‘Bonga, o Vagabundo’ faz 50 anos

‘Bonga, o Vagabundo’ faz 50 anos

Rodrigo Fonseca

01 de maio de 2021 | 08h23

RODRIGO FONSECA
Xodó de Antônio Renato Aragão, o filme de teor mais chapliniano do trapalhão, a comédia “Bonga, o Vagabundo”, completa 50 anos. A rodagem é atribuída a 1969, mas a data oficial, registrada na Cinemateca Brasileira é 1971. Didi veio antes dele, já na TV Ceará, nos anos 1960. Signo de lumpesinato, Bonga é uma brincadeira à la Chaplin, tendo como seu diretor Victor José Lima (1922-1980), ex-crítico da “Cena Muda”, responsável pela direção de fitas imprescindíveis como “Chico Fumaça” (1956) e “É de Chuá!” (1957).

Distribuído à sua época pela companhia Produções Cinematográficas Herbert Richers S.A., o longa mostra Binga como um Pedro Malasartes maltrapilho, cuja esperteza para dar golpes é equivalente a seu carinho para dar afagos aos desvalidos. Ali estão elementos que influenciariam – nos anos seguintes – na depuração da figura de Didi Mocó no cinema. Na trama, Bonga tenta ajudar um amigo a encontrar uma noiva e satisfazer os desejos do pai do jovem, que quer ver seu filho casado. Mas, o golpe armado por Bonga vai envolver sua grande paixão, complicando os planos afetivos deste nosso Carlitos. No elenco estão Maria Cláudia, Neila Tavares, Jorge Dória, Ronaldo Canto e Melo e Orlando Drummond, um dos maiores dubladores do Brasil. A fotografia é de Antônio Gonçalves e a música traz composições de Sérgio Dizner. Sua bilheteria foi de 939.790 ingressos vendidos.

Seu lançamento se dá em uma época de ressaca cultural para o país, pois, três anos antes o AI-5 chegou havia sido instaurado, batendo na porta da Liberdade de Expressão para desabrigá-la, ferindo nossa Democracia, em prol dos interesses da Ditadura. Naquele momento, o Cinema Novo esbarrava na névoa cor de chumbo levantada pela repressão. Nosso CN tomou rumos diferentes, após o sucesso absoluto de “Macunaíma” (1969), diluindo-se como movimento. No lençol histórico de 69 deitou-se a pornochanchada, revelada ao povo brasileiro a partir do êxito de bilheteria de “Os Paqueras”, de Reginaldo Faria. Dali para frente, até 1985, a comédia erótica penetraria, sem necessidade de preliminares, no imaginário cinéfilo nacional.

Neste cenário, onde se padece de uma certa derrota utópica e se goza da euforia dos filmes de sexo,o lúdico “Bonga, o Vagabundo” surge como uma espécie de caminho do meio, abrindo uma rota lírica, na qual o riso podia vir dissociado das mazelas políticas e das incontinências hormonais comportamentais. Era um riso mais doce, sem “carregos”, que ajudou a pavimentar a estrada na qual, nas duas décadas a seguir, Aragão reinaria soberano com seus Trapalhões na venda de ingressos.

É, portanto, uma joia do riso, cujo valor merece ser reavaliado, com justiça. Com graça.

p.s.: Daniel Flaksman esbanja brasilidade e inteligência no colorido da direção de arte de “O Auto da Boa Mentira”, filme em episódios de José Eduardo Belmonte, lançado na quinta-feira. Numa divertida releitura do universo estético de Ariano Suassuna (1927-2014), escrita por Tatiana Maciel, João Falcão e Célio Porto nas franjas do riso e da sabedoria popular, o longa soma tipos e mitos inerentes à obra do autor de “A Pedra do Reino”, como Caetana, simbolismo da Morte, representado na figura de Nanda Costa, em precisa atuação. A produção ainda marca a volta de Carlos Gregório (de “Baixo Gávea”) à telona, numa atuação à la James Stewart.

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