Brian De Palma joga dominó com a liturgia do terror

Brian De Palma joga dominó com a liturgia do terror

Rodrigo Fonseca

07 de junho de 2019 | 12h56

O ótimo Eriq Ebouaney vive Ezra, um suposto soldado do Islã que imobiliza um inimigo em “Dominó”, thriller da grife De Palma

Rodrigo Fonseca
Leva tempo para se digerir as especiarias de paladar quase antiético com as quais a fé islâmica é retratada em “Domino” (por aqui “Dominó), thriller de acidentados bastidores que marca a volta de Brian De Palma às telas: mas essa demora é compensada por um debate de requinte filosófico. Produção europeia de delicadíssimas soluções morais em sua dramaturgia, esta produção de US$ 7,8 milhões que quase não foi finalizada por calotes de seus financiadores e conflitos entre seus executivos, alcança um enlevo arrebatador quando, enfim, revela seus objetivos estéticos. Disfarçado de ficção policial, de trama de vingança, o longa-metragem mais recente do artesão responsável por “Vestida para matar” (1980) e outras joias desenha seu ethos fora das artimanhas das cartilhas de gênero: seu propósito é discutir o espetáculo do terror. A espetacularização do fundamentalismo. O P de Pop roga para que o filme tenha lugar em nossas salas de exibição: todos ganharão com isso, dado a potência reflexiva que sua verve de provocação pode gerar. E há nele uma longa esquecer (capaz embevecer) de uma tourada na Espanha que revela todo o vigor que o realizador de 78 anos ainda esbanja, prestes a somar 60 anos de cinema em seu admirado currículo. Pena que o cinemão esnobou De Palma.

Lançado na Europa em 30 de maio, esta produção escandinava, com o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau (de “Game of thrones”), não disfarça o quão lambona é. Começa mal feita, tem concisões de roteiro em sua edição que atropelam a compreensão, explora mal seu astro e dá um nó na noção de protagonismo. Mas, pouco a pouco, De Palma se apodera de seu material dramatúrgico. Nele, Nikolaj é Christian, um policial da Dinamarca que corre atrás do assassino de seu parceiro. Quem mata o tira é Erza, papel do ótimo Eriq Ebouaney, um suposto soldado do Islã. Christian quer prendê-lo. Sua colega de polícia, Alex (Carice van Houten), parece querer o mesmo. Mas aí aparece um agente da CIA (vivido por Guy Pearce, com sua ironia habitual) e aparecem indícios de que Erza é manipulado por uma célula terrorista. Aí, com tudo isso na mão, De Palma deixa as exigências do cinema narrativo de lado e faz seus balés de câmera. Mais importante do que saber quem mandou matar, quem matou ou a razão da morte é entender (ou questionar) o fascínio do fetiche imagético do terrorismo. O que se ganha com a dramaturgia do medo? E medo é a matéria Que deu a De Palma seu prestígio (por vezes arranhado por sua alardeada prepotência ou por incongruências com o mercado).

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, Brian Russell De Palma, um estudante de Física, estreou como realizador em 1960, ao rodar o curta-metragem “Icarus”. Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 35 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção “Dancing in the dark”. Na seara dos longas-metragens, contabiliza 31 produções, rodadas entre 1968, quando debutou no formato com “Murder à La mod”, e 2019, quando “Domino” entrou em cartaz em Israel e na Hungria, tendo ainda mais uma fila de países já engatilhados em seu rol de estreias. Avaliando-se tudo de bom que o diretor assinou, “Dublê de corpo” (1984), “Scarface” (1983) e “Carrie, a estranha” (1976) são considerados obras-primas em sua carreira, cujos maiores êxitos comerciais foram projetos de “encomenda”. Seus blockbusters: “Os intocáveis” (1987), cujo faturamento beirou US$ 76,2 milhões, e “Missão: Impossível” (2006), que registrou uma arrecadação mundial de US$ 456,7 milhões.

Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Em 2007, quando lançou “Guerra sem cortes”, usando elementos da linguagem digital retirados do YouTube, o cineasta declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência de sua gramática esses elementos complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”.

Nikolaj Coster-Waldau é Christian, um policial em busca de vingança em “Dominó”

Dois longas rodados por De Palma permanecem inéditos aqui. Exibido no Festival de Rio de 2008, “Guerra sem cortes”, um libelo contra a intervenção militar de Bush no Iraque, jamais foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros. O mesmo pode se dizer do suspense “Passion”, que concorreu ao Leão de Ouro de Veneza em 2012, mas até hoje permanece inédito por aqui.

p.s.: Outro filmaço brasileiro que fez barulho no exterior vai chegar ao circuito em junho: o doído “Deslembro”, de Flavia Castro, laureado com o Prêmio da Crítica (dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci) no Festival do Rio 2018. Suas atuações comovem. Apresentada ao cinema pelo saudoso Domingos Oliveira, a atriz Sara Antunes vai às raias da angústia no papel de uma militante política brasileira, radicada em Paris, que resolve voltar ao Brasil, no início dos anos 1980, de carona na Abertura. Mas sua filha adolescente quer saber melhor o que vai encontrar lá e o que fez sua mãe sair. Heloisa Passos assina a belíssima fotografia deste drama sobre veias abertas da América Latina.

 

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