Brad Pitt na Babilônia do Globo de Ouro

Brad Pitt na Babilônia do Globo de Ouro

Rodrigo Fonseca

05 de janeiro de 2020 | 14h35

Rodrigo Fonseca
De olho no novo longa-metragem de Damien Chazelle (“Babylon”, previsto para 2021), William Bradley Pitt tem tudo para deixar o Beverly Hilton, esta noite, com o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante dado pela Hollywood Foreign Press Association (HFPA). No ano em que estrelou o doído “Ad Astra”, o astro de 56 anos apresentou sua melhor interpretação ao retomar sua parceria com Quentin Tarantino, dez anos depois de “Bastardos Inglórios”. No elenco de “Era uma vez… em Hollywood”, ele ajudou esta deliciosa produção a arrecadar US$ 372 milhões. O êxito repaginou a obra de QT, que passou os últimos anos dedicado à lapidação do que podemos chamar de meta-faroestes: os geniais “Django Livre” (2012) e “Os Oito Odiados” (2015) não são apreensões reais de questões do Oeste “de verdade”, mas sim do Oeste de papelão que Hollywood e os spaghetti italianos nos legaram. São “mentirinhas” erguidas sobre “mentirinhas”, ficção da ficção. Simulacros. Seu “Once upon a time… in Hollywood” é meta também, mas metacinema.

Indicada à Palma de Ouro de Cannes e exibida fora de concurso em Locarno, a viagem de Quentin Jerome Tarantino ao ano de 1969 e às agonias da contracultura de um ano que não acabou, exibidas no evento suíço debaixo de litros de chuva. Quente como um forno, Locarno banhou-se com o suor frio do Céu na sessão de “Era uma vez em Hollywood”, vista por uma multidão ensopada que não arredava o pé e o bumbum das cadeiras de plástico da Piazza Grande, apaixonadas por aquele movimento proustiano de decantação do tempo perdido do Cinemão. Um exibidor latino-americano, conhecido aqui da “Metrópolis”, com os lábios sorridentes de encanto pelo gingado de Margot Robbie, olhava aquele espetáculo e dizia com convicção: “Vai ser um fenômeno, pra jogar a grife Tarantino para a raia dos milhões”. O lápis confirma a tese do hermano: somando-se os oito e ½ filmes rodados e lançados por QT de 1992 até hoje (o mezzo se refere aos dois volumes de “Kill Bill”), temos uma arrecadação que beira US$ 1,5 bilhão e um balde Oscars. E, de 26 de julho pra cá, “Once upon a time… in Hollywood” papou uma fortuna, comprovando-se um ímã de espectadores. Há muita má vontade contra o filme, alimentada por uma certa histeria midiática contra o apreço que o diretor tem pela exumação da violência e por suas personagens mulheres marginais. Mas nada que se diga de azedo contra o filme pode arranhar seu viço.
Nele, Brad Pitt parece em estado de graça. No filme, ele vive o melhor amigo e parceiro de trabalho de um astro de TV em decadência, encarnado por Pitt é um dublê com um passado trágico, o viajandão Cliff Booth. DiCaprio é o ator Rick Dalton, um astro de séries de faroeste que está vivendo uma fase de ocaso e que busca a volta por cima. Booth o substitui em cenas perigosas e é seu motorista, com direito a uma hilária luta imaginária com Bruce Lee. Booth é ainda testemunha de um amor que se instaura na casa vizinha ao lar de seu amigo e chefe: a casa dos Polanskis, onde Roman (o diretor) vive com a atriz Sharon Tate. Saudado como obra-prima por alguns e como um equívoco para outros, em sua passagem por Cannes, esta viagem à História americana, como foco na indústria do audiovisual (a TV e o cinema), estrutura-se a partir de uma visita de Tarantino ao ano de 1969.
Foi nessa data que a modelo e atriz em ascensão Sharon Tate, então grávida do cineasta franco-polonês Roman Polanski (famoso por “O bebê de Rosemary”), foi morta pela seita do maníaco Charles Manson. Quem encarna Sharon é a australiana Margot Robbie, que viveu a mulher de DiCaprio em “O Lobo de Wall Street” e que, segundo línguas ferinas da Croisette, esteve na cidade aos flertes com Pitt. O desempenho dela é um chamariz para prêmios: Margot, a Arlequina de “Esquadrão Suicida” (2016), quase não usa palavras para encarnar Sharon, interpretando-a como se ela fosse uma entidade, um espectro de um tempo perdido.

Falar em Tarantino é falar em receitas astronômicas, mas também é falar em reinvenções do código histórico, numa lógica de metanarrativa: em seus filmes o Passado, aquele com “P”, não se faz da História, aquela com H, e sim com o próprio Cinema… com a história que os filmes fabricaram. Daí o juízo final de Hitler em “Bastardos Inglórios” (2009). Formado (e cultuado) como realizador a partir de uma trilogia sobre malandragem, reunindo “Cães de aluguel” (1992), “Pulp fiction” (1994) e “Jackie Brown” (1997), Tarantino dedicou a porção inicial de sua obra como cineasta a experimentar um novo modelo de estrutura dramatúrgica, calcado em inversões da ordem narrativa e no diálogo coloquial. Dali, assinou a carta de alforria para que o pop saísse da senzala da cultura e virasse matéria de reflexão, ao retratar criminosos discutindo “Like a virgin”. O pop, com ele, ganha status filosófico. Não por acaso, a saga da Noiva (Uma Thurman) tem como epígrafe um ditado Klingon, pinçado de “Star Trek”.
Após um hiato de cinco anos sem dirigir, entre os anos 1990 e 2000, ele retornou abrindo uma segunda trilogia, quase barroca em seus excessos e antíteses morais, mais preocupada com a potência da imagem do que com a força da palavra. Ela encontra em “Django livre” seu ápice formal. Para além das referências que fazem o deleite dos cinéfilos, a começar pela citação à canção-tema de “Django” (1966), na voz de Rocky Roberts, o faroeste rodado em locações no Wyoming, na Califórnia e na Louisiana, por US$ 100 milhões, demarca o ápice do refinamento plástico buscado pelo cineasta a partir dos volumes 1 e 2 de “Kill Bill” (2003, 2004).
Com o já citado périplo revanchista da Noiva Thurman, Tarantino passou a fazer da vingança uma fagulha para incendiar o tema que virou seu norte : o resgate de honras maculadas por agentes de um poder não institucionalizado. Em “Kill Bill” era o gangsterismo, encarnado no chefão vivido por David Carradine. Em “Bastardos Inglórios” (2009), vinha o intervencionismo nazista. Já “Django livre” põe em foco os escravocratas do Sul dos EUA, potencializados numa atuação de brutalidade ascendente por Leonardo DiCaprio (um ator na flor da maturidade). E todos os três filmes são construídos tendo como espelho o cinema de Sergio Leone (1929-1989), e não apenas na semelhança dos planos gerais e closes. Essa relação especular vem sobretudo em sua poética arqueológica (quase proustiana) de historicizar a formação de uma nação para entender suas cicatrizes políticas contemporâneas. Cicatrizes que encontraram na Hollywood dos deuses supremos de Tarantino – Howard Hawks, Sam Peckinpah e John Carpenter – a educação pela pedra do humanismo. Uma pedra afiada, que se arremessa agora contra a caretice do moralismo atual, disfarço de correção política.

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