Calamidade é perder a animação de Rémi Chayé

Calamidade é perder a animação de Rémi Chayé

Rodrigo Fonseca

13 de janeiro de 2021 | 12h29

A jovem Calamity Jane no filme de Rémi Chayé, uma das atrações do 23º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français

Rodrigo Fonseca
Foi dada a largada para a 23ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, o fórum anual da produção audiovisual francófona, desta vez online, e o cinema de animação galopou na dianteira de uma seleta de quase 90 longas-metragens, às força do prestígio internacional de “Calamity, Une Enfance de Martha Jane Cannary”. Imortalizada por Doris Day em “Ardida Como Pimenta” (1953), a batedora rápida no gatilho e elétrica no galope Martha Jane Canary-Burke (1852-1903), mais conhecida como Calamity Jane, tem sua lenda repaginada… ou melhor, reanimada… nas telas nesta aventura indigenista, antenada com as reflexões sobre equidade de gênero. Laureado com o troféu Cristal de melhor filme no Festival de Annecy de 2020, o longa animado de Rémi Chayé cavalga nas pradarias do western, mas não finca seus cascos nas convenções do gênero. A proposta de seu realizador, ganhador do Tokyo Anime Award de 2016 por “Longo Caminho Rumo ao Norte”, era evitar a aspereza sexista comum ao faroeste e explorar a infância de uma personagem mítica da História dos EUA. Folhetins do século XIX e do início dos 1900 apontavam Calamity como sendo a vaqueira mais famosa do Oeste americano. Salomé Boulven é quem dá voz a personagem na versão original da trama escrita por Sandra Tosello, Fabrice de Costil e o próprio Rémi.
“Na França, Calamity costuma ser lembrada por um quadrinho de Lucky Luke, mas fora essa HQ, ninguém sabe exatamente quem ela foi. Se era uma pistoleira, uma fora da lei… Existe nela, sim, uma dimensão icônica da força feminina, mas sua infância, que é o período narrado no desenho, é uma passagem desconhecida. O que fizemos foi inventar”, disse Rémi ao Estadão, em entrevista online via Teams, ilustrando o quanto o Rendez-Vous soube se reinventar pelas ferramentas da internet, por conta do impedimento de levar dezenas de jornalistas para Paris, como habitualmente fazia. “O que a gente buscou animar foi a história de alguém que aprende a ser forte em um mundo onde o limite entre o que ser um rapaz e o que é ser uma garota era ainda mais demarcado”.

Narrativa laureada em Annecy, o Festival de Cannes da animação, dribla convenções sexistas do faroeste

Esbanjando resiliência, a Calamity de Rémi é uma menina corajosa que aprender a domar o machismo de seus contemporâneos ao se destacar em tarefas antes vetadas às mulheres. Ás do laço, ela se mostra uma amazona de múltiplos recursos e vai vencendo os desafios que o mundo sexista impõe à base de muita coragem e destreza. A trilha sonora de Florencia Di Concilio é um achado. “A ideia da gente era usar uma música pop para embalar os anos 1800 num estilo Tchaikovsky”, diz Rémi, que trabalha agora em um roteiro novo, sobre uma aspirante a cantora na França de 1900. “Eu não quis usar a Calamity Jane de Doris Day, embora tenha sido importante conhecer aquele filme, por seu estilo queer. A questão do meu filme era apostar numa menina e em suas descobertas”.

Uma outra animação se destaca na seleção do Rendez-Vous: “Josep”, de Aurel. Chancelada com a grife de Cannes, esse desenho revive a ditadura de Franco a partir da amizade entre um soldado e Josep Bartoli (1910-1995), famoso ilustrador que luta contra o regime ditatorial espanhol. A direção de arte é exuberante.

Os demais destaques deste Rendez-Vous, organizado pela Unifrance, são:
“POLICE”, DE ANNE FONTAINE: Filme de encerramento da Berlinale 2020. Este mergulho no universo da PM de Paris parte dos conflitos afetivos de três agentes da Lei na condução de um imigrante ilegal para fora de um país hoje assombrado pelo fantasma da xenofobia. O carisma de Omar Sy (de “Intocáveis”) é vitaminado pela dobradinha com a atriz Virginie Efira. Sy virou “o” astro da streaminguesfera neste momento, graças ao fenômeno que “Lupin” virou.
“COMMENT JE SUIS DEVENU SUPER-HÉROS”, DE DOUGLAS ATTAL: Nos moldes das narrativas da Marvel e da DC, este thriller traz uma dupla de policiais envolvida na investigação de uma droga que garantes poderes de lançar fogo e raios a seus usuários.
“SLALOM”, DE CHARLÈNE FAVIER: Amparado numa sofisticada fotografia, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).

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