‘Brooklyn’: aconchego na ‘Sessão da Tarde’

‘Brooklyn’: aconchego na ‘Sessão da Tarde’

Rodrigo Fonseca

20 de abril de 2021 | 12h17

Rodrigo Fonseca
Tem um filme com a doçura do mel agendado pra esta “Sessão da Tarde”: “Brooklyn: Um Amor Sem Fronteiras” (2015). A projeção começa às 15h, com um impecável trabalho de Rebeca Zadra dublando Saoirse Ronan. Orçada em US$ 11 milhões, a produção arrecadou US$ 62 milhões nas bilheterias e conquistou 38 prêmios, a partir de sua estreia mundial, no Festival de Sundance, em Park City, Utah, nos EUA. Inclua aí três indicações ao Oscar, entre elas a de melhor roteiro adaptado, dado ao escritor Nick Hornby.
Sua protagonista nos fisga pelo olhar. De um azulão quase celestial, embora marejado pela evasão de sua Irlanda natal, os olhos da jovem Eilis se locomovem numa aeróbica capaz de desafiar todas as leis da física ao receber uma notícia ruim que deve permanecer em segredo nesta nossa conversa, para não adiantar nada da trama roteirizada por Hornby. Basta você saber que a maneira como Saoirse Ronan traduz a desestabilização de Eilis nesta cena do longa-metragem é o bastante para ilustrar o quanto a atriz nova-iorquina amadureceu de “Desejo e Reparação” (2007) para cá. Dirigido por John Crowley (de “Circuito Fechado”), essa love story é decalcada do romance homônimo de Colm Tóibín. Sua soluçante trama analisa o amadurecimento do coração de Eilis, vendedora que sai da Irlanda para tentar a sorte em solo americano. Não há ponderações sobre as formas de exclusão na América, não se discute a Guerra Fria que congela o planeta na época em questão e, tampouco, encontram-se viradas morais ou experimentações de linguagem. É cinema clássico-narrativo, de começo, meio e fim bem demarcados com offs apenas para tracejar a leituras de cartas. É um novelão de 1h50m, sobre pessoas emocionalmente zeradas que amam, confundem-se, perdem-se e tentam… Mel e agrião. Receita boa para a gripe do esnobismo que anda a desprezar a eficiência em prol de uma pirotecnia por vezes oca. É geografia do carinho e do cuidado.

Tudo flui à base da visceralidade de Saoirse, do carisma de Emory Cohen (no papel de Tony, bombeiro hidráulico italiano por quem Eilis se apaixona) e do ultrarromantismo de Domhnall Gleeson, na pele do irlandês que bagunçará o miocárdio da mocinha. Nada mais. E já é muito, graças a economia franciscana da pena de Hornby e da direção de Crowley. Seu filme tem uma doçura que evoca o John Ford de “Como Era Verde o Meu Vale” (1941) e “Depois do Vendaval” (1952). É um filme que nos enleva, que cuida, que cura feridas.

p.s.: Nesta quinta-feira começa no site www.10olhares.com, com projeção simultânea na plataforma do BELAS ARTES À LA CARTE a mostra CINEMA BRASILEIRO: ANOS 2010, 10 OLHARES, que vai de 22 a 30 de abril, totalmente gratuita. Serão exibidos, ao todo, 75 filmes (43 longas e 28 curtas), vitaminados por dez debates. Integram a seleção pérolas como “Um filme de dança”, de Carmen Luz; “A Batalha do Passinho”, de Emilio Domingos; “Kbela”, de Yasmin Thayná; “Café com canela”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra; “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares; “Yãmîyhex: As Mulheres-Espírito”, de Sueli Maxakali e Isael Maxakalie; e “Esse Amor Que Nos Consome”, de Allan Ribeiro e Douglas Soares.

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