‘Brilho eterno de uma’ saudade

‘Brilho eterno de uma’ saudade

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2020 | 18h35

Rodrigo Fonseca
Saltitante entre as mesas de emissoras de TV e de streaming, o projeto de uma série baseada no sol “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças” (2004) parece a um passo de arrancar. Voltando, vai retomar os corações em cacos da serelepe Clementine Kruczynski e do cartesiano Joel Barrish, tendo Montauk como plataforma de um “vou de volta” de quereres que vaporizaram por um tempo de desalento, até ficarem sólidos de novo… ou líquidos como suor. Fala-se de Amazon, casa na qual o diretor do perfurante longa-metragem, o francês Michel Gondry, erigiu há dois anos o seriado “Kidding”. Curiosamente Gondry e Charlie Kaufman, os dois criadores do filme – laureado com o Oscar de melhor roteiro original, compartilhado ainda com Pierre Bismuth – deverão flanar pelas bandas do 70º Festival de Berlim a partir da semana que vem. Cotado como potencial concorrente à Palma de Ouro de Cannes, em maio, “I’m Thinking of Ending Things”, um thriller psicológico (com má fama prévia de não fazer lé com cré) dirigido por Kaufman, vai encontrar no European Film Market, da Berlinale nº70 (que arranca dia 20 de fevereiro e termina dia 1º de março), um espaço para promoção de seu realizador. Lá também haverá a promoção de uma nova videoinstalação de Gondry. Ele e Kaufman seguiram trilhas bem opostas, sendo o primeiro o mais produtivo. Mas, apesar das diferenças, eles azeitaram suas estéticas em “Eternal Sunshine Of The Spotless Mind”, projeto que repaginou o talento dramático de Jim Carrey (Barrish) e deram a Kate Winslet seu segundo maior papel depois da Rose de “Titanic” (1997).

Batizada a partir de um trecho da epístola “De Heloísa para Abelardo”, escrito em 1717 por Alexandre Pope (1688-1744), a produção pilotada por MG custou 20 milhões, faturou US$ 74 milhões e transformou a canção “Everybody’s Gotta Learn Sometime”, do Beck, num ícone do cancioneiro corta-pulso dos anos 2000. Nem Belle and Sebastian fizeram melhor. Nova York foi a locação central, o que já é um mimo para o olhar, além de Nova Jersey, ambas fotografadas em cores não saturadas por Ellen Kuras. Matéria-prima mais usada e abusada do cinema contemporâneo, a Memória, assim M maiúsculo de medo, é a carne e o osso de um sci-fi com cheiro de ontem e gosto de “bora curtir?”, na desinência de um futuro com um pé na fantasia e outro nas contas a pagar, nas janelas que se quebram, nas sapatilhas que furam no compasso do balé. Barrish é um desenhista com o peito devastado pelo egoísmo alheio. Clementine é uma estrelinha de cabelo azul. Ela parece livre; ele, casmurro no cadafalso para a autodepreciação. Olham-se, impressionam-se, tentam(-se), sem saber que é tudo segunda vez. Ela, cansada do krav maga da rotina a dois, procurou a Lacuna Inc., empresa especializada em zerar toda a recordação que temos de quem nos cansa. Ela apaga Joel, sem se importar com qualquer efeito colateral da parceria desfeita. Ele, magoado ao saber que foi deletado da cabecinha cheia de caraminholas dela, busca o mesmo tratamento, com o inventor do cacareco que apaga vivências, Dr. Howard Mierzwiak (papel do monumental Tom Wilkinson). Mas como o miocárdio é um músculo que distende em dupla, no beijo da fricção com o vetor da aceleração, o apagamento dele sai errado. Seu inconsciente quer preservar Clementine, pois a arte de gostar exige saber olhar, saber ouvir, saber esperar zanga passar, tomar pílulas de risco e gozar de mãos dadas. E, nisso, o acaso é rei. Dizem que acaso é o pseudônimo que Deus usa quando não quer levar crédito por seus acertos. Mas o crédito aqui é de Gondry, que arriscou ao apostar na ousadia… e em dois atores que se olham na matemática da troca. “Meet me in Montauk”, diz-se em cena, na referência de uma geografia, numa penha que une (ou reúne) tentativas, com ou sem erros, aberta ao acerto. Filme pra ensinar que abraço é abrigo e que Cupido é moleque teimoso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: