Bumerangue de brasilidade: ‘WeeBoom’ areja nossa TV

Bumerangue de brasilidade: ‘WeeBoom’ areja nossa TV

Rodrigo Fonseca

16 de julho de 2019 | 11h38

Wee e Boom farão de tudo para correr atrás dos Boomies na série brasileira do Boomerang, coprodução do canal com o Split Studio

Rodrigo Fonseca
Tá começando mais um Anima Mundi, o de número 27, que patinou daqui, dali e de acolá para sair do papel, mas, enfim… saiu, e bem… muito bem… com uma seleção de dar inveja aos festivais gringos do setor e com muita reflexão sobre o atual boom de séries de desenhos de DNA nacional, entre eles uma delícia sabor loucura chamada WeeBoom, da grade do canal Boomerang. Aliás a emissora anda bombando em oferta de bons personagens, com “Bunnicula, o vampiro coelho”, “Turma da Mônica”, “Mr. Bean” e “Tom & Jerry”. Vai ser difícil a tribo animada carioca e paulistana passar pelo AM.27 sem papear sobre o quanto essa programação anda oxigenando reinas nas TVs a cabo. Aliás, fica a dica: a maratona vai de 17 a 21 de julho no Rio de Janeiro, e de 24 a 28 de julho, em São Paulo, com mais de 300 títulos de 40 países. Entre os convidados, olheiros, curiosos e talentos, vai estar Jonas Brandão, cabeça por trás de Wee e de Boom, cujas peripécias, norteadas pela traquinagem e por um bichinho raro batizado de lealdade, configuram o primeiro seriado desenvolvida especialmente para o Boomerang, hoje um bunker de diversão para plateias mirins e adultas no audiovisual, sempre com dublagens bem lapidadas.
Vetorizada pela alegria, “WeeBoom” conta a divertida história de dois melhores amigos, Wee e Boom, que percorrem este nosso surrado planetinha em busca de criaturas mágicas e maluquinhas, os Boomies. Com um total de 26 episódios, de sete minutos cada, a animação foi pensada para crianças de quatro a sete anos de idade, mas pode ser curtida por toda a família – e curtida com gosto, porque é agitada e engraçada pacas. Os primeiros 13 episódios da série vão ao ar toda sexta-feira, às 18h, em todos os países da América Latina com exibição do Boomerang, com versões em Português e Espanhol.

Fã dos Boomies e dos super-heróis cinematográficos que lutam para impedir que a animação brasileira entre para a falange dos fracos e oprimidos, o P de Pop saiu à caça de Jonas Brandão, diretor que responde pela paternidade de “WeeBoom”. Uma das promessas do setor, nos dias de hoje, ele bateu um papo esperto sobre a lógica da fantasia no nosso cinema e na nossa teledramaturgia e ainda fez umas apostas acerca das bossas do Anima Mundi. Com a palavra, o realizador:

Qual é o maior desafio para se investir na fantasia na TV brasileira, que, historicamente, na dramaturgia, sempre pautou-se pelo realismo e pelo naturalismo?
Jonas Brandão: Essa é uma pergunta interessante, porque não acredito que falte público para as produções mais fantasiosas, uma vez que, nos últimos anos, vemos um aumento de audiência em produções estrangeiras, como “Game of Thrones”, que foi uma febre, ou filmes de super-heróis e séries de futuro distópico, como é o caso do seriado “The Handmaid’s Tale“. Creio que essa questão se dá principalmente por uma questão orçamentária, já que tramas mais fantasiosas frequentemente exigem recursos elaborados, como efeitos especiais e direção de arte bem focadas em criar e estabelecer as normas fantasiosas que diferem aquele universo em questão do “universo real”. Há excelentes exemplos de dramaturgia fantásticas na TV brasileira, como “Hoje é dia de Maria” ou as novelas “Saramandaia” e “A Indomada”, que se inspiravam no realismo mágico. Mas, de fato, elas são poucas num mar de produções naturalistas.

