Brasil pode levar o troféu L’Oeil d’Or de Cannes

Brasil pode levar o troféu L’Oeil d’Or de Cannes

Rodrigo Fonseca

13 de julho de 2021 | 12h20

Karim Aïnouz em Cannes, em foto do crítico sérvio Srđan Jokanović: cineasta cearense é um dos favoritos ao L’Oeil d’Or, o troféu dos .docs da Croisette

Rodrigo Fonseca
Criado em 2015 para valorizar as narrativas de não ficção, o troféu L’Oeil d’Or é a resposta de Cannes à excelência de documentaristas das mais variadas línguas que fizeram o cinema flanar por veredas da exclusão, da contradição política mas, também, da poesia. Como o festival do ano passado foi atropelado pela covid-19, a láurea só foi entregue cinco vezes, incluindo para um longa brasileiro. Foram vencedores: “Allende, Mi Abuelo Allende” (2015), de Marcia Tambutti Allende (Chile); “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha (Brasil); “Visages Villages” (2017), de Agnès Varda e JR; “Samouni Road” (2018), de Stefano Savona (Itália); e empate entre “For Sama”, de Waad al-Kateab e Edward Watts (Síria /Reino Unido) e “Cordilheira dos Sonhos”, de Patricio Guzmán (Chile/França). Este ano pode dar Brasil de novo, a julgar pelos 15 minutos de aplausos recebidos por Karim Aïnouz e seu “Marinheiro das Montanhas”. É o regresso dele à Croisette após a conquista do troféu Un Certain Regard por “A Vida Invisível”.
“É uma autoficção”, uma viagem de reconhecimento de dois países”, disse Karim ao Estado, falando de um trânsito Argélia x Brasil. “É um documentário com ópera, com tratamento de som fora das locações, com ‘Sertaneja’, de Orlando Silva. É vida. O cinema não pode ser binário… ou é .doc ou é ficção. Faço o que a realidade pede o que o meu corpo pede”.

Finalizado em paralelo à participação dele como jurado no Festival de Moscou, o filme é um diário de viagem, filmado na primeira ida de Karim à Argélia, país em que seu pai, o médico Majid, nasceu. Entre registros da viagem, filmagens caseiras, fotografias de família, arquivos históricos e trechos de super-8, a longa opera uma costura fina entre a história de amor dos pais do diretor, a Guerra de Independência Argelina, memórias de infância e os contrastes entre Cabília (região montanhosa da África) e Fortaleza, cidade natal do diretor e de sua mãe, Iracema. O longa mostra a passagem dele por uma alfândega onde ele não precisa soletrar seu nome, por este ser comum a cultura local, mas onde não escapa de perguntas sobre futebol, tendo que responder sobre o ex-craque Zidane. Passado, presente e futuro se entrelaçam em uma travessia on the road pelo mundo, no mesmo país de onde ele, há cerca de um ano e meio, extraiu o .doc “Nardjes A”, ainda inédito por aqui.
“Minha mãe não morre mais. Tenho a sensação de que meus filmes são muito coloridos porque as fotos que eu tenho dos meus pais são retratos em cor. Há uma ausência ali que é cheia de cores. Não apareço nessas fotos porque eu ainda não existia. Minha mãe voltou para o Brasil grávida e eu cresci sendo criado pela minha avó e por ela, que foi uma mulher incrível, com uma história parecida com a da Guida de ‘A Vida Invisível’. Guida também volta grávida”, disse Karim ao P de Pop. “A Argélia enxotou um poder colonial fortíssimo, da França.
Este ano o júri do Olho de Ouro é presidido pelo cineasta americano Ezra Edelman e inclui a diretora francesa Julie Bertuccelli; a crítica francesa Iris Brey; a atriz belga Déborah François; e a produtora síria Orwa Nyrabia, diretora artística do Festival Internacional de Documentários de Amsterdã. Um dos principais concorrentes de Karim é o comovente “H6”, da cineasta estreante Ye Ye, que estudou Design e da Arquitetura. O filme é um estudo sobre o cotidiano do Sixth People’s Hospital, em Xangai, a partir da rotina de médicos e de pacientes. Lembra “Sob Pressão”, a série brasileira, ao retratar como uma máquina de saúde tamanho GG opera, buscando a democratização da qualidade de vida de um país populoso até o talo.

