Caldeira autoral na TV Brasil: ‘Tiradentes’

Caldeira autoral na TV Brasil: ‘Tiradentes’

Rodrigo Fonseca

20 de abril de 2022 | 13h52

Finalizado há 22 anos, o épico do diretor e professor Oswaldo Caldeira é uma espécie de “‘Game of Thrones’ encontra Humberto Mauro” – sessão no dia 21/4 na TV Brasil, às 22h30

RODRIGO FONSECA
Assim como é capaz de depurar o vinho, transformando o passar dos anos em sabor, o Tempo, esse moleque travesso, tem a habilidade de decantar o que certos filmes têm de mais vigoroso, filtrando suas fragilidades e imperfeições, realçando seu requinte estético, num revisionismo que se faz mais imponente no caso de produções que não foram valorizadas em sua inteireza quando estrearam, como é o caso de “Tiradentes” (1998), do diretor mineiro Oswaldo Caldeira. Na quinta-feira, dia 21, aproveitando a efeméride ligada à luta pela independência, a TV Brasil vai exibir, às 22h30, esse autoralíssimo exercício de um habilidoso pensador dos vazios afetivos e existenciais da alma brasileira, lembrado mais por “O Bom Burguês” (1983). Professor da UFRJ nos anos 1990, onde formou cabeças com reflexões sobre a “filmologia” de Christian Metz (1931-1993) e os rizomas de Noël Burch, em seu curso sobre Linguagem Cinematográfica, Caldeira fechou aquela década com uma empreitada sobre Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), aquele que “foi traído, e não traiu jamais”. O resultado das incursões do realizador de “Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia” (1977) pela Inconfidência de Minas Gerais é um dos mais corajosos exercícios de desconstrução do imaginário histórico brasileiro. As pedras que o acolheram à época, por ousadias como tocar Bob Dylan em meio a uma cavalgada nas Gerais, hoje repousam inertes no chão. Já o filme… ele rola, roda nas TVs, encanta. Caldeira ousou ao fundir um star system televisivo com figuras icônicas do nosso imperfeito pretérito, com um detalhismo ímpar na direção de arte de Anísio Medeiros (1922-2003). É uma espécie de “’Game of Thrones’ meets Humberto Mauro”, com um astro popular, Humberto Martins, emprestando a persona e o carisma para a recriação de Joaquim José para além da imagem do angry man beatnik. E merece aplausos a atuação de Rodolfo Bottino (1959-2011) como Silvério dos Reis, “o traidor do país”, numa interpretação cheia de nuanças. A entrada dele no longa lembra a chegada de Max von Sydow (1929-2020) em “O Exorcista” (1973), numa evocação do Mal… um Mal sobre o qual Caldeira, distante das telas desde “Histórias de Alice” (2016), comenta na entrevista a seguir, ao P de Pop deste seu ex-aluno e eterno aprendiz.

Caldeira hoje diverte as redes sociais com os posts do Ursinho, uma criação que pode (e deve) virar filme

