‘Birdman’ bate asas no ‘Limbo’ de Iñárritu

‘Birdman’ bate asas no ‘Limbo’ de Iñárritu

Rodrigo Fonseca

03 de julho de 2021 | 09h59

Dublado no Brasil por Luiz Antônio Lobue, Michael Keaton (aqui sentado no set com o diretor Alejandro González Iñárritu) vive um astro decadente em “Birdman”: super-herói em Hollywood, ele busca redenção no teatro

RODRIGO FONSECA
Depois da notícia de que cerca de 500 figurantes serão usados (sem aglomeração) em “Limbo”, uma cartografia das falências morais do México, com Daniel Giménez Cacho (“Má Educação”) no elenco, a expectativa em torno deste filme, o novo de Alejandro González Iñárritu, disparou – e isso acontece enquanto ele celebra 25 anos de cinema. E tal disparo coincide com a chegada de seu aclamado “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (2014) – laureado com quatro Oscars, entre eles a estatueta de melhor direção – à MUBI, o streaming de curadoria humanizada. De um ritmo febril, o longa-metragem arrumou um espaço nobre também na grade da Amazon Prime. Todos querem Iñarritu, até lá na www.mubi.com, onde tem Kelly Reichardt, Christian Petzold e Claude Chabrol.

Filmes que conseguem reinventar (ou reciclar) a carreira de atores outrora famosos, mas chapados em rótulos, costumam se candidatar, de cara, ao brilho eterno do amor cinéfilo por seu fator surpresa e por seu espírito redentor. Assim sendo, “Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)” (título original) teria seu quinhão de aplauso só por soltar o bicho que, há tempos, andava preso na alma de Michael Keaton, pelo menos desde “Jackie Brown”, lá atrás, em 1998. Porém, existe mais do que um ator em estado de graça na produção de US$ 18 milhões filmada por Iñárritu em Manhattan, NY, fingindo ser um plano-sequência de 119 minutos de dramédia moral. Em um gesto de descarrego das tragédias que fizeram sua fama de “Amores Brutos” (2000) ao belo “Biutiful” (2010), o cineasta cria uma aeróbica de planos sem corte, alinhados por uma batida de pratos de bateria, numa maratona sinestésica, a fim de expressar a ressaca na qual a indústria audiovisual dos EUA se encontra. Repetições de fórmula, confinamento de astros a personalidades icônicos, uma política de continuações e de remakes – tudo isso chocou o chicano que surfou na Nueva Onda latino-americana dos anos 2000, a mesma que revelou “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles; os argentinos “El Bonaerense – O Outro Lado da Lei” e “Nueve Reinas” e paulistíssimo “O Invasor”, de Beto Brant.

Iñárritu de Daniel Giménez nas filmagens de “Limbo”

Diante de uma Babel distinta da sua “Babel” (pelo qual ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes em 2006), o cineasta egresso da Cidade do México achou Hollywood uma festa estranha com gente esquisita. E desta impressão tirou o clima desta comédia sobre um ator que, no passado, fez fortuna e fama sob a fantasia do Homem-Pássaro, e, no presente, amarga a indiferença dos colegas. Num empenho para reaver o respeito que perdeu (a começar pelo respeito consigo mesmo), Riggan Thomson (Keaton, numa atuação devastadora) tenta fazer uma peça na Broadway, tendo o quindim das artes cênicas (mas, ao mesmo tempo, garoto-enxaqueca dos palcos) como seu parceiro de ribalta: Mike (Edward Norton). Mas, com alma fraturada pela perda de prestígio e da autoconfiança, e com o bolso a vazar dólares por conta de uma montagem atribulada, Riggan vira uma espécie de Ubu Rei na patafísica que a Cultura das Celebridades se tornou: o darling de ontem é o looser de hoje. Bastava uma sequência para que o longa – laureado com Oscars de melhor filme, direção, roteiro original e fotografia – durasse para sempre em nós: o trecho no qual Keaton desfila só de cuecas pela Broadway, remoendo a impotência de ser uma estrela em ocaso. A fotografia de Emmanuel Lubezki enquadra a “Rua Larga” como uma Sodoma e Gomorra do entretenimento. Mas Iñarritu vai além e nos dá uma cena capaz de por abaixo a veleidade de uma das espécies mais ferozes da cadeia alimentar das artes: a crítica. O embate entre Riggan e a crítica de teatro nº1 de NY (Lindsay Duncan) revela a hipocrisia de uma classe que, por vezes, dá sinais de miopia, opacizada pela catarata da onipotência. Viva México! Viva Keaton!
Na ponta do lápis, “BIrdman”, que começou sua carreira no Festival de Veneza, fez sucesso comercial, tendo faturado US$ 103 milhões nas bilheterias. No Brasil, Luiz Antônio Lobue dublou Keaton.
Ainda falando das joias de Iñarritu, tem “Biutiful” na Amazon Prime também, com Javier Bardem em uma dilacerante atuação como um doente terminal às voltas com crises em seu trabalho e em sua família.

