Bravas: força feminina em exposição em Lisboa

Bravas: força feminina em exposição em Lisboa

Rodrigo Fonseca

20 de fevereiro de 2022 | 07h18

“As Bravas” no Museu Calouset Gulbenkian em Lisboa

RODRIGO FONSECA
Fotojornalista do jornal “Público”, Paulo Pimenta vem surpreendendo quem visita o Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com a força de seu olhar sobre o que chama de “heroínas da vida real” retratadas na exposição “As Bravas”, em cartaz na instituição até o dia 25 de abril. A cada foto vemos portuguesas de cabelos já esbranquiçados ou cinzentos sob os efeitos das primaveras que colecionaram integradas à Natureza. Uma são uma só com galhos e arbustos. Outras ostentam as galinhas que hão de ferver pra ceia. O que mais importa é o protagonismo ser delas. É a História lusa vista por elas. O que vemos na galeria do Gulbenkian é um dos vários tentáculos do projeto Enxoval, que, desde 2019, trabalha com grupos de teatro comunitário nas cidades do Porto e de Amarante sobre temas do património feminino e a igualdade de género. Outro tentáculo dele derivado foi um fanzine ilustrado por Clara Não, que usava histórias colhidas a partir de uma chamada pública, lançada ao povo nas redes sociais. A partir dela, quem quiser pode partilhar a história de uma mulher inspiradora na sua vida, enviando-a por escrito ou em gravação áudio de até três minutos.
Quem promove o exercício de cartografia biológica da memória que gerou “As Bravas” é a PELE, um coletivo do Porto que desenvolve projetos de criação artística como espaços simbólicos de ação e de participação cívica e política, potenciando processos de transformação individual e coletiva. Mas foi o olhar poético de Pimenta – que, outrora clicou a coreógrafa Pina Bausch no Internationales Tanzfestival – o real catalisador de tanta beleza. Ao abrir a exposição, no fim de janeiro, a PELE mandou ao Gulbenkian um texto que define aquele mundo de resiliências femininas:
“Nas montanhas do Marão (re)encontramos as nossas ancestrais, mulheres que lutam e resistem. Sussurram memórias silenciadas e cantam para espantar a solidão dos dias. Guardiãs de pés descalços e de lembranças de tempos duros, de histórias e cantigas do passado mas com o futuro no olhar.
O manto que as envolve foi cosido de retalhos vivos dos caminhos que fazem parte do seu quotidiano e da sua sabedoria. Também ele foi crescendo, florescendo e secando ao longo do processo de criação.
Esta exposição é uma celebração destas Bravas, figuras mitológicas vivas, arquétipos da natureza na sua forma mais bela e mais crua.”

As heroínas do cotidiano

Em paralelo às Bravas, o Calouste Gulbenkian inaugurou no dia 18 uma outra exposição, esta dedicada ao artista visual lisboesta Hugo Canoilas, chamada “Moldada na Escuridão”. Numa sala toda em breu, os visitantes conferem uma reflexão (em forma de instalações) sobre os fundos marinhos, que mescla diferentes elementos em formas aquosas.
Ainda sobre Portugal… a atriz Miriam Freeland e o ator e cineasta Roberto Bomtempo estão em cartaz em Lisboa com a peça “Diário de Pilar na Grécia”, no Teatro Independente de Oeiras, até o dia 27 de março. O texto é baseado na prosa de Flavia Lins e Silva, com música de Kleiton e Kledir.

p.s.: Lá pelas 23h desta segunda-feira, na “Tela Quente”, a Globo exibe o delicioso “Podres de Ricos”. Um dos longas-metragens mais rentáveis de 2018, cujo faturamento beirou US$ 231 milhões, “Crazy rich asians” (seu título original) é uma adaptação do best-seller homônimo de Kevin Kwan, que consumiu US$ 30 milhões em suas filmagens e seu lançamento e faturou sete vezes mais. Nada mais é do que uma versão contemporânea de “Cinderela” com atores asiáticos, sem sapatinho de cristal, puxado na pimenta em sua mirada para as relações sociais e amorosas. Seu humor é bem dosado, equilibrado com o tom melodramático de sua abordagem para impasses do querer. Seu diretor, o californiano de ascendência chinesa Jon Murray Chu (de “GI Joe: Retaliação”), é um especialista em videoclipes (sobretudo os de Justin Bieber), competente em misturar gêneros. E seu atestado de excelência está na escalação da genial estrela malaia Michelle Yeoh, de “O Tigre e o Dragão” (2000), no papel de uma sogra megera que atazana a vida da futura nora pobre. Mais Gata Borralheira, impossível.

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