Seu “Tiradentes” desafia todas as convenções do épico histórico feito no Brasil e triunfa, glorioso, nessa ousadia, ao propor uma narrativa poética transcendente de onde se esperaria apenas uma reconstituição factual. Faz lembrar muito o que Andrzej Wajda fez em “Danton – O Processo da Revolução”. Mas de que maneira essa transgressão de formatos e fórmulas se deu, à época das filmagens? Ocorreu de forma consciente? Que épico o senhor tangenciou criar? Que História o senhor verteu em história?
Oswaldo Caldeira:
Bem, eu fiz uma tese de doutorado sobre o rosto do Tiradentes. Então, na época, impressionaram-me logo de saída os Autos da Devassa, que traziam de forma impressionante – e que eu nunca tinha visto antes – o dia a dia da inconfidência falando até de comidas, namoros, fatos corriqueiros do dia a dia. Era quase uma “pequena História”, com particularidades dos personagens que se atrasavam para uma reunião importante por estarem namorando. Pessoas que contraíam dívidas, coisas assim, com o fato de Tiradentes conquistar namoradas no percurso Minas/Rio. Ao mesmo tempo, li autores do nível de um Antonio Candido que mostravam como os inconfidentes tinham uma origem intelectual sofisticadíssima, que os levou a, gradativamente, inventar um novo Brasil. Eles não tomaram o Poder, não alcançaram a independência física do Brasil de Portugal. Mas formularam essa independência intelectual, uma formulação do viver em colônias.
Seu cinema é pluralíssimo, do documentário à ficção, passando por relatos etnográficos e aventuras afetivas. Mas existe sempre, como marca de diretor autor, um empenho quase melancólico em mostrar uma certa incompletude da História, um vácuo de afeto ou de invisibilidade que move os feitos de seus personagens, do heroísmo pícaro de “O Bom Burguês” ao périplo emotivo de “Histórias de Alice”. O quanto esse vazio – que lhe aproxima tanto de Éric Rohmer – não traduz uma inquietação geracional, de um cineasta que cria seu legado pós Cinema Novo?
Oswaldo Caldeira:
Você usou a palavra “pícaro”, que define bem o meu cinema, pois os meus personagens são todos de certa forma picarescos. São todos sonhadores, pretendendo atingir o inalcançável. Mas, de certa forma, ao mesmo tempo, são semeadores de esperanças. Quando estamos diante de um certo grau de falta de concretitude, cria-se em volta um certo vazio existencial, como você apontou. Não sei se é um vazio geracional. De certa forma, minha geração chegou depois da euforia do Cinema Novo e as coisas já haviam mudado. Meu amigo Paulo Thiago dizia que chegamos depois da festa. Mas, de certa forma, eu me considero um prolongamento do Cinema Novo, como outros companheiros de geração. Ideais sociais, aspiração de mudanças etc. Sim, meu cinema também tem um toque romântico, amoroso. Os meus heróis estão sempre apaixonados por mulheres também um tanto inalcançáveis.

O quanto desse vácuo é um reflexo do próprio Brasil, com suas intempéries históricas?
Oswaldo Caldeira:
Sim, o nosso Brasil, vive aos saltos. À época de JK, tudo era maravilhoso, um Plano de Metas, construção de Brasília, Bossa Nova. Com o fim da ditadura miliar, nós temos Tancredo, um novo Brasil, nova Constituição, campanha das Diretas, Brizola, Lula, conquistas sociais… E, hoje, um retrocesso atual inimaginável. Meus filmes refletem estes sobressaltos , essa montanha-russa.
Que Tiradentes simbólico o seu cinema produziu? O que ele espelha do país que nos sobrou no fim dos anos 1990?
Oswaldo Caldeira:
Eu acho que, durante muitos anos, foi construído um Brasil cordial, descontraído, “do jeitinho”, carnavalesco, o Brasil da Tropicália, irreverente generoso e amoroso. Mas eu acho que as coisas funcionam, inclusive internacionalmente, a partir de certas mentalidades preponderantes em certas circunstâncias. Aí, as outras turmas se encolhem, mas estão lá. Na época do flower power, você viajava pelo mundo e tinha a sensação que, em cada esquina, encontraria representantes de Woodstock. Cheguei na Place St. Michel, em Paris, e os jovens estavam deitados, descontraídos, com roupas hippies coloridas, por todos os cantos. Poucos anos depois, voltei lá e te olhavam torto se você não estivesse de terno e gravata. Então, mais recentemente, com este Brasil que está aí, as pessoas ficam estupefatas se perguntando de onde saiu isso tudo. E eu penso: será que nunca foram a uma reunião de condomínio? Porque tudo isso sempre esteve lá. O racismo, o machismo, a homofobia, a violência… só que tudo reprimido. Abriram a Caixa de Pandora. A maldade liberou geral. Durante muitos anos permaneceram visíveis, apesar das mudanças, as conquistas dos anos 60, o feminismo, o amor livre, inúmeras conquistas sociais. Mas, a partir de um dado momento, o Mal aflorou em toda a sua plenitude e sentiu-se à vontade. Meus filmes sempre trouxeram heróis em busca de valores, sempre dentro de algum otimismo. E não estão dissociadas dos meus documentários. Lá estão representações de mim também. Afonsinho, Orlando Silva, os que sonharam que estavam revolucionando tudo em “Muda Brasil”. Afonsinho, você vê, um cara ser proibido de exercer sua profissão por usar barbas?! Porque parece um vagabundo, um cantor de rock?! Por aí, você vê que o embrião do Mal, o ovo da serpente sempre andou por aqui.
Qual é o maior saldo poético, estético e mesmo econômico que o senhor saca hoje da aventura que foi filmar “Tiradentes”, 22 anos depois?
Oswaldo Caldeira:
Nada em particular. É sempre um percurso, aquele chão palmilhado que vai de um filme a outro. Um desenvolvimento, um percurso heraclítico, como um “vir a ser” incessante. Financeiramente, durante muito tempo meus filmes tinham um rendimento rotineiro com as vendas para a televisão. Mas, atualmente, a legislação não favorece filmes anteriores a 1990, então, não só a venda, como novas oportunidades de financiamento e pontuação para novos investimentos ficam muito restritas. Mesmo assim, tenho vendido alguns filmes, tenho exibido outros, fico sempre muito gratificado em que haja interesse por meus filmes feitos há tanto tempo. Isso justifica a minha obra.

