Bortolotto visita a América de mala feita de Sam Shepard

Bortolotto visita a América de mala feita de Sam Shepard

Rodrigo Fonseca

06 Abril 2017 | 12h43

Sérgio Guizé confronta Carcarah em

Sérgio Guizé confronta Carcarah em “Oeste Verdadeiro”, em cartaz a partir de sexta no Cemitério de Automóveis

RODRIGO FONSECA
Santo padroeiro da ressaca, da inadequação e da perseverança na derrota entre os autores com “A” maiúsculo do teatro brasileiro, Mario Bortolotto regressa aos palcos brasileiros nesta sexta, como diretor, pelas veredas do autor que traduziu a América sob a ótica da solidão: Sam Shepard. Numa troca de olhares entre o dramaturgo paranaense (responsável por cults como Medusa de Rayban) e o velho caubói americano nasce uma encenação com cheiro de pólvora de Oeste Verdadeiro (True West), que estreia dia 7, às 21h, em São Paulo, no Teatro & Bar Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384, Consolação), onde fica até 30 de abril. De 19 de maio a 11 de junho, o espetáculo regressa ao espaço, retratando o conflito entre um desvalido profissional, o ladrãozinho pé de chinelo Lee (o sempre ferino e preciso Sérgio Guizé), e seu irmão, o roteirista de Hollywood Austin (Carcarah). Prestes a voltar às telas como protagonista de You Were Never Here, thriller de Camille Thoman, previsto para estrear em maio, Shepard começou sua escrita teatral no início dos anos 1960 e levou um Pulitzer para casa em 1978, por Buried Child, explorando nas décadas seguintes uma estética de desolamento geográfico e existencial. Adaptada por Bortolotto, True West, de 1980, é um de seus marcos e volta agora como uma instância de observação das desconexões nossas de cada dia. É o que Mario explica na entrevista a seguir.

Esta nova peça é um encontro de autorias, a sua e a de Sam Shepard. O que existe de Bortolotto em Shepard e o que há de Shepard em você?
MARIO BORTOLOTTO:
Não faço ideia do que possa ter de “Bortolotto” nele. Para o bem dele, espero que nada. Rs… Mas consigo identificar algo de Shepard em mim. Essa vontade de fugir sempre, de não estar no lugar que as pessoas esperam que eu esteja. Acho o filme Estrela Solitária (roteiro dele que o Wim Wenders filmou com o próprio como protagonista) muito emblemático. É a história do ator que abandona as filmagens e desaparece montado em um cavalo. Em Oeste, há esse personagem que quer ir morar no deserto, longe da civilização. Eu já escrevi muito sobre isso. Efeito Urtigão, por exemplo, é um texto sobre um jornalista desencantado que se isola da humanidade. Homens, Santos e Desertores também é sobre essa figura reclusa. Quer sujeito mais dissociado do mundo que o Travis de Paris, Texas, que ele escreveu?

Bortolotto:

Bortolotto: “Minha obra sempre retratou aquele garoto que fica sentado sozinho no recreio. Aquele que inclusive muitas vezes opta por essa solidão”

Qual (e como) é a América de Shepard?
BORTOLOTTO:
É a do cara fazendo as malas e não tendo nenhum destino. Dos motéis de beira de estrada com seus números virados de cabeça pra baixo, dos personagens que se abandonaram. Dos pequenos incêndios que destroem almas. Dos passeios ao luar e das garçonetes solitárias apaixonadas por viajantes. A América de Shepard é a mesma América com a qual Kerouac sonhava. Uma América que seria uma puta tímida que não faz ideia de como o resto do mundo pode ser sordidamente devasso.

O que mais te fascina no diálogo dele, em carpintaria e em questão de tema?
BORTOLOTTO:
Os temas são os mesmos dos contos e crônicas que já nascem nos seus cadernos de anotações. Não variam muito. Não me atrai muito quando ele mergulha no surrealismo. Gosto quando ele reverencia os personagens deslocados, os que não ficam bem na foto da sala do mito americano. Shepard é ator além de autor e isso faz com que a sua escrita seja um prolongamento do que ele pensa como ator. Creio que, por isso, os seus diálogos resultem tão fluidos. É um autor que escreve pensando exatamente no que faria enquanto ator. Mais ou menos o que eu procuro fazer nas minhas peças.

As arestas do desamparo

As arestas do desamparo nos placos

Como você avalia hoje a representação da masculinidade na tua obra? O que é o homem para o autor de peças como Getsêmani?
BORTOLOTTO: Minha obra sempre retratou aquele garoto que fica sentado sozinho no recreio. Aquele que inclusive muitas vezes opta por essa solidão. Seria hoje o cara sentado sozinho na praia olhando pro mar e pensando se, assim como Jeff Buckley, ele não deveria entrar lá de uma vez e não voltar. É o homem pleno de suas imperfeições, descaminhos, incapaz de concluir alguma certeza. Eu sou um cara de valores essencialmente masculinos por mais que os novos tempos tentem misturar tudo no mesmo liquidificador. Não adianta. Homens e mulheres são diferentes em suas solidões e sentimentos. O homem tem um repertório inegociável de fugas, uma coleção de cartas que ele escreveu e não vai conseguir mandar para a mulher que poderia salvá-lo, inclusive, se ele permitisse. E é esse personagem que me interessa. É sobre ele que eu escrevo. Quando escrevi Getsêmani, tentei retratar um pouco este homem na representação daquilo que Cristo no Horto das Oliveiras permitiu que vislumbrássemos, ou seja, a possibilidade de escapar do destino que nos foi reservado. Mas a gente sabe que não vai ser feita a nossa vontade.
Qual é a dimensão política do teu teatro?
BORTOLOTTO: Quando eu me permito negar qualquer enfrentamento político na minha obra, qualquer aliança com dogmas ou correntes de pensamento delimitadoras, então eu creio que esteja sendo ainda mais contundente, o que me aproximaria de um teatro com dimensões políticas que não deveriam ser subestimadas.