‘Brasil Vermelho’ leva França Antártica à TV

‘Brasil Vermelho’ leva França Antártica à TV

Rodrigo Fonseca

09 de fevereiro de 2020 | 12h14

Rodrigo Fonseca
Na madrugada do dia 11, virada de segunda pra terça, à 0h45, o “Corujão” da Globo vai abrir espaço para um ousado casamento multinacional entre História, Antropologia, TV e cinema, pilotado pelo canadense de Québec Sylvain Archambault: “Vermelho Brasil” (“Rouge Brésil”, 2012). Concebido originalmente como minissérie e, depois, transformado em longa-metragem, o projeto, rodado parcialmente no Rio de Janeiro, é uma superprodução multinacional de R$ 20 milhões, que se firma como um produto popular à força de um ritmo frenético de aventura. Sua base é o premiado romance homônimo de Jean-Christophe Rufin, lançado em 2001 e laureado com o prix Goncourt. O livro vendeu meio milhão de exemplares mundo afora. A narrativa derivada de suas páginas é capaz de injetar adrenalina à estrutura clássica do épico histórico. Embora tenha reflexões políticas, esboçando um paralelo entre a situação do território brasileiro no século XVI e sua projeção internacional nos dias atuais, o roteiro investe mais (e melhor na ação) do que em debates sobre Poder, consolidando-se como um produto mais focado no entretenimento do que em apresentar um viés didático sobre a História. E há um desempenho impecável de Stellan Skarsgard à frente da trama, dando um tom trágico à figura de Villegagnon, conquistador europeu enviado à terra brasilis em nome da conquista do Novo Mundo. Conquista feita à sague. Ganhador do Oscar por “Babel” (2006) e “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), Gustavo Santaolalla assina a trilha sonora pra Archambault.

Diretor do cult “A arte da guerra” (2000), com Wesley Snipes, Christian Duguay é um dos autores do roteiro de “Vermelho Brasil”, além de integrar os créditos de produtor. Sua trama vai ao século XVI. Ali, chamava-se de “França Antártica” o projeto de expansão da Corte Francesa pelas regiões recém-descobertas do Novo Mundo, a fim de expandir suas fronteiras pelo continente que viria a se chamar de América Latina. Nesta época, recriada na fotografia saturada de Christophe Graillot, expedições de caravelas de guerra formadas nos portos de Paris são enviadas para a costa do Brasil. O objetivo é oficializar a conquista da nova nação e deflagrar um conflito com os exploradores portugueses, que se consideram os titulares do continente, dividido com os espanhóis. Em meio a essa movimentação de rixas entre as metrópoles, no fim do ciclo das grandes navegações, dois órfãos de mãe, filhos de um guerreiro cujo paradeiro desconhecem, irão embarcar para o solo brasileiro. Trata-se da jovem Colombe (Juliette Lamboley) e de seu irmão Just (Théo Frillet). Eles são obrigados por uma tia a deixar a França e viajar para o Brasil, a fim de ajudar na colonização do local hoje correspondente ao Rio de Janeiro. Para isso, o governo de Paris envia uma esquadra chefiada por um de seus mais ferozes líderes de guerra: o almirante Nicolas Durand de Villegagnon (Skarsgard, monumental). Ao chegarem aqui sob os cuidados de Villegagnon, educados pelos jesuítas com a língua dos índios, a fim de servirem como tradutores, Colombe e Just se deparam com a selvageria das tribos. Encontram ainda uma conspiração tramada por um contrabandista vindo de Portugal, João da Silva (Joaquim de Almeida, dublado aqui por Mauro Ramos). É um dos personagens mais cruéis do aclamado ator luso e que melhor traduzem o tom inflamado dos personagens de Jean-Christophe Rufin.

Este ano, Rufin terá sua prosa transportada para o audiovisual de novo: Alex Carvalho filma “Le Salamandre”, com Marian Foïs. É mais uma releitura de seu universo de intrigas carregadas de inquietação existencialista. Uma inquietação que se sente no filme “Vermelho Brasil”. No enredo, pontuado por um debate contra o sexismo ancestral, Colombe tem que se vestir como homem para evitar o assédio dos marinheiros e soldados. Travestida, ela acaba atraindo o apreço de uma jovem índia, Paraguaçu (a excelente Giselle Motta, de “O Palhaço”), que logo se dá conta de que a pessoa em sua frente é uma menina, de quem a selvagem vai se tornar amiga. Aqui chegando, eles encontram ainda um velho homem branco que se bandeou entre as ocas dos tupinambás, Pai Lo (Pietro Mário, o eterno Capitão Furacão), adotando a identidade indígena. Ele é um sábio capaz de fazer diferença na luta dos irmãos franceses para sobreviveram em um terreno inóspito. Disposto a cumprir sua missão e a executar João, a qualquer custo, o bravo Villegagnon planeja travar uma guerra territorial, sangrando as matas à sua frente. Assim, banhado em coágulos frescos, uma peleja será travada pela conquista do Rio, ao mesmo tempo em que uma discussão sobre o valor da civilização indígena começa a se espalhar entre os personagens. Vale a atenção para quem madrugar diante da televisão. na versão brasileira, Luiz Carlos Persy empresta o vozeirão a Stellan.

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