Mas e na dramaturgia animada?
Jonas Brandão: No meio da animação, a lógica é quase inversa. Como praticamente 100% do que se vê em uma animação é construído artesanalmente por artistas, e os personagens são manipulados quadro a quadro por um animador, há um controle e uma liberdade maior para se criar qualquer tipo de universo em uma história. É óbvio que também há questões orçamentárias que geram impacto no projeto e que podem impor algumas limitações, mas a dificuldade em fazer um personagem animado voar é bem menor do que fazer um ator voar, por exemplo. Em WeeBoom, nossa série que acaba de estrear no Boomerang, um dos protagonistas, o Boom, tem habilidades mágicas, como o poder de controlar o tamanho do seu corpo, podendo ficar gigante se ele quiser. Sua cabeça também frequentemente se separa do corpo. Esses recursos são usados de forma muito divertida na série e são elementos importantes na construção do universo. O custo de produção da série não é mais caro, nem mais barato por conta disso. Mas, se a série fosse em live action e não em animação, certamente os mesmos recursos trariam uma complicação enorme pra produção, além de elevar consideravelmente o orçamento do projeto.

Fantasia e multiculturalismo em prol do humor em roteiros ligeiros

Qual será sua participação no Anima Mundi, que começa nesta quarta, no RJ?
Jonas Brandão: Para o Anima Mundi tivemos selecionado um episódio de uma série que dirigi para o Futura, o Que corpo é esse?. É uma série infantil sobre sexualidade e prevenção de abuso sexual que desenvolvemos para o Futura, Unicef e Childhood, e ela entrou na sessão de curtas infantis. Também tivemos selecionados o curta “Egrégora”, do Etienne Tavares, que nós produzimos aqui no Split Studio. Para além disso, à convite do Anima Mundi, devo mediar uma mesa sobre produção infantil digital.

Qual é a sua expectativa para o festival animado deste ano?
Jonas Brandão: Eu não conheço a maior parte dos curtas e filmes que estão participando, mas arrisco dizer que o curta “Tio Tomás”, da portuguesa Regina Pessoa, é um dos favoritos a vencer. A Regina é uma artista incrível, e seu novo curta é lindo e está fazendo uma carreira excepcional em festivais pelo mundo. O curta “Mémorable”, de Bruno Collet, também é um dos candidatos. Ele ganhou o grande prêmio de curtas no festival de Annecy, na França, esse ano. Na categoria de longas, meu palpite é o filme espanhol “Buñuel en el laberinto de las tortugas”, de Salvador Simo, que está incrível. E também aposto no longa “A Cidade dos Piratas”, do meu amigo Otto Guerra, baseado nos quadrinhos “Piratas do Tietê”, da Laerte, também tem muita chance. O filme está maravilhoso e discute sobre temas muito atuais e caríssimos ao Brasil de hoje em dia.

Voltando para a sua obra e a sua série, que hoje é uma das pepitas douradas da grade do Boomerang: o quanto Wee e Boom traduzem a realidade infantil de nossos dias?
Jonas Brandão: Wee e Boom não são exatamente crianças. Boom é uma criatura mítica que tem milhares de anos e Wee é uma desbravadora, que viaja pelo mundo em busca de aventuras. Porém eles assumem comportamentos, interesses e perspectivas infantis, principalmente dentro do universo do que é uma criança entre 4 e 7 anos, que é a faixa etária do público da série.

Boom, por exemplo, é bastante ingênuo, adora brincadeiras, distrai-se facilmente, e sempre tem medo de coisas banais. Wee, por sua vez, também gosta de divertir, e frequentemente canaliza algumas características que também existem no universo infantil, como o egoísmo e o excesso de senso de competição. No fundo, Wee e Boom, juntos, combinam várias nuances do que é ser criança. Esses elementos e conflitos são temas de alguns episódios, nas quais as personagens precisam lidar com suas qualidades e defeitos, certamente oferecendo uma gama de elementos com quais as crianças possam se identificar.

Além disso, a série “WeeBoom” também busca se afirmar junto ao público empregando questões ligadas às crianças de hoje em dia: a geração alpha. Wee e Boom são conectados e estão inseridos em ambientes com muitos estímulos sensoriais, cores, e acesso rápido à informação o tempo todo, refletindo um pouco as influencias e interesses das crianças de hoje.

Jonas Brandão fala: “Para o Anima Mundi, tivemos selecionado um episódio de uma série que dirigi para o Futura, o “Que corpo é esse?”. É uma série infantil sobre sexualidade e prevenção de abuso sexual que desenvolvemos para o Futura, Unicef e Childhood, e ela entrou na sessão de curtas infantis. Também tivemos selecionados o curta “Egrégora”, que nós produzimos aqui no Split Studio”

Como você avalia a atual realidade de produção das séries de animação nacionais? Como você avalia esse mercado?
Jonas Brandão: Nós vivemos uma época muito fértil na animação. Nos últimos 15 anos foram criados muitos incentivos e investimentos no mercado audiovisual em geral, sobretudo do governo federal. Também houve a lei 12.485, conhecida como a Lei da TV Paga, que instituiu, entre outras coisas, um sistema de cotas para conteúdo brasileiro independente para TV fechada. Isso fez com que o mercado independente brasileiro geral (live action, documentário, animação etc.) conseguisse romper uma barreira histórica das estruturas de produção televisivas do Brasil, fazendo com que produções de empresas independentes conseguissem ser produzidas e veiculadas na TV, alcançando o público brasileiro e internacional. Essa lei modificou o mercado do Brasil, impondo um modelo de produção semelhante aos de países que possuem uma forte produção independente para TV. No campo da animação, o Brasil hoje tem um modelo de proteção e fomento similar ao da França e do Canadá, que são dois países muito fortes no mundo da animação.

A realidade de antes era a de pouquíssimos profissionais circulando pelo mercado, a maior parte com formação autodidata, pela carência de formação de mão de obra. E muitos deles, não encontrando espaço no Brasil, dada à baixa produção, acabavam ou migrando para outro país para tentar melhor sorte na carreira, ou abandonando a profissão por falta de estímulos e possibilidades.

Pragmaticamente falando, com a lei da TV Paga e os investimentos feitos, o cenário mudou drasticamente.

Como?
Jonas Brandão: Nunca houve tantas pessoas trabalhando e vivendo de animação no Brasil como agora. Há muita geração de emprego na área, e os investimentos começaram a fazer não apenas com que surgissem novas produções em animação, mas que também florescesse todo um ecossistema em volta, como o surgimento empresas de software e cursos livres e universitários especializados. Para além disso, temos observado uma capilarização da produção de animação pelo Brasil, ampliando as fronteiras para além do eixo Rio-São Paulo, que historicamente sempre foi o principal eixo de produção. Hoje tem muita coisa legal em animação sendo produzida por todo o Brasil.

Esse cenário proporcionou que surgissem muitos projetos de sucesso nacional e internacional nos últimos anos, como as séries “Peixonauta”, “O show de Luna” e “Irmão do Jorel”. Algumas dessas séries conseguiram ultrapassar a barreira de estarem presentes em mais de 120 países, que é uma marca que dificilmente algum outro tipo de produção brasileira que não animação consegue chegar, seja novela, ficção ou documentário. Além das séries, tivemos recentemente os longas “O Menino e o Mundo”, que chegou a concorrer ao Oscar em 2016, e, mais recentemente, “Tito e os Pássaros”, que está fazendo uma brilhante carreira por festivais pelo mundo. Produções como essas levaram o Brasil para fora, a ponto de, no ano passado, o Brasil ser o país homenageado do festival de Annecy, a principal vitrine de animação do planeta, que acontece anualmente na França. É uma janela incrível para o mercado nacional, que reflete em novos negócios para o Brasil. “WeeBoom” vem inserida nesse contexto. Sua existência e realização só foi possível graças à lei da TV paga e ao ótimo momento do mercado.

Qual é a dimensão da sua equipe?
Jonas Brandão:
A série empregou algo entre 50 e 70 profissionais, direta e indiretamente, números estes que, anos atrás, eram impensáveis para uma única produção. Além disso, o primor técnico e narrativo que o Brasil conseguiu atingir na animação nos últimos anos reflete na qualidade que conseguimos imprimir na série, colocando-a dentro dos padrões qualitativos internacionais. E a nossa ótima parceria com o grupo Turner, dona do canal Boomerang, onde a série é exibida, garantiu que a série rompesse as barreiras do Brasil, estreando simultaneamente em todos os países da América Latina. Em outras palavras, a combinação toda por trás da série, que envolve modelo de produção, padrão qualitativo, alcance de público e exportação é parte de um cenário bastante fértil e que dificilmente poderia ter acontecido dez anos atrás.

Anote aí a grade exibidora do Anima Mundi:

Rio de Janeiro: de 17 a 21 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66 – Centro) e Estação Net Botafogo (R. Voluntários da Pátria, 88 – Botafogo);

São Paulo: de 24 a 28 de julho, no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Bela Vista), Petra Belas Artes (R. da Consolação, 2423 – Consolação), IMS Paulista (Av. Paulista, 2424 – Consolação) e Auditório Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral – Vila Mariana).

Boomerang fica ali, numa galáxia bem pertinho, no alcance de um zap no controle remoto.

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