‘Bombay Rose’: Caetano em telas de Marrakech

‘Bombay Rose’: Caetano em telas de Marrakech

Rodrigo Fonseca

03 de dezembro de 2019 | 21h25

O produtor Soumitra Ranade, com a tradutora Massoumeh Lahidji e o apresentador das sessões do Festival de Marrakech, ao fim da projeção de “Bombay Rose” no Marrocos

RODRIGO FONSECA
Única animação entre os 14 filmes em competição pela Estrela de Ouro no Festival de Marrakech de 2019, o indiano “Bombay Rose”, exibido nesta terça no imponente cinema de rua Le Colisée, tem Caetano Veloso em sua trilha sonora. A voz do baiano, nos acordes da canção “Cucurrucucú Paloma” (ouvida no gogó dele também em “Fale com ela” e “Moonlight”), dá um tom ainda mais romântica a este painel de relações afetivas, pautado por sonhos frustrados, narrada em clima de Bollywood. A direção é a diretora Gitanjali Rao, uma quadrinista e ilustradora, estreante de longas de ficção. Ela foi representada pelo produtor Soumitra Ranade, com quem trabalha desde 1996. Ao lado dele, estava a genial intérprete Massoumeh Lahidji, tradutora oficial dos eventos de Cannes.

“Gitanjali poderia explicar melhor suas convicções estéticas para a escolha desta canção, mas sei que a cidade onde trabalhamos, Mumbai, é muito cosmopolita quando se trata de música. Ouvimos canções portuguesas, francesas, africanas, brasileiras. Toca de tudo”, disse Ranade ao P de Pop. “Não entendemos o que a letra quer dizer, mas a melodia e a voz do cantor tem uma toada que se encaixa à nossa narrativa, de tons fabulares. Fazemos cinema desde a era muda na Índia. Mas ainda temos dificuldade em investir em filmes animados, em parte porque a nossa indústria é controlada pelos astros e estrelas de maior sucesso, que não parecem ser muito interessados no formato”.

Mumbay em versão animada

Todo pintado manualmente, num mosaico de cor esplendoroso, “Bombay Rosa” tropeça em um roteiro confuso, que embaralha os diferentes núcleos narrativos de seu enredo. Temos de um lado a angústia de uma jovem vendedora de flores que quer arrumar um passaporte para partir do miserável contexto social onde vive. Do outro lado, vemos um jovem muçulmano que rouba rosas em cemitérios. Há ainda a saga de uma criança que se afeiçoa por um menino surdo e a história de uma professora de Inglês, já anciã, que, ao vender quinquilharias para um antiquário, revê uma história de amor LGBTQ+.
“Como vem dos curtas-metragens, Gitanjali estava acostumada a trabalhar em estúdios muito pequenos, que parecem reduzidos de mais para um projeto como este”, diz Ranade. “Mas ela conseguiu um empenho coletivo e pintou frame a frame, durante meses. Agora, nós estamos negociando a distribuição mundial desse filme tão pessoal”.

Marrakech termina neste sábado, com a entrega de prêmios dado pelo júri presidido por Tilda Swinton, com o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”) entre os votantes. Na sexta, o filme brasileiro “A Febre”, de Maya Da-Rin, será exibido, em concurso, podendo mudar o placar em favor da América do Sul e dos povos indígenas. No longa, Maya narra os esforços do índio Justino (Régis Myrupu), um vigia do cais do porto de Manaus, para superar um misterioso estado febril que debilita seu organismo, em meio à aparição de uma fera não conhecida da fauna local em sua vizinhança. “Dente de Leite” (“Babyteeth”), drama da diretora de teatro Shannon Murphy, da Austrália, sobre uma jovem com câncer que passa por uma jornada de descobertas amorosas, é o favorito a prêmios no gosto popular da cidade. Uma cidade marroquina que hoje vai dormir cantarolando Caetano. Caetaneando.

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