Caixa Cultural garimpa as minas de Hal Hartley

Caixa Cultural garimpa as minas de Hal Hartley

Rodrigo Fonseca

26 Janeiro 2018 | 10h53

Hal Hartley dirige Parker Posey no set de “Fay Grim”, uma das atrações da mostra no Centro do Rio

Rodrigo Fonseca
Até o dia 4 de fevereiro, a Caixa Cultural do Rio de Janeiro vai funcionar como um templo para a “razão cínica”, apelidado dado pela crítica francesa ao tipo de humor fino descortinado pelo cineasta americano Hal Hartley a cada uma de suas crônicas de costumes sobre lealdade, persistência, indiferença, fé e Molière, o deus maior do realizador de joias como Fay Grim (2006) e Amateur (1994). O espaço no Centro do RJ abriga uma retrospectiva da obra do diretor, dono de um estilo palavroso, de timbres existenciais, influenciado por suas pesquisas acerca da precisão e da experimentação musical. Cults como Confiança (1990) – que a CC exibe no dia 31, às 18h – garantiram a ele láureas aos montes, conquistadas em mostras em Sundance, Tóquio, Catalunha e até São Paulo, cidade que ama de paixão. Na década de 1990, ele fez parte da novíssima onda de diretores que renovaram o cinema americano de baixo orçamento, ao lado de cineastas autorais como Todd Haynes (Não Estou Lá)Paul Thomas Anderson (Boogie Nights), Wes Anderson (Três É Demais) e Todd Solondz (Felicidade). Mas sua artesania e sua busca por se manter alternativo aos processos padrões do mercado fizeram dele um animal selvagem acometido de hidrofobia para as convenções de controle não só de Hollywood mas da própria seara indie que ele ajudou a lapidar. Nesta sexta, na mostra carioca tem As Confissões de Henry Fool, produção que deu a Hartley o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes em 1997. Estrela da verve autoral que nasceu na cena indie dos EUA nos anos 1990, Hal Hartley encontrou na internet uma parceira de trabalho. A partir das redes sociais e das ferramentas do crowdfunding, o cineasta nova-iorquino de Long Island, com 58 anos de vida e 33 de cinema, viabilizou maneiras de filmar que desafiam os cânones mercadológicos da indústria. A partir da difusão de suas ideias no ambiente da www, ele levantou recursos para rodar o primoroso Meanwhile (2011).

 “O cineasta norte-americano Hal Hartley é um autor na própria acepção da palavra. Ele controla e coordena todo o processo de sua obra. É fascinante observar a maneira como dirige atrás das câmeras em que mostra passo a passo a equipe técnica e aos atores aquilo que quer ver no enquadramento. É uma coreografia entre corpos e o texto”, diz Leonardo Luiz Ferreira, o curador da retrospectiva na Caixa. “Por mais que os corpos e os gestuais sejam importantes na obra do Hartley, e ele vai desenvolver isso a cada filme, a palavra tem parte fundamental na sua mise-en-sène. Antes de pensar as imagens e construir sequências, a estética de Hartley é pautada na feitura do roteiro e na precisão dos diálogos, que transitam entre a ironia, humor negro e a filosofia. É o cineasta americano surgido no fim dos anos 80 até aqui que melhor trabalha o texto em cena, com uma dramaturgia sólida, que tem ligações com Molière, Peter Brook, Rainer Werner Fassbinder e Jean-Luc Godard. As palavras como guias da ação em um trabalho de constante desafio que equilibra e subverte gêneros dentro de sua narrativa”.