É nítida hoje, em seu olhar, a travessia que o senhor fez pelas telas? Que cinema o senhor acredita ter construído? O que motiva esse seu cinema?
Oswaldo Caldeira:
Faço um cinema – e isso tem inspiração cinemanovista – que busca a justiça social, a transformação do mundo, sem ser um cinema político no sentido restrito, panfletário. Busquei sempre entender o próprio sentido da existência, do “estar aí” no mundo. Tenho uma formação existencialista, Sartre, Camus. Daí aquele vazio em que você encontrou afinidades com Rohmer. Uma ligação inclusive entre a ficção e o documentário, em que mesmo as situações mais mirabolantes são filmadas de forma, direta, simples, mas sempre tensa entre a ficção e o documental. Isso já está de forma explícita no meu primeiro filme, o “Telejornal”.
Quais são os novos passos de sua carreira hoje? Suas divertidas incursões no Facebook com as peripécias do Ursinho, boneco de pelúcia sobre quem o senhor posta divertidos causos de viagem, podem virar filme?
Oswaldo Caldeira:
O Ursinho e eu ainda estamos nos conhecendo. Comecei como uma brincadeira, achei divertido. Mas, aos poucos, foi virando uma outra coisa um pouco mais que uma simples brincadeira. Foi adquirindo outras feições no prazer de uma nova forma narrativa. Você mesmo, a certa altura comentou que o Ursinho era godardiano. E é isso que é gostoso, ao narrar nas aventuras do Ursinho. Ele se desloca no espaço e no tempo livremente, assume vários personagens. É muito bom brincar de Ursinho. E, por aí, você vê como ele tem a ver com todos os meus carnavalescos personagens. Estou sentindo as reações. No início, se seis pessoas gostassem estava ótimo. Agora, percebo que as pessoas que curtem o Ursinho estão aumentando. Sentir essas reações é muito legal. Vou aferindo a forma de conduzir a coisa. Vamos ver em que resulta. Eu e minha família filmamos muito ao longo de nossas vidas. Então, temos muitos making ofs, filmes caseiros etc, filmados por todos nós. No momento, eu estou organizando tudo isso com meu filho Lucas, e vamos ver no que dá.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.