‘Brimas’ é uma lufada de afeto no debate do multiculturalismo

‘Brimas’ é uma lufada de afeto no debate do multiculturalismo

Rodrigo Fonseca

25 de junho de 2017 | 13h09

Beth Zalcman e Simone Kalil em “Brimas”: dupla em estado de graça até 30 de julho no palco do Cândido Mendes 

RODRIGO FONSECA
Memória é mais do que patrimônio e afirmação de identidade: memória é descarrego para os descaminhos da intolerância, como aponta, com especiarias do riso, a peça Brimas, em cartaz até 30 de julho, no Teatro Cândido Mendes, no Rio, às vésperas de sua (merecida) temporada por São Paulo, para agitar a flâmula do congraçamento por lá. Tem duas atrizes em estado de graça em cena: Beth Zalcman e Simone Kalil. Foi das avós de ambas que veio o balde de causos cerzidos na dramaturgia. Uma dramaturgia de sabores e prantos, falada no esperanto da resistência, centrada nos papos entre a judia Ester, vinda do Egito, e a libanesa católica Marion. As duas cozinham quibes a serem servidos num velório. E a lida da comida é alimento para a troca de saberes e de recordações entre as duas, o que permite uma exegese do multiculturalismo. Este é um exercício que anda pontuando de autoralidade a obra do diretor (sempre inspirado e delicado na medida das palavras e dos silêncios) Luiz Antônio Rocha. Seu Uma Loura na Lua e seu Frida Kahlo, A Deusa Tehuana já eram assim, quase etnográficos, ao falarem sobre transcendências entre Cultura e Arte. Mas aqui há um equilíbrio de forças ainda maior entre os palcos da Cena e da Vida. Um equilíbrio mais vigoroso como abertura de espaço para o entendimento dos senões, dos engasgos, dos peitos encatarrados de ódio. Só que o za’atar usado aqui, que dá gostinho de encantamento à encenação, é o da serenidade, um substantivo que rege as peças de Rocha em sua contemplação para as nossas imperfeições cotidianas.

Tem hoje, às 20h, no Cândido, e o prazer é garantido, com duas interpretações recheadas de inquietação. E fica de olho que esta peça vai pro cinema já já.

 

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