‘Brotherhood’, belo filme de fantasmas políticos

‘Brotherhood’, belo filme de fantasmas políticos

Rodrigo Fonseca

15 de agosto de 2021 | 11h43

Jabir, Usama e Useir diante da sombra religiosa que movimenta “Brotherhood”

Rodrigo Fonseca
Formado em direção de documentários pela prestigiosa escola tcheca FAMU, em Praga, Francesco Montagner, uma das promessas da Itália nas telas, saiu do 74º Festival de Locarno, no sábado, com o prêmio principal da mostra Cineasti Del Presenti por uma experiência nas franjas mais ásperas do realismo: “Brotherhood”. A láurea foi dada por sua habilidade de equilibrar registro e fabulação ao testemunhar a vida de três irmãos nascidos na Bósnia: Jabir, Usama e Useir. Os três fazem lembrar o Antoine Doinel de “Os Incompreendidos” (1959), pedra fundamental da obra truffautiana e um dos tijolos inaugurais da Nouvelle Vague (ao lado de “La Pointe-Courte” de Agnès Varda). Mas, no cult moderno de Truffaut, Doinel não trombava com resíduos de guerras, ao contrário do que se passa com os jovens de Montagner. O pai deles, Ibrahim, é um iracundo pregador do Islã, que cria o trio sob a sombra espessa de demandas religiosas. Mas, um dia, filmado pelo cineasta, eles se deparam com a condenação de Ibrahim a dois anos de prisão, por terrorismo. É aí que vários laços serão desatados… e alguns, apertados.
“Era importante que os três encenassem a própria história guiados por sentimentos e, não, por fatos, de modo que eu não produzisse uma reportagem e, sim, uma história de afetos que se expressasse contra os laços opressivos do machismo, das conexões masculinas mais clássicas”, disse Montagner ao Estadão, em Locarno, pouco antes da premiação, que consagrou o filme brasileiro “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, com o prêmio de melhor curta-metragem.

Francesco Montagner

Laureado na mostra Veneza Classici, em 2014, por “Animata Resistenza”, um .doc sobre a vida e os filmes do animador Simone Massi, Montagner lembra de ter rodado cerca de cem horas de conversas e interações entre Jabir, Usama e Useir, antes de montar “Brotherhood”. “Segui um estilo de filmagem em que trocava o foco da câmera, em meio às conversas, para mudar o ponto de vista do discurso. A presença da câmera não os inibia”, diz o cineasta, explicando que seu longa é uma espécie de “filme de fantasma”. “A presença de Ibrahim, mesmo ausente, era uma fantasmagoria sobre eles, sobretudo pelo fato de Usama, o filho do meio, sentir uma certa rejeição paterna, esforçando-se para ser um espelho do pai. Cada um daqueles jovens tem um destino distinto, mas eles são abarcados por ideias patriarcais”.
Parte de um cinema que nos deu Fellini, Antonioni, Pasolini, De Sica e Lina Wertmüller, Montagner não tem só o neorrealismo como influência, tendo sido surpreendido por filmes brasileiros que viu em sua formação. “Além de Glauber Rocha, foi tocado por ‘A Grande Cidade’, ‘Pixote’ e ‘Bye Bye Brasil’. Aprendi com esses filmes a retratar a realidade de maneira universal”, explica Montagner. “Na Itália, os grandes diretores do cinema político, como Elio Petri, Francesco Rosi e os irmãos Taviani, foram fundamentais pra mim”.
Estima-se que “Brotherhood” esteja na Mostra de São Paulo.

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