‘Bright’: Filme de autor, e dos bons

‘Bright’: Filme de autor, e dos bons

Rodrigo Fonseca

26 Dezembro 2017 | 14h03

Os tiras Ward (Will Smith) e Jakoby (Joel Edgerton) tentam proteger uma varinha de condão das mãos erradas em “Bright”: um dos melhores produtos audiovisuais feitos pela NetFlix

Rodrigo Fonseca
É inevitável pensar em John Carpenter ao longo dos 117 febris minutos de Bright, “a” aposta da NetFlix para o fim de um ano em que a produção audiovisual foi dominada pela porção mais sombria da metafísica: a fantasia de horror. Já nas sequências iniciais, nas quais orcs e fadas circundam guetos de Los Angeles que mais parecem saídos de Faça a Coisa Certa (1989) ou de qualquer outro trabalho de Spike Lee mais inflamado, a sensação é de estarmos diante de Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), “filme santo” para os que lidam mal com o fantástico, mas que cultuam a autoria. Dos anos 2000 para cá, sempre que um cineasta aposta numa estética de tensão apoiada mais na artesania – pesquisa narrativa baseada no casamento entre a incerteza da tentativa e o empenho na busca pela precisão – do que na engenharia de efeitos especiais, o legado de Carpenter se afirmar como potência e como ato cinematográfico. Sente-se isso em experimentos radicalmente distintos como O Som ao Redor (2012), Os Oito Odiados (2015) e agora neste thriller carpenteriano que, apesar da influência (seja ela consciente ou não) deixa espaço para a identidade autoral de seu realizador aflorar: o subestimado David Ayer. Vamos combinar que neste torvelinho de esforços para fazer os filmes de super-herói parecerem chanchadas (vide o bisonho Thor: Ragnarok), toda a sujeirada (ética e estética) em torno de Esquadrão Suicida (2016) teve seu paladar realçado. E o mérito é de Ayer.

De 2005, quando saiu do posto de roteirista para a cadeira de diretor, para cá, este realizador americano, nascido em Illinois há 49 anos, imprimiu uma marca própria em Hollywood ao redor dos sete longas-metragens que dirigiu, similares sobretudo na aparência e na linha de storytelling taquicárdica. Seu interesse, desde Tempos de Violência (2005), com Christian Bale, é por “gentinha”: bandidinhos de beira de calçada, PMs sem graduação no distintivo, supervilões de segunda. E todos os longas que roda têm uma geografia sub-urbana, voltada para os inchaços populacionais nas zonas de exclusão. Marcados para Morrer (2012), no qual ele misturava elementos documentais (na câmera e no enquadramento dionisíaco) à ficção, é ainda seu cult e sua obra-prima. Mas Bright se aproveita do que ele criou ali no que diz respeito à investigação territorial e à afirmação dos estados sociais de exceção produzidos pela falência do estado. Só que tudo isso ganha a telinha da NetFlix salpicado por doses fartas de pó de pirlimpimpim, valorizando os dotes dramáticos de Will Smith como há muito não se via. Logo ele, sujeito que, nos anos 1990, contribuiu, ao lado de Jackie Chan, para a chanchadização dos filmes de ação.

Escrito por Max Landis (roteirista filho do mítico cineasta ploc John Landis, de Um Lobisomem Americano em Londres), Bright é um achado histórico em termos da afinação de uma trama de gênero com as patologias sociais e antropológicas que cercam o contemporâneo, assumindo o racismo como tema central de debate. Seus heróis são multirraciais: um negro (Smith, perfeito) e um orc (Joel Edgerton, afinado como sempre). O descaso com a raça orc, numa Los Angeles embalada a hip hop e a sotaques latinos, é uma metáfora para a brutalidade racial contra os negros e os mexicanos. Pra ficar ainda mais contemporâneo, a vilã é uma mulher empoderada (Leilah, interpretada por Noomi Rapace) e temos um latino engravatado (Edgar Ramirez) interpretando um elfo, a casta mais rica do mundo de faz-de-conta criado por Landis e Ayer.

Edgar Ramírez, o elfo de elite

Dublado no Brasil por Márcio Simões, com a eficácia habitual, Smith é Daryll Ward, tira falido, endividado e em recuperação após um tiro de .12, obrigado a patrulhar as ruas de L.A. ao lado de um policial orc, Jakoby (Edgerton), a quem meio mundo odeia, e de graça. Fala-se de preconceito a cada cena, mesmo quando a intriga é exposta: uma jovem, Tikka (Lucy Fry), portadora de um item mágico (uma varinha de condão, fetiche capaz de dar poderes absolutos a quem empunhá-la), passa a ser perseguida por todo o submundo. Leilah, irmã da moça, é uma adoradora do Senhor das Trevas (uma entidade nunca mostrada, mas cultuada), que precisa da varinha para trazer esse Demônio ao nosso mundo. Mas nem Jakoby nem Ward deixaram isso acontecer. Porém, como se viu em Os Aventureiros… de Carpenter, magia não é pra qualquer herói. Sobretudo um herói de botequim, acossado pela corrupção e por contas a pagar como Ward.

A partir dele, Ayer se aproveita da tendência pós-moderna dos difficult men (heróis masculinos fraturados) e sublinha as feridas internas de seus protagonistas, a fim de endurecê-los para o combate, ao mesmo tempo em que sua seus arquétipos como uma translúcida membrana de representação, espelhando as doenças de nosso mundo. Há, na forma, esmero de qualidade singular na fotografia e na acomodação dos efeitos especiais. É um NetFlix menos verborrágico e mais cinemático, com litros de adrenalina servindo de colírio aos nossos olhos confusos diante de retratos coxos da violência.