Brasil Buarque de Hollanda

Brasil Buarque de Hollanda

Rodrigo Fonseca

26 de abril de 2020 | 12h01

Rodrigo Fonseca
Nesta quarta-feira, o “Corujão” é “paratodos”… com “Chico – Artista Brasileiro”, belo filme de abertura do Festival do Rio 2015, com a grife da sofisticação característica do realizador Miguel Faria Jr. Qualquer desatenção ao cinema documental musical brasileiro, faça não, pois a gota d’água para fazer transbordar as suspeitas de quem ainda duvida da eficácia popular do filão. Com sessão à 1h50, na Globo, o longa-metragem é um retrato em 3×4 de Chico Buarque no qual ele põe o pingo em cada i das ilusões erguidas em torno de sua figura, demolindo os mitos em torno de sua timidez utilitária (que serviria como um afasta-fã), de seu olhar político e de suas reflexões sobre a química do Tempo nas rugas do corpo. Fotografada pelo lorde Lauro Escorel, a produção dá um drible nas artimanhas da cinebiografia para se desenhar como algo mais: uma cartografia dos afetos com base nas recordações de um ícone da canção que se despe das próprias máscaras para explorar acordes mais próximos de sua própria subjetividade.
“Mesmo sem querer, com seu jeito de ser introspectivo, Chico, de quem eu sou amigo há mais de 40 anos, acaba alimentando um Chico Buarque mítico”, explicou Miguel Faria Jr. ao P de Pop à época da estreia.
Em 2005, ele emplacou o documentário de maior bilheteria do Brasil nos últimos 30 anos: “Vinícius”, longa-metragem visto por cerca de 270 mil pagantes. “Este filme é o meu olhar sobre este homem a quem eu admiro como artista, mas de quem gosto também como amigo. Um recorte muito pessoal, sem pretensões biográficas, pautado pela simplicidade”.

Alternando depoimentos a números musicais com cantores de diferentes gerações entoando os maiores sucessos do compositor de “A Banda”, “Chico – Artista Brasileiro” é o trabalho mais maduro de Faria Jr. na edificação da narrativa cinematográfica, arquitetado sinuosamente entre relato, registro e encenação. Este último aspecto é nutrido por uma direção de arte aparada a cinzel assinada por Marcos Flaksman (em uma de suas cenografias de maior inspiração) e vitaminado pela fotografia de Escorel. No fluxo de memórias, editada por Diana Vasconcellos, Chico fala de sua relação com o pai, Sérgio Buarque de Hollanda, canta loas a seu casamento com a atriz Marieta Severo e reconstitui as instabilidades políticas que o levaram a escrever canções como “Cálice”. Na edição, em um fino trabalho de Diana uma investigação em primeira pessoa se impõe por transcender a fórmula biográfica vigente nas cinematografias de língua portuguesa e se afirmar como um parlatório sobre o material bruto de sete décadas de vida, no qual Chico é o senhor do que se narra. É ele quem constrói o personagem de si mesmo, retocado por Faria Jr.

p.s.: Em clima de #FiqueEmCasa, passa numa banca perto de você e leia “Batman – Último Cavaleiro da Terra”, com texto de Scott Snyder e arte do magistral Greg Capullo a reinventar o Cruzado Encapuzado em uma realidade paralela onde o planeta sucumbiu a um vilão e Bruce Wayne pode ser um mero louco de hospício.

p.s.2: Esta noite, às 20h30, a Band revê um filmaço com Brad Pitt que foi defenestrado em sua passagem pelo circuito: “Encontro Marcado” (“Meet Joe Black”), no qual o ator encarna a Morte. O longa, de 1998, é dirigido por Martin Brest. Marco Antonio Costa dubla Pitt no Brasil.

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