Bruce Willis chega duro de matar à Broadway e Mrs. Jatahy agita Copacabana

Bruce Willis chega duro de matar à Broadway e Mrs. Jatahy agita Copacabana

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2015 | 11h28

Bruce Willis vive o escritor Paul Sheldon, acossado pela fã Annie (Laurie Metcalf) em

Bruce Willis vive o escritor Paul Sheldon, acossado pela fã Annie (Laurie Metcalf) em “Misery”, que estreia dia 15 de novembro na Broadway: blockbuster teatral à vista

Embora tenha perdido a chance de repaginar sua carreira cinematográfica ao ficar de fora do novo longa-metragem de Woody Allen, Bruce Willis voltou a ser o centro das atenções da indústria cultural dos EUA só que em outro terreno: o teatro. De 15 de novembro a 14 de fevereiro, ele mobiliza o palco do Broadhurst Theatre, na Broadway, ao lado de Laurie Metcalf, numa encenação de Misery, versão teatral do romance de Stephen King já filmado nos anos 1990 e exibido em nossas telas com o título Louca Obsessão. Foi o filme pelo qual Kathy Bates ganhou seu merecido Oscar de melhor atriz. É a história da fã obcecada, Annie Wilkes, que detém um escritor trancado em sua casa a fim de obrigá-lo a escrever mais um tomo da saga de sua personagem favorita, Misery Chastain, sem a qual ela não pode viver. Em horas de agonia, com a perna quebrada, o autor Paul Sheldon não vê outra alternativa se não embarcar na manipulação de sua torturadora e preencher todos as lacunas afetivas que ela impõe. Willis já fizera teatro no passado, tendo chamado a atenção dos olheiros por seu desempenho em Loucos de Amor, de Sam Shepard, e por seu trabalho como gaiteiro em shows de blues. Mas agora é uma imersão profissional na Meca das artes cênicas, para provar que ainda pode tirar o ferrugem de seu ferramental dramático.

No cinema, ele não acerta faz tempo, estando em cartaz em circuito americano atualmente como coadjuvante de luxo para Bill Murray no fracassado Rock the Kasbah, de Barry “Rain Man” Levinson, um diretor que morreu esteticamente e não foi avisado disso.  Willis ainda está associado ao filme chinês de guerra The Bombing, de Feng Xiao, e ao thriller de ação Marauders, ao lado de Christopher Meloni. Resta a ele ainda algum grau de envolvimento em Die Hard: Year One, sobre a juventude de John McClane, seu herói na franquia Duro de Matar. Vale lembrar que Misery anda tendo exibições de teste no Broadhurst, desde 22 de outubro, e está esgotando ingressos noite a noite. A adaptação da prosa de King é assinada pelo mítico William Goldman.

Falando em Willis, atenção: o TCM exibe Corpo Fechado (2000) com ele nesta sexta (dia 6). Perde não.

E mais…

Já que a conversa é teatro, o mezanino do Espaço Sesc, em Copcabana, no Rio, foi tomado por uma narrativa de timbres experimentais, de título inspirado em Macbeth, mas com um vocabulário pós-moderno e videástico, que lembra mais a literatura de Jorge Luis Borges do que Shakespeare: A Floresta Que Anda. Cristiane Jatahy dispõe num ambiente uma série de telonas com imagens documentais relacionadas à exclusão social, rodadas em São Paulo, no RJ e em Brasília, com ecos da onda de manifestações de 2013 e do sumiço de Amarildo e do infortúnio de imigrantes. A captação de imagens e sobretudo de sons é de um primor técnico invejável, mas esse rigor é mero detalhe frente ao desequilíbrio sensorial que elas hão de causar quando combinadas a uma encenação protagonizada por Julia Bernat no auge do desatino (consciente e vigoroso).

