‘Bocaina’: Tempo, espaço, resiliência

‘Bocaina’: Tempo, espaço, resiliência

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2020 | 14h07

Ana Flávia Cavalcanti e Malu Galli em “Bocaina” – fotos de Heloísa Passos

Rodrigo Fonseca
É difícil pensar sobre a premissa e o enredo de “Bocaina” – projeto gestado em MG durante a pandemia sob a direção das atrizes Ana Flávia Cavalcanti e Malu Galli e do cineasta Fellipe Gamarano Barbosa – sem pensar no “Limite” (1931), de Mario Peixoto, não apenas por seu olhar sobre três personagens à deriva, nas correntezas do Tempo, mas pela centelha de atomização existencial do espaço, do interior, que a trama suscita. Apoteótica em “Rainha”, curta aclamado em Roterdã, Ana Flávia recorreu a um aforismo ioruba para tentar definir a (a)ventura do longa-metragem: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”. Nessa frase percebe-se o jogo entre Presente, Passado e Amanhã que se manifesta na produção fotografada por Heloísa Passos (de “Deslembro”), rodada no Funil, uma região da cidade de Bocaina de Minas. Realizador laureado na Semana da Crítica de Cannes com “Gabriel e a Montanha” (2017), ele dirigiu com Ana Flávia e Malu, a seis mãos, uma reflexão sobre a passagem das horas, sobre o isolamento, sobre volta por cima.

“Os protocolos da pandemia não abrem muito para a criação, ao contrário, os protocolos fecham tudo, nos fecham em nossas casas inclusive. Agora, os artistas são movidos também pelo desafio, sobretudo artistas brasileiros. Durante esse tempo que passamos juntos aqui em BOCAINA eu percebi meus parceiros de olhos bem abertos, sensíveis e porosos”, diz Ana Flávia, que trabalhou com Malu e com Barbosa na novela “Amor de Mãe”, paralisada quando o surto da Covid-19 começou. “Malu, Fellipe e eu estávamos no meio de uma superprodução, imersos em uma novela das nove com uma equipe dos sonhos para cada aérea específica e, de repente, nós nos vimos, inicialmente, juntos em uma casa que data 200 anos de existência. Sozinhos. Isolados. Bom, não nos restava outra coisa a não ser criar uma história”.

Alejandro Claveaux vive Josevelt, força que desencadeia mudança no fluxo temporal da Bocaina

Alejandro Claveaux, parceiro deles no folhetim das 21h, também estava lá e entrou no filme, rodado nas Gerais de 22 de junho a 10 de julho. Sua trama segue passos e descompassos de Zulma (Malu Galli), Musk (Ana Flávia) e Josevelt (Alejandro Claveaux). O filme revela duas instâncias temporais: uma que ficou pra trás (ou quase), mais bucólica; outra, no agora, atualíssima. Josevelt é um sujeito misterioso que, junto com essas duas mulheres, cheias de conflitos, permeia esses dois espaços. Ele as ajuda a se libertarem de suas amarras, ao mesmo tempo em que a narrativa cria um paralelo com a sensação de suspensão e incerteza que a pandemia nos propõe.

“No nosso caso de ‘Bocaina’, o isolamento coletivo foi muito inspirador e produtivo”, diz Malu, aplaudida em Cannes no curta “Areia”, em 2008. “Respiramos o filme durante dois meses, escrevendo o roteiro e depois filmando. Foi um mergulho e tanto. Pra atuação, foi perfeito, pois o lugar nos penetrou tanto quanto penetra os personagens. Sinto que os protocolos nos permitem pensar novas formas de fazer. Isso abre muitas possibilidades para todos. Se por um lado perdemos a forma com que vínhamos fazendo, agora temos que pensar em novidades. Por um lado, é bem estimulante”.

Consagrado internacionalmente com “Casa Grande” (2014), Barbosa conta que trabalhou com uma equipe mínima. “É um filme socialista, em que cada um tem 10%. O processo foi extremamente colaborativo e horizontal. Filmamos em 13 dias, número da resistência. Entre roteiro e filmagem, foram cerca de dois meses de trabalho”, diz o realizador, lembrando que “Bocaina” tem “uma percepção de tempo não linear, circular, em que as duas dimensões encenadas andam em paralelo, num jogo de duplos e espelhos”. “Não há passado, presente e futuro, somente presentes em eterno retorno. Os mesmos eventos são vistos através de pontos de vistas paralelos e as percepções são distintas em cada dimensão”.

Ana Flávia, Malu e Barbosa assinam a direção

p.s.: Chocando em seu ninho de ideias um filme sobre o vazio (já pesquisado e escrito), o paraibano Walter Carvalho – espécie de Abel Gance da fotografia ou um tipo de João Cabral de Melo Neto da luz – tem um filme novo pra desovar pro mundo este fim de semana: “Caruatá – Veja o Lugar Que Me Vê”, destaque do Arte 1. Tem sessão neste sábado, às 10h45 e às 19h15; no dia 2, às 4h; e no dia 4, às 14h15.

p.s. 2: Uma das personalidades mais importantes da rádio brasileira, o DJ e locutor Big Boy marcou toda uma geração de ouvintes dos anos 1960 e 70. Com seu estilo irreverente e a minuciosa pesquisa de lançamentos da cena pop internacional, tocados com exclusividade em seus programas, conquistou a juventude da época, sempre saudada pelo inesquecível bordão “Hello, crazy people!”. Comunicador multimídia, Big Boy também criou, em parceria com o DJ Ademir Lemos, aquele que é considerado o precursor dos bailes funk: o Baile da Pesada, que reunia multidões no extinto Canecão, com muito rock, pop, soul e R&B, e completa 50 anos de sua primeira edição este ano. Para celebrar a data, o produtor e DJ Leandro Petersen, filho caçula de Big Boy, convidou os maiores nomes da trajetória do funk para fazer uma live, nesta sexta-feira, a partir das 19h. O encontro, que vai lembrar as divertidas histórias desses bailes, será transmitido no Youtube (www.bit.ly/youtubebailedapesada), no Mixcloud (www.mixcloud.com/BaileDaPesada/) e na página recém-criada do Facebook (www.facebook.com/BigBoyBaileDaPesada), que está sendo atualizada com músicas, vídeos, trechos da voz de Big Boy. Além de bate-papo, haverá um baile virtual com Dom Filó, Mr. Paulão, Peixinho, Marlboro, Corello e Leandro Petersen.

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