Brasília em cartas de amor nada ridículas

Brasília em cartas de amor nada ridículas

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2020 | 12h16

Trecho da projeção de “Espero Que Esta Te Encontre e Que Estejas Bem”, de Natara Ney, no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca
Toda a projeção de “Espero Que Esta Te Encontre e Que Estejas Bem”, de Natara Ney, no Canal Brasil, na noite de terça-feira, no abre-alas da competição oficial pelo troféu Candango do 53º Festival de Brasília, transcorreu, na casa do P de Pop, na companhia inseparável do livro “As Cartas Roubadas” (1988), de Gérard Depardieu. É um filme sobre trocas de correspondência, construído no paradeiro do destinatário e do remetente de uma missiva encontrada em um garimpo da diretora (uma das mais prestigiadas montadoras do país) à cata de histórias para se filmar. Nada mais justo do que ver um longa-metragem assim, envelopado de emoção, ao lado de uma obra literária epistolar. Depardieu, que acaba de lançar “Ailleurs”, nas livrarias da França, construiu no fim dos anos 1980, um memorialismo em série a partir de cartas a suas / seus colegas de trabalho, a líderes políticos e seus amores. Um texto dele endereçado a atriz Catherine Deneuve, sua parceira de cena em “O Último Metrô” (1980), de François Truffaut, tem especial delicadeza e uma conexão indireta, mas essencial ao .doc de Natara. Eis um trecho:
“Catherine,
Um dia, numa entrevista, declarei que ‘você era o homem que eu queria ser’. Você é mais responsável, mais forte. Se defende melhor que os atores. É menos vulnerável. Sem dúvida este paradoxo é a verdadeira feminilidade. A feminilidade é a hospitalidade, a abertura, é também saber resistir, não se deixar atingir pelos olhares doentios, insistentes, alusivos.
À noite, durante a filmagem tensa de ‘Drôle d’endroit pour une reencontre’ (‘Um Lugar Estranho Para Um Encontro’, de François Dupeyron) comíamos juntos e às pressas. Eu precisava descarregar minha angústia contando coisas de uma vulgaridade enorme. No entanto você ria, me encorajava a me soltar. Seu humor, sua ingenuidade me liberavam. Muitas vezes acontecem histórias mais fortes entre os homens e as mulheres quando a sexualidade não está presente.
‘Ela era bela, se a noite
que dorme na escura capela
onde Michelangelo fez seu leito
imóvel pode ser bela’
Será que pode me escrever, Catherine, para me confirmar se é mesmo um poema de Alfred de Musset?
Um beijo.”

Nessas breves palavras, aqui editadas, Depardieu eternizou uma adoração por uma parceria que desafiou seu sexismo e alimentou seu desejo de transcendência. As cartas que Natara coleciona e das quais parte para sua narrativa também tem um coeficiente de adoração. É possível reencontrar o filme nos canais Globo nos streamings, como o Canal Brasil Play. A sinopse de “Espero Que Esta Te Encontre e Que Estejas Bem” diz: Um lote de 110 cartas de amor trocadas por dois amantes nos anos 1950, descobertos em Mato Grosso do Sul, é o ponto de partida para este ensaio sobre pertença, pilotado por uma das maiores montadoras do Brasil. Mas, na prática, o filme vai bem além dessa definição.

A partir de um trabalho de arqueologia epistolar, cerzido na linha da doçura pela montagem de Karen Akerman e de Mair Tavares, Natara humaniza arquivos, permite que fotos e artigos de jornal se ressignifiquem, anima registros que não passariam de mera anotação. E o faz a partir de frases devastadoras, algumas que assustam, como “Tudo acaba no lixo!”, e outras que transbordam esperança, como “A diferença entre lonjura e distância está aí: distância é matemática; lonjura é sentimento”. No empenho de encontrar um casal que, décadas atrás, trocou conversas por escrito, no impulso do querer, a diretora promove uma reflexão sobre a memória como sendo uma quinta dimensão, que garante eternidade àquilo que o Tempo não comporta e o Espaço não reconhece, mais ou menos como o Cinema faz. É muito mais um ensaio sobre o futuro, sobre projeção, numa instância do “para sempre”, do que uma narrativa sobre reminiscência de passados. Em sua mnemotécnica de sentimentos, Natara gera ainda um embate midiático, ao abrir espaço para um depoimento onde se ouve: “Nas cartas, as coisas ficam. Mas hoje, as gerações atuais vivem no digital. Tudo feito no digital pode ficar sem memória”. É uma reflexão que pode sugerir um preconceito tecnológico, mas que traz uma bem-vinda discussão sobre a falta de lastro físico na escultura das relações sociais.

Ao apostar nessa discussão como seu longa de abertura, o Festival de Brasília acrescenta mais um gênero no repertório (plural) de filões do cinema nacional: a love story.doc. Que golaço de Silvio Tendler pra arrebatar o público na arrancada de sua curadoria. E ainda tem o hit de Nilton César, “Receba as Flores Que Lhe Dou”, nos créditos. A curadoria do documentarista Silvio Tendler começou feliz. E promete seguir na linha do acerto esta noite, coma exibição de “Longe do Paraíso”, de Orlando Senna. Nesta quarta, Tendler promoveu um papo, via YouTube, com o diretor inglês Ken Loach, mediado pela jornalista Flávia Guerra. Foi uma entrevista exuberante, que vai marcar esta edição do evento – o trabalho de Tendler, alicerçado nas estratégias de inclusão do crítico Ricardo Cota – como um acerto político em prol da preservação da cultura no Brasil.

p.s.: Este post traz um teaser do longa e o link para o debate com a diretora Natara Ney e Danielle Villanova, que participou da produção, mediadas pela crítica Luciana Costa, da ACCRJ.

p.s.2: A estrutura cinematográfica de seguir o trânsito de uma carta foi a base de “Night Mail” (1936), que contou com o brasileiro Alberto Cavalcanti em sua produção.

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