Blooks: Elisa Ventura, super-heroína da leitura

Blooks: Elisa Ventura, super-heroína da leitura

Rodrigo Fonseca

16 de outubro de 2020 | 13h03

Elisa Ventura volta a agitar a cena literária brasileira com a reabertura da livraria Blooks, no Espaço Itaú do Rio de Janeiro, em Botafogo

RODRIGO FONSECA
Vitaminado nas telas à força de Retrospectiva Christopher Nolan (tem “Interestelar”, tem “Dunkirk”), do poema sergipano “Abraço” (com atuação primorosa de Giuliana Maria) e com “Doce Entardecer na Toscana”, o Espaço Itaú, pulmão cinéfilo do Rio de Janeiro, está com as portas abertas há uns nove dias e, com sua reabertura, a Blooks – hoje o mais aconchegante reduto de resistência para a leitura em solo carioca – voltou em fervura máxima também. À frente da livraria, localizada no interior do multiplex (que fica na Praia de Botafogo), está Elisa Ventura. E ela sempre atende com sorrisos, sabedoria literária e boas dicas, ofertando respeito e dedicação aos leitores que passam diariamente por ali – com zero risco de aglomeração. No passado, já houve até pedido de casamento em clima de Star Wars por lá, com um jedimaníaco fantasiado de Darth Vader, entregando aliança à noiva. Respeitando todos os protocolos de segurança exigidos pela luta contra a Covid-19, a loja retomou seus trabalhos com o empenho de reaver o convívio presencial de quem ama a leitura. Na entrevista a seguir, Elisa fala do que mudou e expõe a fina arte de resistir.

A Blooks deu a Botafogo, no RJ, um canteiro de reflexão sobre literatura em meio a um oásis do cinema de autor, o Espaço Itaú. Mas o quanto o consumo físico da literatura, em livrarias e bibliotecas, foi abalado com essa pandemia? O que a sua livraria planeja como alternativa, nas redes sociais e presencialmente, para driblar os problemas relativos à pandemia?
Elisa Ventura:
A gente teve um baque grande, pois tínhamos evento todos os dias. Com a loja fechada, a gente continuou vendendo online, mas a grande fonte de receita, que eram os eventos, acabou. Pelo que percebo agora, acho que os eventos voltam no ano que vem, não com a força que tinham, mas aposto muito num modelo híbrido. Mesclar evento presencial com evento online: acho que essa é a tendência e é como quero trabalhar. A gente vai continuar com eventos na livraria com um porte menor, provavelmente, mas também vamos fazer uma transmissão deles pela internet. Ao mesmo tempo, a gente poder aumentar a possibilidade de ter autores, porque podemos trabalhar certos eventos presenciais sem a necessidade do escritor presente (com ela/ ele entrando online). Cada vez mais, acredito que o modelo da livraria é esse modelo híbrido. Não acredito só no online. Claro que não estamos falando de Amazon, porque é outra questão. Mas, acho que as pessoas precisam estar dentro da livraria.

Blooks lotada em dias anteriores à Covid-19

A Blooks já sediou de pedidos de casamento em ritmo de Star Wars a simpósios acerca da afirmação de lutas de equidade de gênero. Quais foram as histórias mais pitorescas que se passaram na loja? Que grandes autoras e autores estiveram em seu espaço?
Elisa Ventura:
A gente já teve situações muito engraçadas, uma vez que sempre abrimos as portas para todos os tipos de coisas, eventos e pessoas. A gente já teve esse casamento, que foi muito bacana, e já tivemos muitos inícios de namoro dentro da livraria. Já fizemos show dentro da livraria, com pessoas loucas cantando no meio. Já tivemos cantos xamânicos, já teve meditação. A gente realmente já fez de tudo dentro desse espaço. Já passaram por aqui: Valter Hugo Mãe, Monja Coen, Caetano Veloso, Marina Paula Santi, Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Ailton Krenak, Zuenir Ventura, Heloísa Buarque de Hollanda, Viviane Mosé e por aí vai.

Quais foram as surpresas do mercado editorial, nacional ou não, que você testemunhou desde a existência da loja? Que livros mais fizeram sucesso entre seus leitores?
Elisa Ventura:
Surpresa do mercado editorial não te falaria de livro especifico, não. A grande surpresa foi a mudança de interesse do público de modo geral. Hoje, a gente tem seções que nem pensávamos ter um tempo atrás. Nosso carro-chefe: feminismo, identidade africana, questões de gênero. São temas que antes nem existiam como seção de livraria e hoje eles ocupam espaços nobres. São temas que foram ganhando muita força de uns anos para cá. A própria mudança de público tem a ver com isso. Há um público mais jovem e atuante. Sou contra aquelas pessoas que falam que o jovem não lê. A gente teve eventos com muitos jovens.

Qual você acredita ser a característica mais típica (e peculiar) do mercado livreiro carioca?
Elisa Ventura:
Acho que o mercado livreiro carioca é muito diferente do mercado paulista, que é o que conheço. Basicamente, acho que a grande diferença é o atendimento, é a tal da informalidade boa e ruim do carioca. Acredito ser um atendimento muito mais pessoal do que o de qualquer outro lugar, e isso o faz ser muito diferente das livrarias paulistas. Essa proximidade do leitor e do público eu não vejo muito em outras livrarias que tenho, como em São Paulo, que passa por um atendimento mais formal, mas sempre eficiente. O Rio tem aquela ineficiência charmosa, para o bem e para o mal.

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