‘Bizarros Peixes’ do Marão finaliza em junho

‘Bizarros Peixes’ do Marão finaliza em junho

Rodrigo Fonseca

24 de dezembro de 2021 | 11h20

Marão em sua mesa de luz

Rodrigo Fonseca
Papai Noel trouxe de presente para a cinefilia brasileira a notícia de que “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”, a estreia do animador Marcelo Marão no longa-metragem – após uma trajetória de 14 curtas, 632 festivais e 120 prêmios conquistados planeta afora -, tem, enfim, data para ser finalizada, incluindo som e imagem: junho de 2022. Noite após noite, madrugada após madrugada, o cineasta de 50 anos, egresso de Nilópolis, vem correndo contra o relógio para acrescentar um segundo a mais ao desenho animado que pode consagrar ainda mais seu nome, hoje encarado como símbolo de picardia estética. Projetado em 2019 em mostras na Argentina, no México, na Eslováquia, em Portugal e na Alemanha, “O Muro Era Muito Alto” foi o trabalho mais recente do realizador, que, hoje radicado em Copacabana, é famoso por promover encontros, debates e sinergias entre animadores de todo o país e do mundo. Seu trabalho atual aposta na irreverência, incumbindo a atriz Natália Lage de dar voz à protagonista. A trama fala sobre uma super-heroína de poder exótico: quando pronuncia a frase “Minha Bunda é Um Gorila!”, sua região glútea se metamorfoseia em um primata de meia tonelada. Com este superpoder e a ajuda de uma tartaruga que sofre de síndrome de Tourette (falando palavrões sem parar) e uma nuvem com incontinência urinária, ela tem que encontrar a cura para a doença de Alzheimer do seu avô.

“A maior dificuldade para se fazer longas no Brasil continua sendo o fomento para a produção, porque o país, apesar do Anticristo, cresceu e avançou surpreendentemente em todas as incontáveis facetas simultaneamente necessárias para a excelência demandada por um longa de animação. Temos capacidade técnica; infraestrutura de equipamento e softwares; logística de estrutura de equipe; conhecimento artístico e narrativo nas mais variadas esferas (roteiro, storyboard, cenários, design de personagens, composição, efeitos, acting, qualidade de desenho em movimento, originalidade narrativa e gráfica, produção executiva, diálogos, direção de vozes, sonorização, música e etc). Tudo isso avançou em progressão geométrica no Brasil nos últimos quinze anos de forma desproporcional em relação a qualquer outra área do audiovisual ou das artes gráficas”, comemora Marão, consagrado por cults como “Até a China” (2015). “Mas é essencial que os mecanismos de fomento continuem a existir para os curtas e longas, assim como as leis de exibição de produção independente nacional”.

A heroina dublada por Natália Lage

Não foi fácil singrar as águas da pandemia com um longa em andamento. Mais difícil ainda foi encarar os sinais de um acidente cardiovascular (AVC) anunciado e ter que mudar a rotina de sedentarismo que reduzia sua geladeira a dois itens: uma garrafa de vodka e uma lata de manteiga. Mas Marão passou por tudo isso, venceu, manteve seu projeto de longa no trilho e ainda teve tempo de conferir o que a animação mundial fez de melhor.

“Em um ano privado de muito festivais presenciais, tive incríveis surpresas com curtas que assisti em festivais online. Sempre considerei os curtas como o ponto alto da produção de animação de qualquer país. Entre as produções estrangeiras de grande porte, o meu favorito foi ‘The Mitchells vs. The Machines’, que embora seja um filme comercial voltado ao grande público, ousou em seu grafismo estonteante. É uma investigação que já havia sido iniciada no ‘Aranhaverso’, da mesma produtora, a Sony, com soluções de movimento e animação que durante décadas eu só via nos layouts conceituais”, elogia Marão. “Texturas e estilizações do traço visualmente muito mais próximas do giz de cera ou de páginas de quadrinhos inundaram as cenas deste longa, saudavelmente substituindo as exaustivas e repetitivas renderizações hiper-realistas que fatigam nossas retinas desde a popularização da computação gráfica. Também estou ansioso para assistir o documentário animado dinamarquês ‘Fuga’ (‘Flee’) e a animação ‘My Sunny Maad’, da diretora/animadora tcheca Michaela Pavlátova, de quem sou fã desde que conheci seus espetaculares curtas no Anima Mundi”.

p.s.: Já está em cartaz em circuito o monumental “Undine”, do artesão autoral Christian Petzold. Paula Beer foi ovacionada na capital germânica ao conquistar o Urso de Prata de melhor interpretação feminina por sua atuação no longa mais recente do Midas da produção germânica recente. Petzold ainda ganhou o prêmio da crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) a uma saga que Paula ajuda a erigir. Ela é uma historiadora que é abandonada pelo amante, uma vez que este prefere ficar com outra mulher, alegando falta de sal em sua relação. Eis que, entre andanças para desopilar o peito, ela esbarra com um escafandrista (Franz Rogowski) com quem vai mergulhar fundo no querer, numa trama que evoca o mito da sereia.

p.s.2: Feliz Natal!

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