Na ponta do lápis, “Birdman”, que começou sua carreira no Festival de Veneza, fez sucesso comercial, tendo faturado US$ 103 milhões nas bilheterias: seu orçamento foi de US$ 18 milhões

p.s.: Tocante, em sua cartografia de solidões, “Seiva Bruta”, de Gustavo Milan, foi consagrado como Melhor Curta-metragem Internacional no SSFF & ASIA 2021, no Japão. Com a conquista, o filme está qualificado para tentar uma vaga no Oscar do ano que vem. A atriz venezuelana Samantha Castillo estrela esse drama sobre errâncias, que também possui o ator brasileiro Luiz Carlos Vasconcelos no elenco. Samantha é reconhecida principalmente por seu trabalho em “Pelo Malo”, de Mariana Rondon, ganhador da Concha de Ouro no Festival Internacional de San Sebastián. A trama de Milan aborda a imigração de venezuelanos para o Brasil, contando a história de Marta (Samantha), que está vindo para o Brasil e na sua vinda conhece um casal em dificuldades. Eles têm um bebê, mas só Marta tem leite para amamentar a criança. “Seiva Bruta” já conquistou sete prêmios internacionais. Além do SSFF & ASIA 2021, no Japão, o filme foi consagrado como Melhor Curta de Ficção e recebeu o Grand Chameleon no Festival de Cinema do Brooklyn, em Nova Iorque. O curta também já conquistou os prêmios de Melhor Curta Latino no Directors Guild of America; Melhor Curta-Metragem no Festival Internacional de Cinema de Rhode Island (Estados Unidos); Melhor Curta Metragem no National Board Review e Melhor Direção no Wasserman Awards, prêmio dado pela Universidade de Nova Iorque (NYU).

p.s.2: Penitente, o anti-herói de histórias em quadrinhos, criado pelo quadrinista gaúcho Lorde Lobo, está com uma campanha de financiamento coletivo, pelo site Catarse, objetivando arrecadar fundos para poder imprimir uma revista com cerca de 160 páginas. Para participar, acesse www.catarse.me/penitente.

p.s.3: Há cinco anos percorrendo os palcos do país, o monólogo “Nefelibato”, com Luiz Machado, volta ao cartaz, a partir de 7 de julho, simultaneamente no Teatro PetraGold (presencial) e no Sympla (virtual). Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, o espetáculo narra a trajetória de um homem que vai morar na rua após os efeitos devastadores da crise econômica nos anos 90. A trama é ambientada na década de 90, mas dialoga muito com o Brasil de hoje. Com 25 anos de carreira, Luiz Machado tem em “Nefelibato” o primeiro monólogo. “Anderson vai morar na rua nos anos 90, quando perde dinheiro e família, mas suas reflexões se encaixam muito bem no período em que estamos vivendo. Ele fala sobre as relações humanas, como as atitudes que nós tomamos sem pensar muito são individualistas. Durante essa pandemia, confinados em casa, tivemos a oportunidade de refletir a fundo sobre as relações sociais e o egoísmo que nos cerca”, acredita o ator.

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