‘Bob Cuspe’ do Brasil é premiado em Annecy

‘Bob Cuspe’ do Brasil é premiado em Annecy

Rodrigo Fonseca

19 de junho de 2021 | 16h40

Milhem Cortaz dubla o punk da periferia Bob Cuspe

Rodrigo Fonseca
É Dia do Cinema Brasileiro, aliás, um dos – uma vez que a data é comemorada em 19 de junho, em função da primeira filmagem feita nestas telas, e em 5 de novembro, em relação à projeção inaugural de filmes nestas bandas – e, justamente em meio à celebração, nossa indústria de animação tem rojões para estourar, pois “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente” acaba de ganhar o Prêmio Contrechamp do Festival de Annecy, na França. Um dos filmes mais ousados – plástica e politicamente – já feitos no Brasil, o primeiro longa-metragem de Cesar Cabral, feito pela Coala Filmes de São Paulo, conquistou a láurea principal da seção chamada Contracampo na edição de 60 anos do evento mais prestigioso do mundo para as produções animadas. Feita com bonecos, em stop motion (técnica na qual objetos são filmados quadro a quadro), a história do punk da periferia paulistana (com a voz de Milhem Cortaz) é baseada nas tiras de Angeli, mesclando documentário e distopia. Angeli, numa versão puppet, fala de sua vida e sua disposição para se desfazer de seu passado. Paralelamente, Cuspe, condenado à extinção pelo artista gráfico, sai da cabeça dele, para um acerto de contas. O desempenho vocal de Milhem é devastador.
“Receber esse prêmio em Annecy coroa não só a dedicação de uma equipe talentosa envolvida por mais de cinco anos, mas reforça a maturidade da animação brasileira perante o mundo”, diz Cabral ao Estadão. “Quem dera os atuais responsáveis pelas políticas públicas em nosso país conseguissem entender o significado desse reconhecimento para a cultura brasileira”.

“Fuga” (“Flee”): Cristal de Melhor Filme

Longa de abertura do É Tudo Verdade, o .doc animado escandinavo “Fuga” (“Flee”) foi o vencedor do troféu Cristal de melhor filme na seleção competitiva principal de Annecy. Dirigido por Jonas Poher Rasmussen, esse documentário recria, em forma de animação, os detalhes da diáspora de um homossexual afegão, fã de Van Damme, que foi da Rússia à Escandinávia, tendo a homofobia como um inimigo sempre à espreita. “Meu protagonista e eu vivemos certas experiências culturais parecidas nos anos 1990, mas em lugares diferentes, sob prismas afetivas distintos, estando eu no conforto de uma cidadezinha dinamarquesa e ele em uma jornada pelo mundo, em busca da liberdade”, disse Rasmussen ao Estadão.
Houve ainda um prêmio especial do júri de Annecy para “My Sunny Maad” (também chamado “Ma Famille Afghane”), um ímã de aplausos em suas projeções. A direção é da diretora tcheca Michaela Pavlátová , ganhadora do Urso de Ouro de curtas, em 1995, por “Repete”. Seu primeiro longa animado acompanha a imersão de Herra, uma jovem tcheca, no Afeganistão após seu casamento com Nazir, um sujeito apaixonado por ela, mas devoto às tradições de seu país. Após o casamento, Herra vai morar com a família dele, assumindo a burca sobre suas madeixas louras, submetendo-se a regras que, pouco a pouco, vão minando sua felicidade e sua aposta na harmonia da vida a dois. As tentativas frustradas de Herra em engravidar dão ainda mais peso naquele relacionamento, pautado por códigos sexistas de opressão.
“Não enxergo essa narrativa como sendo um filme político, embora seja impossível não ter uma abordagem politizada ao falar sobre o Afeganistão. Mas minha questão essencial aqui é a arte de ser tolerante”, disse Michaela ao Estadão. “Trabalhei com uma equipe de estudantes recém-formados, num roteiro que começou em 2015”.
Teve Brasil em Annecy ainda na forma do tocante longa baiano “Meu Tio José”, de Ducca Rios, sobre os traumas da ditadura militar.

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