Bud Spencer se vai deixando saudades

Bud Spencer se vai deixando saudades

Rodrigo Fonseca

27 de junho de 2016 | 23h58

RIP, querido Bud (1929-2016)

RIP, querido Bud (1929-2016)

Aos 86 anos, longe das telas desde 2009, Bud Spencer cometeu a deselegância de morrer sem pedir licença ao nosso coração. Campeão olímpico de natação, jazzista, piloto de helicóptero, advogado, político e metade mais forte, mais feia e corpulenta da dupla formada com seu conterrâneo Terence Hill (ou melhor, Mario Girotti), o ator italiano, cujo nome real era Carlo Pedersoli, deixa o Mundo mais triste a partir de hoje, pois sua alegria contagiou gerações, vendeu milhões de ingressos e elevou a doçura das tardes de domingo da Rede Globo nos anos 1980. Quem cresceu naquela década, teve Spencer – dublado ora por Silvio Navas, ora por Antonio Moreno – como babá, em aventuras e faroestes sempre na chave da chanchada, com tapas na cara e socos na cabeça de seus adversários. Adotado pelo cinema após uma participação em Quo Vadis (1951), ele virou uma espécie de monólito da ala mais bufa do humor da Itália, em westerns com molho de spaghetti cujo teor de trapalhada era maior que o de sangue. Basta um, o soberbo Os Quatro da Ave Maria (1968), para se entender o grau de carisma que ele alcançou no arquétipo de Obélix do Oeste de mentirinha, filmado quase sempre em Almería, na Espanha. Juntos, ele e Hill eram Trinity, alcunha de uma franquia capaz de expandir fronteiras de gênero. Ali, a dupla atingiu a covalência plena em sua química repetida em outros 17 sucessos, incluindo o carnavalesco Eu, Você, Ele e os Outros (1984), filmado no Rio de Janeiro, onde a dupla fez festa no programa dos Trapalhões. E, lá, Bud falou o português que aprendeu ouvindo música e em torneios de nado. Era um homem de mil atributos… sobretudo o de nos fazer querer ser heróis.

“Dois Tiras Fora de Ordem” (1977)

Foi num domingo de 1987, numa Philco velha e fedida a transistor queimado, que eu vi seu rosto pela primeira vez, em Dois Tiras Fora de Ordem (1977). Em uma calçada estreita, Hill olha para ele, de troça com seu tamanho king size de 1,90m de altura e toneladas de abdômen, e diz: “Ei, Jamanta! Caminhão é à direita”. Dali nasce uma parceria de décadas, celebrada no nome de um dos filmes de título mais bonito de toda a história do cinema: Quem Encontra Um Amigo Encontra um Tesouro (1981). Nesta terça-feira fria de junho, o menino de sete anos que mora dentro do autor deste blog derrubou aquela lágrima que só cinéfilos sabem chorar. A lágrima de quem perdeu um ente querido na família do cinema. Descanse em paz, Bud.

 

 

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