Eis a seleção deste ano:
The Velvet Underground (dir. Todd Haynes) – EUA
Cow (dir. Andrea Arnold) – Reino Unido
Jane par Charlotte (dir. Charlotte Gainsbourg) – França
Jfk Revisited: Through The Looking Glass (dir. Oliver Stone) – EUA
Marx può aspettare (Marx can wait) (dir. Marco Bellocchio) – Itália
Val (dir. Ting Poo, Leo Scott) – EUA
Babi Yar, Context (sir. Sergei Loznitsa) – Ucrânia
Machbarot Shchorot (dir. Shlomi Elkabetz) – Israel
H6 (dir. Ye Ye) – França
Mariner of the mountains (dir. Karim Anouz) – Brazi, França, Alemanha
The Year Of The Everlasting Storm (dir. various) – EUA, Singapura, Irã, Chile, Tailândia
New Worlds: The Cradle of Civilization (dir. Andrew Muscato) – EUA, Grécia
The Story of Film: A New Generation (dir. Mark Cousins) – Reino Unido
Animal (dir. Cyril Dyon) – França
Bigger Than Us (dir. Flore Vasseur) – França
I Am So Sorry (dir. Zhao Liang) – France, China
Invisible Demons (dir. Rahul Jain) – Índia, Finlândia, Alemanha
Above Water (dir. Maissa Maiga) – França, Bélgica
The Velvet Queen (dir. Marie Amiguet) – França
Buñuel: un cineasta surrealista (dir. Javier Espada) – Espanha
Flickering Ghosts of Love Gone By (dir. Andre Bonzel) – França
All About Yves Montand (dir. Yves Jeuland) – França
Satoshi Kon, l’illusionniste (dir. Pascal-Alex Vincent) – Japão, França
The Storms of Jeremy Thomas (dir. Mark Cousins) – Reino Unido
A Night of Knowing Nothing (dir. Payal Kapadia) – Índia
Returning to Reims (Fragments) (dir. Jean-Gabriel Periot) – França
Futura (dir. Pietro Marcello, Francesco Munzi, Alice Rohrwaher) – Itália
Ghost Song (dir. Nicolas Peduzzi) – Itália
Soy Libre (dir. Laura Portier) – França
Vedette (dir. Claudine Bories, Patrice Chanard) – França

Cannes chega ao fim no dia 17 de julho, com a entrega da Palma de Ouro, pelo júri de Spike Lee, que inclui o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. Badala-se muito “The Worst Person In The Wolrd”, de Joachim Trier, e “Tre Piani”, de Nanni Moretti. O longa brasileiro “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira, que integra a Quinzena deste ano foi elogiado pela imprensa internacional. Essa seção, paralela à disputa de prêmios, abriu seus trabalhos concedendo um troféu honorário, a Carroça de Ouro, a um documentarista: o nonagenário diretor americano Frederick Wiseman.

p.s.: Falando sobre .docs, o seminário NA REAL_VIRTUAL, organizado por Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes, vai virar websérie e está organizando, via Catarse, a campanha de crowdfunding para sua realização. Contribuições podem ser feitas até o dia 12 de agosto de 2021, pelo site: https://www.catarse.me/webserienarealvirtual.

p.s.2: Com roteiro de Pedro Henrique Lopes e direção de Diego Morais, o experimento cênico “Transe”, que encerra temporada neste domingo (18/07), no Youtube, põe em cena nossos conflitos de personalidade a partir da história de um garoto que cria um personagem de si mesmo ao entrar na prostituição. O drama acompanha o embate entre João (Pedro Henrique Lopes), um jovem inseguro com sua aparência e receoso de seus desejos libertinos, e Nicolas (Oscar Fabião), um “michê” extravagante e cheio de luxúria. Numa espécie de transe, eles mergulham um no outro para tentar encontrar sua verdadeira essência. A partir da história, a obra discute tabus que envolvem a sexualidade humana e a saúde mental. Disponível para ser assistido no horário em que o espectador preferir, “Transe” tem ingressos gratuitos com retirada pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/transe__1226473). “Quis criar uma trama de embate entre duas personalidades, sem cair no óbvio do conflito maniqueísta entre o anjinho e o diabinho. Colocamos em oposição momentos diferentes da carreira do protagonista, como o começo cheio de pudores, quando ele tinha medo de dar vazão aos desejos, até uma fase mais libertina e liberta. E questionamos o quanto as nossas inseguranças nos impedem de viver como queremos”, analisa o autor e ator Pedro Henrique Lopes”. “O Nicolas é um jovem sem pudores, instintivo, que se joga e não tem medo de consequências. O maior desafio foi ter que me despir das censuras e dos pudores porque o personagem não tem essa trava. Ele não deixa de fazer algo por receio do que os outros vão pensar, o que acaba acontecendo a todos nós em algum momento”, acrescenta o ator Oscar Fabião.

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