a Casa Rui está sob ataque, como as demais instituições culturais do país. A tese para fazer o filme foi: Vamos trabalhar com o que temos. Se não tem, inventa um jeito de sair dessa. Esse é o resumo da vida do documentarista brasileiro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.