Bressane leva Capitu a Tiradentes

Bressane leva Capitu a Tiradentes

Rodrigo Fonseca

23 de janeiro de 2022 | 10h29

Mariana Ximenes tem uma atuação memorável como a Capitu de Bressane

RODRIGO FONSECA
Roterdã – que inugura sua edição n. 51 nesta quarta com “Please Baby Please”, de Amanda Kramer – abriu telas em 2021 para um trabalho com status de obra-prirma de um mestre de nossas telas, Júlio Bressane: “Capitu e o Capítulo”. Laureado com o prêmio de melhor filme e direção no 16. Fest ARUANDA, o longa integra a celebração dos 25 anos da Mostra de Tiradentes, iniciada na sexta.

Com 56 anos de estrada na direção, iniciados em 1966, com “Lima Barreto – Trajetória” e “Bethânia Bem de Perto – A Propósito de um Show”, e prestigiados em passagens por Cannes, Locarno e Veneza, o carioca Júlio Eduardo Bressane de Azevedo já rondou a obra de Machado de Assis (1839-1908) em cults como “Brás Cubas” (1985) e “A Erva do Rato” (2008), mesclando semiótica e filosofia existencial no estudo de uma prosa que, segundo o diretor, “germinou a língua portuguesa”. Mas há um novo deslizamento da estética machadiana para a cordilheira de símbolos que forma a narrativa bressanista, egresso de uma elogiosa excursão europeia por Roterdã, com passagens por ARUANDA e pelo Festival do Rio. “Capitu e o Capítulo” é uma divertida desconstrução das formas de representar Machado. É, de longe, o filme de visual mais arrebatador do cineasta na última década – e periga ser seu trabalho de mais visibilidade desde “Cleópatra” (2007).
“Eu tentei perceber uma distorção do texto de ‘Dom Casmurro’ no próprio texto. Uma vez, na casa do poeta Haroldo de Campos, conversando sobre a história de Bentinho, ele me falou: ‘O importante desse livro não é a Capitu. O importante é o capítulo’. Só a beleza do que disse, quase um poema concreto com as palavras ‘Capitu’ e ‘capítulo’, já me atraiu, mas não pude compreender a extensão daquela reflexão. Mas, passaram-se os anos, e eu, ao estudar a obra de (Marcel) Proust, deparei-me com um estudo de Jean Milly. Chamava-se ‘La Phrase de Proust’ e, nele, MIlly diz que existem poucos fraseados longos na literatura do escritor de ‘Em Busca do Tempo Perdido’. Ele atribuiu as poucas frases longas que encontrou à asma. Há uma analogia aí, pois escrever é respirar. Isso me levou a repensar o que Harold o me disse. Em sua culminância como escritor, que compreende ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, ‘Dom Casmurro’, ‘Quincas Borba’ e ‘Isaú e Jacó’, há um surto de capítulos. Capítulos existem como um tipo de interrupção. Eu me aproximei dessa interrupção e percebi que ela pode ser um sinal artístico da epilepsia de Machado. Daí distorcer essa história, para entender a coisa indizível por traz de cada interrupção”, disse Bressane ao P de Pop.

Apoiado na requintada fotografia de Lucas Barbi, “Capitu e o Capítulo” raro usa os nomes do romance com que dialoga para nomear seus personagens, vividos por Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Djin Sganzerla, Vladimir Brichta, Saulo Rodrigues, Josie Antello e Cláudio Mendes – este último em estado de graça, numa interpretação do agregado José Dias que evoca ícones da chanchada, como Zé Trindade e Colé. Ximenes escancara os olhos de ressaca da enigmática mulher que afoga Bento Santiago em dúvidas numa atuação arrebatadora, em que empodera uma figura capaz de espelhar o que Bressane considera “uma mediocridade de classe”.

Para conferir a seleção de Tirandentes deste ano, basta fazer uma inscrição rápida no site www.mostratiradentes.com.br, ir na aba Filmes, escolher estre as diversas seções da programação um filme ao qual você queira assistir e conferir se ele já está disponível. Se estiver, é só clicar no nome do filme e dar play. Se não estiver, clique na opção agendar, e você receberá uma mensagem assim que o título estiver online. Dicas do Estadão P de Pop: põe na sua lista do que ver os imperdíveis “A Felicidade das Coisas”, de Thais Fujinaga; “Manguebit”, de Jura Capella; “Os Primeiros Soldados”, de Rodrigo de Oliveira; “Alágbedé”, de Safira Moreira, e “Lutar, Lutar, Lutar”, .doc de Sérgio Borges e Helvécio Marins sobre o Atlético Mineiro.

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