‘Cacumbu’: Daniel Paes no Cardume da excelência

‘Cacumbu’: Daniel Paes no Cardume da excelência

Rodrigo Fonseca

02 de junho de 2020 | 09h44

Cena de “Cacumbu”, que passa esta noite, seguido de debate, no Cardume

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Em tempos de streaming, uma iniciativa como o cardume.tv.br merecia todos os Oscars da inclusão: trata-se uma plataforma de inclusão digital dedicada integralmente a exibir curtas-metragens nacionais, revelando ao país talentos em ascensão como o de Daniel Paes, objeto de uma live, agendada para esta noite sobre expressões audiovisuais nas raias da poesia. Tem pencas de curtas bom no Cardume (como “MC Jess”, de Carla Villa Lobos; “O Fim do Verão”, de Caroline Biagi; e o genial “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares), num aluguel a R$ 5 ao mês, incluindo aí dois trabalhos de Paes, que assina a fotografia de “Bandeira de Retalhos”, de Sérgio Ricardo. Dele, estão lá “Vento Burro” e “Cacumbu”, que vão ser debatidos no site às 19h desta terça, pelo cineasta e produtor cultural Daniel Ferreira; pelo ator Marcello Melo; pelo montador Victor Magrath e pelo músico Micah El Tuhu. Antes do papo, os curtas serão exibidos online. Eis as sinopses:
“Vento Burro”: Difícil precisar onde tudo começou. Talvez após alguma das grandes guerras. Tudo foi mudando. Não por dentro, por fora. Cada pessoa se ensimesmando mais. Falsos profetas tomaram conta dos palácios, com suas palavras. Com o vento seco, podre e sujo que saia de suas bocas. Vento burro. O filme é a primeira parte da trilogia do Brasil Profundo.
“Cacumbu”: Num futuro próximo, um menino morador de favela encontra uma fita K7 com a inscrição “Cacumbu”. O que este objeto revelará sobre a necessidade de união do povo pobre em um país sem rumo? Continuação da trilogia, a produção carrega ecos motovisuais de “O Balão Vermelho”, de Albert Lamorisse.

A seguir, Paes fala de suas criações:
Seus curtas vagueiam pelas ruas com uma mirada de crônica. O que essas andanças, mediadas por uma sonoridade de base afro, revelam sobre o RJ onde você vive?
DANIEL PAES:
Meus filmes sempre tiveram esse aspecto do ambiente público e dessa articulação com a nossa tradição popular da matriz africana, portuguesa e indígena. Acho que isso está muito ligado nesse ambiente público que construo. Desde o meu primeiro curta, “Paó” (2008), que já possui esse desenho do jovem negro, dos símbolos do Candomblé. É, como diz o Jorge Mautner, o Jesus Cristo de Nazaré com os tambores do Candomblé. Já traz essa ideia da cruz e da cristandade ligada à matriz africana no Brasil. Meus filmes utilizam muito mais os espaços públicos que os ambientes privados. Pensando o espaço público como o espaço de encontro e de embate, onde as coisas se fazem e refazem. É o Rio de Janeiro que eu sempre conheci, saindo do subúrbio, transitando do asfalto para o morro, os bairros que vivi… então, isso faz muito sentido.
Como foi organizada a seleção de imagens de “Vento Burro” e de que maneira o texto poético que as cobre foi construído?
DANIEL PAES:
O “Vento Burro” surgiu como sentimento lá em 2013, quando começou um movimento contra o governo da Dilma. Eu já percebia esse movimento daqueles que chamo de falsos profetas e desse movimento de usar a retórica para destruir as reputações. Ele parte muito dessa reflexão, desse senso de injustiça que é cometido quando a linguagem não é coerente. O texto sempre foi muito presente nas minhas criações. Essa narração, poética e política, articula às duas coisas juntas.
Qual é a influência de Sérgio Ricardo na sua narrativa?
DANIEL PAES:
Desde que conheci o Sérgio Ricardo, muita coisa que eu já fazia fez mais sentido. Tudo isso que estou falando aqui, faz sentido na obra do velho. Quando o conheci, ele foi um espelho para mim. Espelho de que aquilo que eu imaginava como possível, e fazia sentido para mim como arte, funcionava. Ele já tinha feito essa trajetória de aliar uma poesia que busca a beleza lírica a um posicionamento político. Por um lado, ele até me abriu mais para essa parte lírica de busca pela beleza, trazendo um pouco de leveza, sem deixar que as obras ficassem tão fechadas. Apesar de que, na Trilogia do Brasil Profundo, isso está muito marcado. É uma favela carioca escura e noturna que vai na linha aquela imagem do favela movie ou, até mesmo, da imagem de um Brasil soturno e nublado. Um Brasil sem Sol… ou, como diria o Chris Marker, sans soleil. É um pouco essa a lírica.
E o terceiro filme da trilogia? Cadê?
DANIEL PAES:
Chama-se “Maria Mansa e Traiçoeira”. Ele ficou com 15 minutos e está indo para a finalização de imagem e de cor. Eram filmes nos quais eu procurava especular sobre um futuro próximo do Brasil. Mas o tempo engoliu tanto a gente, que eles se tornaram mais atuais do que eu gostaria. Eu imaginava mais uma especulação de futuro que foi se atualizando nesse caos que estamos vivendo. Como digo nos filmes, é um caos que nos move para construir. E a gente está construindo, estamos nos refazendo.

p.s.: Esta noite, às 23h10, o SBT vai revelar para a TV aberta brasileira o talento das gêmeas Jen e Sylvia Soska, diretoras canadenses que se especializaram em thrillers e tramas macabras nas raias do gore. As duas irmãs, idênticas, unem seus talentos em “Vingança” (“Vendetta”, 2014), com Dean Cain, o Clark Kent dos anos 1990, às voltas com um acerto de contas num ambiente carcerário.

p.s.2: A “Sessão da Tarde” desta terça aposta no carisma que sobrou em John Cusack em “Ensinando a Viver” (“Martian Child”, 2007), sobre um escritor viúvo que adota um menino encasquetado com a ideia de ser um marciano perdido na Terra.

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