‘Bloodshot’: combustível aditivado a virtuosismo

‘Bloodshot’: combustível aditivado a virtuosismo

Rodrigo Fonseca

13 de março de 2020 | 10h43

Rodrigo Fonseca
Expert em efeitos visuais, com games de “Star Wars” em seu currículo, o estreante em longas-metragens Dave Wilson faz a mistura de tudo e mais pouco (“Amnésia”, “RoboCop”, “Vingador do Futuro”) chamada “Bloodshot” se azeitar de maneira surpreendente na tela. E o faz apoiado numa montagem vertiginosa e aliado a uma composição de arquétipos que recicla clichês, inclusive os de seu protagonista. Vin Diesel é, em geral, uma droga pesada no terreno entorpecente do cinema escapista. Mas, aqui, na pele do super-herói lançado pela editora Valiant, em 1992, sua química veio ainda mais refinada, uma vez que seu ferramental dramático vem se afiando a cada novo episódio da franquia “Velozes e Furiosos”, cujo novo tomo, o nove, acaba de ser adiado por conta do Coronavírus. Mas o que se perde ali, recupera-se aqui: Wilson nos dá um thriller formalmente requintado e dramaturgicamente potente, em seu diálogo com as HQs criadas por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton, com um formato à moda “Rambo”. Aos 52 anos, Mark Sinclair Vincent, nome real de Diesel, dá à figura do soldado da fortuna Ray Garrison uma fragilidade existencial que assegura tridimensionalidade ao personagem central de “Bloodshot”. No último Festival de Berlim, dame Helen Mirren, sua parceira em “Fast + Furious”, elogiou o colega, dizendo “Vin é um astro com A maiúsculo, com múltiplos talentos”. O elogio da estrela de “A Rainha” (2006) se faz notar nesta transposição de gibis classe B da indústria quadrinística dos EUA para as telas. Há uma frase, “Não se precisa do passado para viver o futuro”, que serve como uma bússola para o longa de Wilson: em seu roteiro, tudo o que entendemos como “ontem”, como o antecedente de Garrison, cai por terra uma vez que ele descobre ter tido suas memórias alteradas pelo cientista que salvou seu corpo da Morte: Dr. Emil Harting, encarnado com uma maestria contagiante por Guy Pearce.

Com ecos de “Soldado Universal” (1992), sci-fi pancada lançado no ano em que a Valiant lançou “Bloodshot”, a saga de Garrison começa em uma operação militar de sucesso, na qual ele demonstra suas virtudes guerreiras. Pouco depois, nos braços de sua namorada, ele sofre uma emboscada pelas mãos de um criminoso fã de Talking Heads e é assassinado, sendo revivido a partir de uma experiência que injeta nanorrobôs em forma de insetos em seu organismo. Essas máquinas diminutas dão a ele superforça, ampliam sua velocidade e garantem uma cura instantânea de seus ferimentos, o que entra em cena, logo após sua ressureição, numa cruzada de vingança contra o homem que o matou. Mas essa revanche logo se revela uma tola ilusão, manipulada por interesses militares que vão além de seus sentimentos. Quem sinaliza essa manipulação é KT, agente igualmente potencializada pelos nanos, vivida por com inteligência pela atriz mexicana Eiza González – olho nela!!! – que injeta um tônus melodramático no filme.

Ciente de ter sido ludibriado, Garrison parte para dar o troco, numa ciranda de viradas que a direção de Wilson administra com competência, vitaminando-as com uma luta em um elevador com fôlego para entrar para a história do cinema de ação. Na versão brasileira, Jorge Lucas dubla Diesel.

p.s.: Nesta sexta, às 17h, a Cinemateca do MAM-RJ exibe “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969), de George Roy Hill, na programação da mostra Paul Newman – Belo e Indomável, que segue até o dia 18, quando será exibido o brilhante “Ausência de Malícia” (1981).

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