Uma das melhores atrizes de sua geração, Julia Bernat vai às raias do desespero em

Uma das melhores atrizes de sua geração, Julia Bernat vai às raias do desespero em “A Floresta Que Ana”, peça de Christiane Jatahy, em cartaz no Espaço Sesc

Cenas da vida real compõem uma colcha de retalhos com a encenação do desespero de uma jovem frente ao vazio existencial que sofre diante do impasse econômico à sua volta. Uma festa burguesa – encenada com uma mesa, água, vinho branco, cerveja e um peixe eviscerado – é o ambiente onde a personagem se dá conta de que a vida é cheia de som e de fúria, sendo que esses sons por vezes são silenciosos quando gritados da garganta da periferia. Figura e fundo, vídeos e atriz, dão as mãos num trançado borgiano, que evoca o conto O Jardim das Veredas que se Bifurcam, escrito pelo argentino em 1941: a profusão de signos, do real e da invenção, do cinema e do teatro, forma uma biblioteca de sensações sem fim, cada uma com tônus para conduzir o espectador a uma interpretação sobre o Brasil à sua volta. Um sem número de interpretações sendo quase todas desesperançadas.

p.s.: Num ano marcado por filmes B de tintas autorais, vide Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller (o melhor longa-metragem do ano), e Homem-Formiga, de Peyton Redd, a safra de produções capazes de usar a artesania e a (auto)ironia como argamassa ganha mais e melhores músculos com O Último Caçador de Bruxas, com Vin Diesel. Embora esnobada nas bilheterias americanas, a produção pilotada por Breck Eisner (Sahara), cuja arrecadação global beira US$ 57 milhões,  dialoga com a tradição dos grandes filmes de ação dos anos 1980 e 90 (a destacar O Grande Anjo Negro, com Dolph Lundgren) e preserva essa linhagem com frescor, em seu mergulho nas águas do sobrenatural. As sequências de luta são primorosas.

p.s. 2: Lembrando que o mestre da dublagem Orlando Drummond acaba de comorar 96 primaveras, vale ficar de ouvidos ligados em um de seus melhores trabalhos: Alf, o ETeimoso está na grade do TCM de segunda a sexta, às 21h30m.

p.s.3: Anota aí na agenda: No dia 17 de novembro, a Caixa Cultural, no Centro do Rio de Janeiro, inaugura a mostra O Maior Ator do Brasil – 100 Anos de Grande Othelo. E, na estreia, será exibido – com a boa quilometragem da tela grande – um clássico do astro: Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos. A seleção junta ainda os imperdíveis O Rei do Baralho (1974), Sebastião Prata ou, Bem Dizendo, Grande Otelo (1971) e Os Três Cangaceiros (1961), além do raro drama gauchesco O Negrinho do Pastoreio (1973).

p.s.4: A EagleMoss Collections está desengavetando em formato graphic novel de capa dura alguns cults recentes da DC Comics e, de cara, despejou nas bancas, em duas partes, Silêncio, cuja arte é assinada por Jim Lee.

p.s.5: Chega ao fim nesta quarta-feira (dia 4) a 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e, em sua reta final, o evento reserva pepitas douradas de realizadores de gerações distintas. Nesta terça (dia 3 de novembro), o Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca exibe, às 17h10m, Os Campos Voltarão, no qual o octogenário Ermanno Olmi dá sua visão para a I Guerra Mundial. A produção retrata uma noite sangrenta na qual um pelotão maltrapilho tenta sobreviver a um combate usando as entranhas de uma montanha como trincheira. No mesmo dia 3 e no mesmo Espaço Frei Caneca, só que às 19h50m, será exibido Montanha, de João Salaviza, sensação do Festival de Veneza, representante de Portugal. Nele, um adolescente se prepara para assumir o papel de homem da casa frente à iminente morte de seu avô. Por fim, para falar de filmes nacionais, merecem destaque Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Marchado, e Estive em Lisboa e Lembrei de Você, um mergulho do português radicado no RJ José Barahona na literatura do mineiro Luiz Ruffato, construindo um vocabulário centauro (meio doc., meio ficção) para narrar a jornada de um homem (em atuação irretocável de Paulo Azevedo) de Cataguases à capital lusa.

 

 

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