Cadernos de Godard: uma ‘Cahiers’ mítica

Cadernos de Godard: uma ‘Cahiers’ mítica

Rodrigo Fonseca

22 de outubro de 2019 | 18h13


Rodrigo Fonseca
Tá rolando François Truffaut na Cinemateca do MAM até 29/10 (nesta quarta-feira tem “O amor em fuga”, às 17h; e “O quarto verde”, às 19h), mas o assunto aqui é Jean-Luc Godard, dada a capaça antológica que a “Cahiers du Cinéma” dedicou ao diretor suíço (nascido em Paris, há 88 anos) de carona na chegada de seu “Imagem e palavra” a um pequeno circuito francês e ao menu da Netflix. “Le livre d’image”, com cenas do clássico “Johnny Guitar” (1954), de Nicholas Ray, em seu explosivo miolo semiótico, conquistou uma Palma de Ouro Especial no Festival de Cannes de 2018. No dia 18 de setembro deste ano, os críticos Stéphane Delorme Joachim Lepastier bateram um longo papo com o octogenário filósofo da cinemática. A dupla arranca dele reflexões sobre realizadores que merecem uma revisão (como Frank Borzage, de “Depois do casamento” e “Homens de Amanhã”) e sobre atrizes capazes de desafiar paradigmas dos códigos de naturalismo (como Adèle Haenel). E fala muito, durante a conversa, sobre dogmas da produção digital. Há um ano e meio, em Cannes, o homem por trás de “O desprezo” (1963) concedeu uma coletiva de imprensa virtual via Facetime. Ele recusou-se a sair do pequeno escritório onde trabalha, na Suiça, e conversou com a imprensa por Skype, abrindo reflexões sobre o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre fez, desde “Acossado” (1960).
“As filmagens de ‘Imagem e palavra’ não foram ação, foram arquivos: preciso do passado para falar do futuro. Falam por ai que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes interessado em me exibir. Talvez a presença deste filme aqui seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse o mais emblemático e polêmico representante do revolucionário movimento chamado Nouvelle Vague.

Nas paredes do Palais des Festivals e nas fachadas dos hotéis do balneário, em 2018, encontravam-se cartazes reproduzindo uma imagem construída por ele em 1965, com Anna Karina e Jean-Paul Belmondo ensaiando um beijo em “Pierrot le fou – O demônio das 11 horas”. Aquela cena traduz a irreverência dos nouvellevaguianos (Agnès Varda, François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette) na defesa da tese de que o cinema somente poderá fazer revoluções se revolucionar cotidianamente a si mesmo, como forma e conteúdo. Até hoje, ele trabalha assim. “As pessoas andam me perguntando sobre 1968, mas o que eu posso dizer desse assunto é que faço parte de um tempo no qual não se aprendia cinema em escolas, mas sim vendo filmes… às vezes os filmes mais obscuros… e tentando extrair sentido deles, isolando cada imagem”, disse Godard.

Pigarreando e tossindo sem parar, ele era visto pela Croisette de um pequeno celular, colocado diante de um microfone no qual cada jornalista fazia uma pergunta. “O que me desaponta é ver tanta gente da Russia, do Japão, da Italia falando Inglês, em um evento destes, na França, em vez de falar em seu idioma original. Isso me faz pensar numa frase que mli num livro: ‘as democracias modernas tornaram a política uma pratica do pensamento separada das demais áreas do saber’. Por isso o totalitarismo esta ai e ele pode se manifestar até na ficção, com a escolha de um ator que simbolize certos valores totálitarios”, disse ele.
Existem astros imagens de astros hollywoodianos em “Le livre d’image”, entre eles Joan Crawford, Paul Newman e Sterling Hayden. Ah! E é possível ver um frame do “Tubarão”, de Spielberg. Mas são apenas citações cinéfilas, que vão se descontruindo conforme Godard vai superpondo a elas uma narração filosófica. “A televisão nos deu uma ilusão perigosa de que o papel do som no audiovisual é reiterar o que estamos vendo, de modo a não abrir espaço para a duvida. O som, no cinema, precisa ser pensado de outra forma, autônoma, como se fosse um organismo à parte da imagem. Complementar, claro, mas com significação em si”, diz Godard, que acompanhado de seu mais fiel companheiro, um charuto, falou a Cannes de seu desejo de seguir filmando, apesar da tosse seca em sua garganta e da presença de Trump no comando da Casa Branca. “Continuar trabalhando é algo que, no meu caso, depende apenas de minhas pernas deixarem e meus olhos ajudarem. Acredito ainda num cinema que surge como um comentários às imagens, mais ou menos como os irmãos Lumière documentaram a chegada do trem na estação, nos primeiros filmes feitos pela Humanidade: eles deslocaram um objeto de lugar. Isso é coisa parecida como o que Paul Cézanne fazia coma a luz e com a cor em seus quadros. A cor de Cézanne é violência… e é luz. ‘Le Livre d’image’ é isso também”.

Este ano, a “Cahiers du Cinéma” anda esbanjando brilho em suas capas, tendo dedicado suas páginas a Clint Eastwood; ao israelense Nadav Lapid e seu filme ganhador do Urso de Ouro “Sinônimos” (com sessão nesta sexta, às 22h, no CineSesc, na Mostra de SP); à diva da direção Agnès Varda; às múltiplas gerações de mulheres diretoras e ao Brasil de “Bacurau”.
p.s.: De 2 a 9 de novembro, Paraty recebe o lançamento da 3ª Mostra Sesc de Cinema, um evento obrigatório (http://www.sesc.com.br/portal/site/mostradecinema/2019). Essa é a primeira vez que a abertura acontece na cidade da Costa Verde, no Rio de Janeiro. Este ano o evento homenageia Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem no Brasil: “Amor Maldito”, de 1984, é seu trabalho mais famoso, projetado em agosto no Festival de Locarno. O evento do Sesc se concentra em uma semana. Os 42 títulos escolhidos serão exibidos na Unidade Sesc Santa Rita e no Cinema da Praça. De lá, as produções circularão por todo país, até o dia 15 de dezembro. Além disso, a programação contará com mesas de debates sobre as produções e temas relacionados ao atual cenário do audiovisual no país. O menu inclui “Bacurau”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; “A Rainha Nzinga chegou”, de Junia Torres; e “Mata Negra”, de Rodrigo Aragão.

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