‘Bio’, um puzzle com o sal de prata autoral de Carlos Gerbase

‘Bio’, um puzzle com o sal de prata autoral de Carlos Gerbase

Rodrigo Fonseca

03 de abril de 2019 | 16h48

Rodrigo Fonseca
Depois de quase um ano e meio de sua consagração no Festival de Gramado de 2017, do qual saiu com o prêmio do júri popular e o prêmio especial do júri para a delicada direção de sua trupe, “Bio”, um dos filmes brasileiros de maior originalidade nesta década, enfim arruma uma vaga em circuito, atraindo olhares para a dinâmica de fazer filmes do gaúcho Carlos Gerbase. Só “Sal de prata” (2005), uma declaração de amor ao processo de se narrar histórias com uma câmera na mão, já seria o suficiente para tornar sua carreira relevante. Mas há algo mais no currículo do diretor e escritor de 60 anos. Pensando que filmes como “3Efes” (2007) e o ótimo “Menos que nada” (2012) desafiaram as convenções de distribuição, ocupando múltiplas telas ao mesmo tempo, em vitrines variadas (TV, web, cines), já é possível compreendermos uma posição de vanguarda em sua prática de trabalho. Mas há uma singular contribuição em seu olhar de mundo que merece uma distinção. Em meio à euforia criativa do cinema de RS nos anos 1980, Gerbase surgiu como um sátiro, num Olimpo de realizadores instigados pelos gargalos políticos da época, propondo uma reflexão sobre o desejo como exceção às regras impostas. Curtas seminais como “Sexo & Beethoven – O Reencontro” (1980) e “O Corpo de Flávia” (1990) contorceram o vocabulário de denúncias e crônicas geracionais daquela região.

No longa-metragem, ele brilhou com “Tolerância (2000), que se impôs como um marco erótico de nossa Retomada. Sua prosa literária é igualmente avessa a paradigmas, como se vê no tom de “Ligações perigosas” que há em seu  romances “Professores” e no imbatível contos “Como comer a pêra”. Seu foco está no embate entre os verbos “desejar” e “obedecer”.  Em “Bio – Construindo uma vida” temos 39 estrelas revezando-se em  depoimentos num formato de mockumentário. Esse é o nome que se usa pra designar falsos .docs, como é o caso de “Zelig” (1983) e “This is Spinal Tap” (1984).

Em “Bio”, escudado pela refinada fotografia de Bruno Polidoro, Gerbase atomiza as cartilhas da biopic ao construir a biografia de um cientista fictício. Seu nome sequer é citado, mas seus feitos, em suas pesquisas sobre símios e em suas cirandas amorosas, mexeram com a vaidade de muita gente, em seus 110 anos, entre o fim dos anos 1950 e um futuro de 2070. Maria Fernanda Cândido, Maitê Proença, Marco Ricca, Rosane Mulholland e outros talentos criam uma colcha de retalhos sobre a sociedade brasileira de 1959 até hoje. A montagem de Milton do Prado dá uma progressão aritmética à cada fala, o que exponencia angústias, ciúmes e ressentimentos.

No longa de Gerbase, Maria Fernanda Cândido é uma exobióloga que dá depoimentos sobre um cientista que viveu 110 anos

Na entrevista a seguir, ao P de Pop, Gerbase faz um balanço de seu mais fino exercício autoral.

Como se definir uma experiência mockumental como “Bio”?
Gerbase:
Imagine uma mistura do Eduardo Coutinho com David Lynch. É o que daria conta da experiência de se documentar uma história de vida de 110 anos no momento em que os fatos estão se dando, ou seja, os acontecimentos dos anos 1950 são documentados nos anos 1950. Gosto muito de documentários, emociono-me muito com os filmes do Coutinho, a ponto de sempre exibir “Edifício Master” para meus alunos, mas sou um ficcionista. Minha ideia era usar o que sei sobre docs numa ficção, com liberdade total para me divertir e divertir a plateia na fronteira entre o que é falso e o que impossível.

De que maneira “Bio” dribla as convenções das cinebiografias?
Gerbase:
As biopics costumam ficar presas a fatos, ao que aconteceu com os personagens, e não têm liberdade para abordar outras questões, afetivas, importantes para o protagonista ou para o mundo de que ele faz parte. A brincadeira de “Bio” é fazer um .doc possível, de uma vida de fatos extraordinários, sendo alguns deles bem possíveis de acontecerem na rotina de qualquer um. É uma biografia de um tempo, que vai do fim da década de 1950, até o futuro.

Gerbase na projeção de “Bio” no Festival do Rio de 2017 @Davi Campana/R2

E que preocupações costuram essa viagem no tempo?
Gerbase:
A preocupação de consertar o que a gente fez de errado, de repensar os amores que não terminaram bem, de revisar questões sociais que marcaram a minha geração, uma vez que eu nasci em 1959, como o protagonista.

Qual é o lugar da palavra e do silêncio num filme de depoimentos como “Bio”?
Gerbase:
Chamam a atividade cinematográfica de “audiovisual” mas costumo dizer que ela é “áudio-verbo-visual”, pois as palavras fazem parte da narrativa, a menos que você queria só fazer cinema mudo, o que não é o meu caso. Existem pontos em que a imagem é o que há de mais importante. Há momentos em que uma música poderosa é usada e ela requer uma pausa no diálogo, a fim de produzirmos para calçar essa canção uma imagem tão poderosa como ela. E há trecho em que o diálogo é crucial. O ritmo vem da montagem, mas, já no roteiro, você se dá conta dos momentos de pausa, de silêncio. No set de “Bio”, fiz tudo em estúdio, o que me deu a chance de filmar os atores várias vezes até as palavras estarem expostas com a emoção mais radical. Trocava-se o cenário, mas o sagrado momento da entrevista permanecia.

Quais são os planos para o futuro pós “Bio”?
Gerbase:
Fiz 60 anos em fevereiro. Agora, sexagenário, o que eu quero é fazer cinema. A Iuli, minha filha, vai rodar o primeiro longa dela agora, “A nuvem rara”, usando nosso apartamento como locação. E eu tenho uma série de projetos, inclusive de séries. Tenho a sensação que o meu trabalho, como se vê em “Bio” e no livro “Professores”, aproximou nosso cinema do mundo acadêmico.

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