Brian De Palma sci-fi como presente de Natal

Brian De Palma sci-fi como presente de Natal

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2020 | 12h01

Rodrigo Fonseca
Para esquentar corações cinéfilos nesta antevéspera de Natal, a TV Globo traz um Brian De Palma gourmet dos mais saborosos. À 1h20, logo após o “Vai Que Cola”, a emissora carioca exibe “MISSÃO MARTE” (2000), em uma preciosa versão dublada. Vale madrugar. E vale cobrar dos streamings um espaço para o longa-metragem mais recente da grife De Palma: “Dominó” (2019), com Nikolaj Coster-Waldau no papel de um policial em busca de vingança.
No espaço, segundo são Ridley Scott, ninguém vai ouvir você gritar… a menos que você seja Brian De Palma e tenha, como ele, uma percepção acurada para a tensão alheia, capaz de transformar algo supostamente delineado para ser um afetivo épico de conquista territorial, à la John Ford, numa aula de sinestesia sobre o assombro do desconhecido, como é “Missão Marte” (2000). Atração do “Corujão 1” desta madrugada, “Mission to Mars”, uma produção de US$ 100 milhões que, embora tenha naufragado fragorosamente nas bilheterias, ao fechar as contas em US$ 110 milhões, virou um cult. É cultuado como são todas as grandes expressões autorais do senhor De Palma, que viu seu “Dominó” ficar empacado nas salas de projeção. Em seu lançamento, essa sci-fi do diretor de “Vestida para Matar” (1980) foi acusada de plagiar “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968) e de copiar Stanley Kubrick (1928-1999), o que não procede, mas evoca a patrulha contra a habilidade (notável) de BDP para parafrasear grandes mestres, como Hitchcock. Ao decalcar titãs do passado, ele criou uma estética particularíssima, que se pauta pelo risco, que se afoga no suspense e que influenciou de François Ozon a Tarantino. E vale lembrar que esse artesão do susto completa 80 anos em 2020, curiosamente a data em que se passa sua crônica marciana.

Presentaço natalino, “Missão Marte” tem trilha sonora do maestro Ennio Morricone, que nos deixou no dia 6 de julho. Na trama, a aeronave Marte I encontra sinais de que há formação de água no solo do planeta vermelho, mas seu comandante, Luka Graham (Don Cheadle, dublado com solenidade por Mário Jorge), fica preso no local por conta de um pulso eletromagnético. Não resta outra alternativa à NASA que não seja enviar um time para resgatar Luke. Este é capitaneado pelo casal Terri Fisher (a ótima Connie Nielsen, na voz de Mônica Rossi) e Woody Blake (Tim Robbins, em uma de suas mais carismáticas interpretações, aqui referendadas na dublagem de Márcio Simões). Com eles vão o técnico Phil (o bamba da TV Jerry O’Connell, da série oitentista “Herói Por Acaso”) e um experiente astronauta com status de herói: Jim McConnell, personagem que De Palma confiou a Gary Sinise, seu colega em “Olhos de Serpente” (1998). McConnell está se recuperando da perda recente de sua mulher, sendo estimulado pelos colegas a enfrentar o luto. Mas na rota para Marte, rol de desafios que ele e seus companheiros de jornada encararão vão além de raios cósmicos, num indício de forças metafísicas…. quiçá de vida inteligente… regem aquele ambiente estelar. E essa regência evoca “Solaris” (1972), com muito mais de Tarkovsky do que de Kubrick. E com muito mais do puro De Palma do que desses dois outros faróis.

Indicado ao Oscar por “Hoffa” (1992), Stephen H. Burum assina a fotografia de “Missão Marte” sem apostar na saturação. A sequência mais apoteótica de seu trabalho é a dança de Terri e Woody ao som de Van Halen em “Dance The Night Away”.

Gary Sinise protagoniza este “No Tempo das Diligências” espacial

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, Brian Russell De Palma, um estudante de Física, estreou como realizador em 1960, ao rodar o curta-metragem “Icarus”. Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 35 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção “Dancing in the dark”. Na seara dos longas-metragens, contabiliza 31 produções, rodadas entre 1968, quando debutou no formato com “Murder à La mod”, e 2019, quando “Dominó” entrou em cartaz em Israel e na Hungria, tendo ainda mais uma fila de países já engatilhados em seu rol de estreias. Avaliando-se tudo de bom que o diretor assinou, “Dublê de corpo” (1984), “Scarface” (1983) e “Carrie, a estranha” (1976) são considerados obras-primas em sua carreira, cujos maiores êxitos comerciais foram projetos de “encomenda”. Seus blockbusters: “Os Intocáveis” (1987), cujo faturamento beirou US$ 76,2 milhões, e “Missão: Impossível” (2006), que registrou uma arrecadação mundial de US$ 456,7 milhões. Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Em 2007, quando lançou “Guerra sem cortes”, usando elementos da linguagem digital retirados do YouTube, o cineasta declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência de sua gramática esses elementos complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”.

Além do já citado “Dominó”, dois outros longas rodados por De Palma nos anos 2000/2010 permanecem inéditos aqui. Exibido no Festival de Rio de 2008, “Guerra sem cortes” (“Redacted”), um libelo contra a intervenção militar de Bush no Iraque, jamais foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros. O mesmo pode se dizer do suspense “Passion”, que concorreu ao Leão de Ouro de Veneza em 2012, mas até hoje permanece inédito por aqui.

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