Brasil de Maya Da-Rin concorre em Locarno

Brasil de Maya Da-Rin concorre em Locarno

Rodrigo Fonseca

17 de julho de 2019 | 07h51

“A febre”, de Maya Da-Rin, representa o cinema nacional de longas na briga pelo Leopardo de Ouro do festival suíço

Rodrigo Fonseca
Como homenagens programadas para honrar a trajetória de dois americanos – a atriz Hilary Swank e do cineasta John Waters – e com um trabalho inédito do (já) mítico diretor português Pedro Costa (o esperado “Vitalina Varela”) como chamariz, o Festival de Locarno, na Suíça, vai abrir múltiplos espaços para o Brasil em sua 72ª edição, a começar por um longa-metragem de Maya Da-Rin em sua competição oficial. Agendado de 7 a 17 de agosto, a briga pelo Leopardo de Ouro vai contar com “A Febre”, cuja sinopse promete ser uma delicada mirada da cineasta brasileira sobre a realidade amazônica. Na trama, Justino, um indígena viúvo de Manaus que ganha a vida como vigia de um porto de cargas, entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem. Maya teve sua estética exibida no exterior, em anos passados, graças à força plástica de “Terras” (2010).

Vai ter uma dupla dose de Brasil na seleção de curtas-metragens Pardi di Domani, do festival mais importante da Suíça, com a animação “Carne”, de Camila Kater (que traz Helena Ignez em seu elenco)  e com “Chão de rua”, de Tomás von der Osten. Vai ter ainda um exercício narrativo com duração de 23 minutos da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, chamado “Swinguerra”, na seção Moving Ahead. E, numa seara de retrospectivas, a seleção de 47 produções ligadas à representação das populações negras, chamada Shades of Black, dá espaço para “Abolição”, de Zózimo Bulbul (1988), e para “Amor maldito”, de Adélia Sampaio (1984). Os dois integram uma sessão que revisa o legado de Spike Lee com uma exibição de “Faça a coisa certa” (1989), comemorando os 30 anos desse cult do debate racial.

É a diretora francesa Catherine Breillat, realizadora de “Romance” (1999) e “Para minha irmã” (2001), quem preside o júri da disputa oficial de Locarno, no qual Maya Da-rin vai disputar com Pedro Costa, de volta às telas com mais um périplo do universo luso-africano que retratou em “Cavalo Dinheiro”, em 2014. Foi com esse último longa que o lisboeta recebeu o prêmio de melhor direção ali mesmo, em terras “locarnas”. Seu regresso, antes intitulado “As filhas do fogo”, adota a figura da afrodescendente Vitaliana Varela como bússola de um périplo por uma região de periferia lusitana, governada pela exclusão. Maya e Costa vão encarar concorrentes de respeito como o par de realizadoras búlgaras Mina Mileva e Vesela Kazakova – que assinam, a quatro mãos a produção “Cat in the wall” – e o estadunidense Joe Talbot, no páreo com “The last black man in San Francisco” (sensação de Sundance, em janeiro, onde ganhou o prêmio de Melhor Diretor). Concorrem ainda mais dois cineasta com Portugal no DNA: Basil da Cunha, com “O fim do mundo”, e João Nicolau, com “Technoboss”.

 

Dedicada a projeções de títulos potencialmente mais populares, a Piazza Grande de Locarno vai receber o ator americano Joseph Gordon-Levitt para apresentar o thriller “7500”, sobre um avião tomado por terroristas. A direção é de Patrick Vollrath. Na mesma seleção, a Suíça vai ganhar uma sessão de gala de “Era uma vez em Hollywood”, o novo Quentin Tarantino, que revive traumas históricos de 1969, tendo Margot Robbie no papel da atriz Sharon Tate. Brad Pitt e Leonardo DiCaprio brilham à frente do projeto, que explora a realidade da indústria audiovisual daquele ano.

Quem abre Locarno este ano será a italiana Ginevra Elkann, com o drama “Magari”, e quem encerra será o japonês Kiyoshi Kurosawa, um mestre nipônico do horror, do suspense e da sci-fi, com o road movie “To the ends of the World”. Ganhador da Palma de Ouro em Cannes, a comédia de erros “Parasita”, do coreano Bong Joon-Ho, será exibida em projeção especial nas telas suíças, com um tributo a um de seus protagonistas, o ator Song Kang-ho.

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