Brasil ganha holofotes em San Sebastián

Brasil ganha holofotes em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

22 de agosto de 2019 | 08h45

Cena de “Pacificado”, longa desenvolvido a partir do Morro dos Prazeres, que representa o Brasil na disputa oficial pela Concha de Ouro do festival espanhol

Rodrigo Fonseca
Agendado de 20 a 28 de setembro no norte da Espanha, o Festival de San Sebastián vai ganhar um duplo reforço brasileiro em sua 67ª edição: foi selecionada uma produção de Rodrigo Teixeira e ainda um filme sobre a realidade das favelas do RJ, com Débora Nascimento e José Loreto. Com a grife da RT Features e a presença de Wagner Moura no elenco, o thriller de espionagem “Wasp Network” será exibido no dia 27 de setembro, num tributo à sua protagonista, a atriz Penélope Cruz. O longa-metragem, produzido por Teixeira e dirigido por Olivier Assayas, é baseado em livro do mineiro Fernando Morais (“Os últimos soldados da Guerra Fria”), sobre um grupo de cubanos presos nos EUA, em 1990, sob a alegação de trabalharem como espiões. Já o projeto estrelado por Débora e Loreto e centrado em conflitos do tráfico em comunidades cariocas, é “Pacificado” e entrou na competição pela Concha de Ouro, a disputa principal de San Sebastián. Quem dirige é Paxton Winters (de “Crude”) tendo entre seus produtores o aclamado diretor americano Darren Aronofsky (de “Cisne Negro”). No Morro dos Prazeres, uma adolescente de 13 anos tenta se reconectar com o pai, um ex-presidiário, em meio às preparações para os Jogos Olímpicos de 2016, mas a polícia pode dificultar essa situação. A seleção de San Sebastián será inaugurada com o drama “Blackbird”, de Roger Michell.

Penélope Cruz, que vai ser homenageada no dia 27 de setembro, estrela “Wasp Network”, da RT Features

Entraram novos filmes para a disputa do festival: “Lhamo and Skalbe”, de Sonthar Gyal, da China; “Patrick”, de Gonçalo Waddington (Portugal); “Proxima”, de Alice Winocour; “Rocks”, de Sarah Gavron (Reino Unido); e “The other lamb”, de Małgorzata Szumowska (Polônia – Irlanda). A direção de San Sebastián já havia divulgado parte de suas pepitas douradas. A competição já havia anunciado atrações antes, com destaque para a presença do ator e diretor James Franco como um de seus chamarizes. Dois anos depois de conquistar a Concha de Ouro com “O Artista do Desastre”, o astro americano vai voltar à seleção competitiva da cidade basca com o esperado “Zeroville”, comédia sobre a Hollywood de 1969. Concorrem com ele produções inéditas pilotadas por Louise ArchambaultGuillaume NiclouxJosé Luis Torres LeivaIna WeisseAdilkhan Yerzhanov David Zonana. É Franco quem protagoniza seu novo exercício autoral por trás das câmeras, numa investigação sobre a indústria de cinema dos EUA há 50 anos. Ele vive Vikar, um arquiteto que acaba sendo tragado pelos estúdios. Seth Rogen Will Ferrel estão em seu elenco.

“Zeroville” faz um painel dos EUA em 1969

Fora da competição principal, vai ter ainda um batidão do que se viu de melhor na Berlinale e na Croisette, começando por “Les Misérables”, thriller social que deu ao francês de origem maliana Ladj Ly o Prêmio do Júri cannoise, em empate com o pernambucano “Bacurau”. Nele, três policiais enfrentam uma rebelião dos moradores de um subúrbio majoritariamente negro de Paris em retaliação a uma agressão contra um menino daquela periferia. Esse enfrentamento marca um levante do povo contra uma instituição de controle estatal.

De Cannes, foram trazidos ainda o novo Ken Loach (“Sorry We Missed You”) e a comédia de tons assistencialistas e motivacionais “Hors Norme”, de Eric Toledano e Olivier Nakache (a dupla de “Intocáveis”). De Berlim veio o comovente drama chinês “So long, my son”, de Wang Xiaoshuai, que traça um paralelo entre as transformações sociais da China e o período de 30 anos de luto de um casal, atomizado pela perda de um filho. Na capital alemã, em fevereiro, o longa conquistou os Ursos de Prata de melhor atriz e ator, dados a Yong Mei e Wang Jingchun.

Costa-Gavras, papa do thriller político, consagrado por sucessos como “Z” (1969), vai ganhar um prêmio honorário pelo conjunto de sua carreira, com a exibição de “Adults in the room”, seu exercício autoral mais recente. O projeto é uma adaptação do livro homônimo de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, sobre a falência de sua nação. Valeria Golino e Ulrich Tukur são os protagonistas do longa, que se concentra em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas.

“Acho que o único arrependimento que tenho na vida diz respeito aos projetos de cinema que não pude filmar por falta de financiamento. Um roteiro não filmado dói como um amor mal-acabado. E, hoje, a decisão sobre o futuro dos filmes reside nas mãos de investidores ligados a canais de televisão, pois é da TV que vem o nosso fomento, em coproduções”, disse o cineasta, que relembrou fatos marcantes de sua vida nas telas na autobiografia “Va où il est impossible d’aller”, lançado em 2018, em meio ao Festival de Cannes.

Com estreia nos EUA prevista para 18 de outubro, o thriller psicológico “The Lighthouse”, dirigido por Robert Eggers, de “A Bruxa” (2015), e também produzido pela RT, de Teixeira, será projetado em solo espanhol na seção Perlak. Entram ao lado dele nessa seleção “Ema”, de Pablo Larraín; “Light of my life”, de Casey Affleck; o desenho “Weathering with you”, de Makoto Shinkai; e “Portrait de la jeune fille em feu”, de Céline Sciamma, que venceu a láurea de melhor roteiro em telas cannoises.  

Em sua seção de retrospectivas, o festival vai esmiuçar o universo de melodramas do mexicano Roberto Gavaldón (1909-1986), conhecido por filmes como “Após a tormenta” (1955). Até o fim do mês, San Sebastián anunciará novas atrações.

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