‘Cahiers du Cinéma’ comemora 70 anos de luta

‘Cahiers du Cinéma’ comemora 70 anos de luta

Rodrigo Fonseca

09 de abril de 2021 | 13h23

RODRIGO FONSECA
Tem “Flores Partidas” (Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2005) e “Amantes Eternos” (2013) na Amazon Prime e tem “Paterson” (Palm Dog de 2016) na MUBI, o que facilita uma escavação inicial do patrimônio audiovisual de Jim Jarmusch, o maluco beleza do cinema autoral indie dos EUA, que é alvo de um estudo na edição de 70 anos da “Cahiers du Cinéma”. Quem ganha o presente é o diretor americano nascido em Ohio há 68 anos, mas a festa é da mais prestigiada revista de cinema do mundo, gestada em solo francês. Apesar de todas as intempéries recentes por que passou, a boa e velha bíblia da cinefilia resistiu e reinventou-se sob a chefia de redação de Marcos Uzal, que faz uma triagem de 70 filmes para celebrar a septuagenária realidade de seu veículo, fundado em abril de 1951. Em sua gênese editorial estavam André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca. Ela nasceu como uma alternativa à “Revue du Cinéma”, unindo integrantes de dois cineclubes, o Objectif 49 (com Robert Bresson, Jean Cocteau e Alexandre Astruc) e o Ciné-Club du Quartier Latin. Doniol-Valcroze foi o primeiro editor, até a chegada de (um futuro cineasta) Éric Rohmer, em 1957. Realizadores como Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut escreveram em suas páginas, sempre protegidas por uma capinha amarelinha que, ao longo do tempo, passou a dar lugar a outra diagramação. Nesta edição comemorativa, cujo número é 775, há textos sobre Héléna Klotz, Bertrand Mandico, Mariano Llinás, Julie Lecoustre e Emmanuel Marre, Yuan Qing, Antonin Peretjatko, Arthur Harari, Aurélia Georges, Serge Bozon, Chiara Malta e Sébastien Laudenbach, Claude Schmitz, Alanté Kavaïté e Jonás Trueba. Há ainda imperdíveis análises da série “WandaVision”, de Jac Schaeffer (para a Marvel) e de “Let Them All Talk”, de Steven Soderbergh. Mas os escritos sobre Jarmusch são o filé.

p.s.: Com sessão marcada para este domingo, às 21h, via Looke, no festival É Tudo Verdade, “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”, de Andrea Prates e Cleisson Vidal, periga ser o filme mais tocante de toda a maratona documental de 2021, pelo que se viu até agora. Que roteiro doce e preciso. Compositor prolífico, PCPinheiro é um dos poetas mais celebrados da música brasileira, autor de “Canto das Três Raças” e “O Poder da Criação”, entre outros clássicos do samba, do samba-enredo e da canção. Parceiro de Baden Powell, Tom Jobim e Edu Lobo, foi gravado por Elis Regina, Clara Nunes e Maria Bethânia. Sentado em seu sofá, sob uma delicada fotografia em P&B, ele reflete sobre a natureza de suas canções, relembra o passado e revê a carpintaria poética canções de protesto contra a ditadura militar.

p.s.2: Neste domingo, “Redemoinho”, primeiro longa-metragem do diretor de TV José Luiz Villamarim, estreia na MUBI. Laureado com o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio 2016, o drama é uma adaptação da saga literária “Inferno Provisório”, de Luiz Ruffato, e explora as horas que antecedem a comemoração de um Natal em Cataguases, nas Minas Gerais, a partir do reencontro entre dois amigos de juventude: o sereno Luzimar (Irandhir Santos) e o feroz Gildo (papel de Júlio Andrade). O roteiro é de George Moura e a fotografia, de Walter Carvalho. Produção da Bananeira Filmes, de Vânia Catani.

p.s.3: Falando em MUBI, ela lançou um dos melhores filmes de Wim Wenders nos últimos 20 anos: “Imagens de Palermo” (“Palermo Shooting”, 2008), com Dennis Hopper no papel da Morte, em uma trama concebida pelo diretor alemão em homenagem a Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, ambos mortos em 2007. Na trama, um fotógrafo conceituado (o cantor Campino), assolado por visões fantasmagóricas, encontra um amor (Giovanna Mezzogiorno) em uma visita à Itália, a trabalho. Franz Lustig assina a direção de fotografia, responsável por uma luz estonteante.

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